Caríssima D. - Não poderia deixar sem resposta seu elogio a meu
texto em elogio a Vieira, principalmente você usando assim um termo tão
carinhoso, tão amigável, tão... nem sei o que dizer, um
termo que leva a ser tão cego, a você não ver que o texto
não estava "maravilhosamente escrito", mas vergonhosamente.
Havia dois erros de concordância já no primeiro parágrafo
que são de arrepiar os cabelos de um careca, do relógio, da moral
de um escritor. Tenho uma justificativa: resumi uma notícia sobre Vieira,
deixando o verbo como estava sem prestar atenção à concordância,
em dois casos. Outra justificativa, para piorar: não reli justamente
essa passagem. Eu não a tinha escrito, não eram propriamente frases
minhas, não valia a pena prestar atenção nelas. Tudo que
criamos é nosso, o pai deve prestar atenção se o filho
não está mal vestido, se está se comportando direito, mesmo
se for um filho adotivo...
Falando em filho adotivo, estive lendo um trechinho de uma biografia de Machado
de Assis, só para recordar - porque recordar é viver, e quem não
vive é porque não deu corda outra vez ou outra vez não
teve coração. Chamou-me a atenção um caso mínimo,
Machado ganhar uma madrasta, negra como a mãe, que lhe ensinou as primeiras
letras sem imaginar que estava ensinando os primeiros passos ao maior vulto
de nossas letras. Chamou-me a atenção porque lembrei-me de minha
primeira professora, que inutilmente tentou ensinar-me as primeiras letras.
Coitada, não iria imaginar que aquele estúpido que relutava em
aprender, que de modo algum conseguia aprender a ler e escrever, seria um dia
um escritor, talvez um dos últimos, mas um escritor. Coitada, hoje velhinha
e com Alzheimer, a minha irmã se lembra dela como a minha primeira professora
porque contei num poema em prosa que saí analfabeto da escolinha de sítio
de minha infância. Não foi culpa dela, minha boa irmã. Eu
é que era muito tapado. Talvez eu estivesse certo quando me auto-diagnostiquei
uma dislexia, que, com muitos exercícios, superei. De um modo ou de outro,
tive o meu "estalo de Vieira", passei a aprender milagrosamente bem.
Levei oito anos para aprender a ler e escrever - não era bem tapado?
Não que me faltasse inteligência. Faltava-me o instrumento para
usar a inteligência. Descoberta a linguagem, estava aberto o caminho para
o conhecimento.
Muita gente passa a vida inteira escrevendo, e não descobre a linguagem.
Eu levei apenas oito anos.
Mas 2008 é o Ano de Machado de Assis. Os portugueses geralmente têm
bom gosto, principalmente no uso da língua, mas com o ano de Vieira foi
de doer. Ano Vieirino! Pode haver mais falta de mau gosto? Esbanjaram. Você
já pensou se no Brasil chamássemos o ano de Machado de Assis de
alguma coisa como Ano Assisino? Quanta gente não estaria lendo Ano Asinino!
Até eu, que troco a posição das letras na leitura e na
escrita. Mas, afinal, com tanta burrice rolando no gramado ou no bestunto de
tanto presunto antecipado até que ficaria bem um Ano Asinino!
De tanto ver triunfar tanta nulidade... Como é o texto de Rui Barbosa?
Um tanto passado, cheira queimado ou bolor de tão velho, mas há
horas em que a gente tem vergonha de ser inteligente. Não foi isso que
Rui disse, inteligente. Mas é de inteligência que eu estou tratando.
Não faltam cabeças neste país, no entanto...
No Mosteiro da Luz foram encontrados os restos mortais de duas freiras, uma
encostando a cabeça no ombro da outra. Uma estava mumificada - qual delas?
A que oferecia o ombro? É um gesto meio carinhoso, para duas freiras,
lembra namoro, não? No dia seguinte encontraram mais uma, solitária.
Mas por que estou anotando isso? Por que não deixamos os mortos descansar
em paz? Não temos mais com que nos preocupar neste país? Voltemos
a Vieira: "Muitos cuidam da reputação, mas não da
consciência." Não está falando de hoje? Quase, hoje
nem da reputação cuidam. Nem ouvem Machado de Assis: "O maior
pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado."
Mas quem é que disse que prezam ler, quem é que disse que ao menos
sabem ler? De um governo que despreza a cultura, tudo se pode esperar. Aliás,
nada se pode esperar.
O importante é vencer. A cultura, que se dane. Os fins justificam os
meios, Machiavel nunca sonharia perdurar tanto. Uma funcionária foi demitida
por soltar muitos flatos, um juiz mandou readmiti-la e multou a firma - um rastro
de mal-cheiro muitos rabos soltos e presos exalam a torto e a direito. Tenho
dito, e viva a política da flatulência!