A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Ano Asinino

(José Carlos Brandão)

Caríssima D. - Não poderia deixar sem resposta seu elogio a meu texto em elogio a Vieira, principalmente você usando assim um termo tão carinhoso, tão amigável, tão... nem sei o que dizer, um termo que leva a ser tão cego, a você não ver que o texto não estava "maravilhosamente escrito", mas vergonhosamente. Havia dois erros de concordância já no primeiro parágrafo que são de arrepiar os cabelos de um careca, do relógio, da moral de um escritor. Tenho uma justificativa: resumi uma notícia sobre Vieira, deixando o verbo como estava sem prestar atenção à concordância, em dois casos. Outra justificativa, para piorar: não reli justamente essa passagem. Eu não a tinha escrito, não eram propriamente frases minhas, não valia a pena prestar atenção nelas. Tudo que criamos é nosso, o pai deve prestar atenção se o filho não está mal vestido, se está se comportando direito, mesmo se for um filho adotivo...

Falando em filho adotivo, estive lendo um trechinho de uma biografia de Machado de Assis, só para recordar - porque recordar é viver, e quem não vive é porque não deu corda outra vez ou outra vez não teve coração. Chamou-me a atenção um caso mínimo, Machado ganhar uma madrasta, negra como a mãe, que lhe ensinou as primeiras letras sem imaginar que estava ensinando os primeiros passos ao maior vulto de nossas letras. Chamou-me a atenção porque lembrei-me de minha primeira professora, que inutilmente tentou ensinar-me as primeiras letras.

Coitada, não iria imaginar que aquele estúpido que relutava em aprender, que de modo algum conseguia aprender a ler e escrever, seria um dia um escritor, talvez um dos últimos, mas um escritor. Coitada, hoje velhinha e com Alzheimer, a minha irmã se lembra dela como a minha primeira professora porque contei num poema em prosa que saí analfabeto da escolinha de sítio de minha infância. Não foi culpa dela, minha boa irmã. Eu é que era muito tapado. Talvez eu estivesse certo quando me auto-diagnostiquei uma dislexia, que, com muitos exercícios, superei. De um modo ou de outro, tive o meu "estalo de Vieira", passei a aprender milagrosamente bem. Levei oito anos para aprender a ler e escrever - não era bem tapado? Não que me faltasse inteligência. Faltava-me o instrumento para usar a inteligência. Descoberta a linguagem, estava aberto o caminho para o conhecimento.

Muita gente passa a vida inteira escrevendo, e não descobre a linguagem. Eu levei apenas oito anos.

Mas 2008 é o Ano de Machado de Assis. Os portugueses geralmente têm bom gosto, principalmente no uso da língua, mas com o ano de Vieira foi de doer. Ano Vieirino! Pode haver mais falta de mau gosto? Esbanjaram. Você já pensou se no Brasil chamássemos o ano de Machado de Assis de alguma coisa como Ano Assisino? Quanta gente não estaria lendo Ano Asinino! Até eu, que troco a posição das letras na leitura e na escrita. Mas, afinal, com tanta burrice rolando no gramado ou no bestunto de tanto presunto antecipado até que ficaria bem um Ano Asinino!

De tanto ver triunfar tanta nulidade... Como é o texto de Rui Barbosa? Um tanto passado, cheira queimado ou bolor de tão velho, mas há horas em que a gente tem vergonha de ser inteligente. Não foi isso que Rui disse, inteligente. Mas é de inteligência que eu estou tratando.

Não faltam cabeças neste país, no entanto...

No Mosteiro da Luz foram encontrados os restos mortais de duas freiras, uma encostando a cabeça no ombro da outra. Uma estava mumificada - qual delas? A que oferecia o ombro? É um gesto meio carinhoso, para duas freiras, lembra namoro, não? No dia seguinte encontraram mais uma, solitária. Mas por que estou anotando isso? Por que não deixamos os mortos descansar em paz? Não temos mais com que nos preocupar neste país? Voltemos a Vieira: "Muitos cuidam da reputação, mas não da consciência." Não está falando de hoje? Quase, hoje nem da reputação cuidam. Nem ouvem Machado de Assis: "O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado." Mas quem é que disse que prezam ler, quem é que disse que ao menos sabem ler? De um governo que despreza a cultura, tudo se pode esperar. Aliás, nada se pode esperar.

O importante é vencer. A cultura, que se dane. Os fins justificam os meios, Machiavel nunca sonharia perdurar tanto. Uma funcionária foi demitida por soltar muitos flatos, um juiz mandou readmiti-la e multou a firma - um rastro de mal-cheiro muitos rabos soltos e presos exalam a torto e a direito. Tenho dito, e viva a política da flatulência!

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