Caríssimo F. - Malraux disse que são precisos 60 anos e não
9 meses para fazer um homem. Opa! Tenho um ano de idade!
Com um ano de idade estou deglutindo devagarinho o inismo. Sempre fui muito
tradicional, embora haja quem me considere moderno. Moderno vá lá,
tento ser do meu tempo. Mas não de vanguarda. Aliás, a vanguarda
não é do seu tempo. Quer estar além, o que vira um defeito:
não está, não existe ainda. Aliás outra vez, sou
de retaguarda: me formei, me comporto como o pessoal da geração
anterior à minha. Leitores de Rilke, T. S. Eliot, Thomas Dylan, dos surrealistas...
O Aran me pediu hoje emprestado (viva! vai ler um gênio!) Os Cantos de
Maldoror, de Lautréamont, um monumento adorado pelos surrealistas, fundador
da Modernidade como Baudelaire ou Mallarmé. Traduzido em 1970 (quando
eu comprei, no centenário de Lautréamont) por Cláudio Willer,
da geração anterior à minha. Como Dora Ferreira da Silva,
excelente poeta, é tradutora de Rilke. Ou Renata Pallotini, outra excelente
poeta, que esteve em Dois Córregos no Encontro Internacional de Poesia
e gostou da minha poesia. O pessoal da minha geração é
a Geração Mimeógrafo ou Marginal, que como seu guru (quase
guaru!) Chacal... Não consigo ver os caras senão como poetinhas.
Às vezes respeito algum, principalmente um amigo, o Vitor Martinello.
Essa turma começou e continuou com Chacal imitando Oswald de Andrade
(endeusado pelos concretistas, que assim aplaudem os marginais; para mim ainda
poetinha, inda que com a carga de afetividade que essa palavra tem). Não
é que os caras seguindo Oswald, da Geração de 1922, ficaram
mais "modernos" que os da "geração de 60"
que liam Drummond e Murilo, Jorge de Lima e Cecília Meireles, da Geração
de 30?! Ficaram de algum modo com a cara da contemporaneidade, que eu não
tenho. Perdi o bonde da História? Ou só da "história",
assim com minúscula, palavra bonita, até com mais carga de significado.
("Perdi o bonde e a esperança", disse Drummond. Eu perdi o
bonde, não a esperança. Sou salvo pela esperança - "Spes
Salvi", disse Bento XVI, ensinando que a esperança não é
de cousas futuras, mas de sabermos que vivemos hoje a verdade de Cristo Ressuscitado.
Apocalypse Now! - vivemos agora o apocalipse, o fim dos tempos é a vinda
do Cristo, que já veio. Mas estou navegando em águas teológicas,
como se eu dissesse com o poeta, que apenas queria ser irônico: "agora
serei eterno!")
Mas, pô! Eu tenho um ano de idade! E essa atitude - a atitude "eu
tenho um ano de idade!" - é bem inista. Não que eu queira
parecer "moderno". Tanto que sempre tenho vontade de botar essa palavra
entre aspas. "E como ficou chato ser moderno" - disse Drummond. Até
a palavra "moderno" ficou chata. É que é simpático
o inismo. Sabe o que me parece? O dadaísmo. O dadaísmo também
é simpático pra chuchu. E essa expressão "pra chuchu"
também é demodée, que como a palavra "demodée"
é fora de moda - eu recrimino um Ivan Lessa usar esse tipo de expressões,
"pra chuchu", "fora do gibi", outro de uma geração
e meia anterior à minha, ou duas. Mas o dadaísmo não morreu!
Virou inismo. O dadaísmo também era internacional. Nasceu quando
o mundo virou uma grande aldeia, na 1ª Guerra Mundial. Ah, outro dia peguei
um pedaço de conversa do Aran com um amigo que contava sobre um zine,
que "então pus ali um poema dadaísta!" E eu me perguntei:
O que é isso? O carinha sabia do que tava falando? Eu ensinava a meus
alunos, para ensinar vanguardas e até para divertir, a receita de um
poema dadaísta (resumindo: pegue uma tesoura, recorte de um jornal palavras
a olho, bote num saco, chacoalhe, e distribua aleatoriamente numa folha - o
resultado será um poema absolutamente original, embora incompreendido
do público, e dos críticos). Não sei se algum dia um dadaísta
fez algum poema - o seu objetivo não era esse. Era existir como dadaísta.
Dadá é tudo, Dadá não significa nada, diziam. No
caos intelectual, espiritual, etc. da 1ª Guerra a saída era Dadá.
A 1ª palavra que a criança fala - e eu tenho um ano de idade! A
palavra que não quer dizer nada e diz tudo. Não estamos vivendo
num caos outra vez? (Outra? Quando foi que o homem não viveu num caos?
Desde o caos da Babilônia, e seus mitos da origem do mundo, uma explosão
no caos, uma deusa que explode e de seus fragmentos nojentos surge o universo,
desse caos que os autores bíblicos suavizaram contando a origem do mundo
em ordem, 1º dia, 2º dia, etc., e tudo era belo e bom, isto é,
não era o caos.) Podemos estar vivendo num caos, que justifica que balbuciemos
"da, da, dadá". Chamar de arte será uma conseqüência,
isso virá depois, a arte acontece sempre a posteriori.
Expliquei? Confundi? Bota ponto final. E me abrace (dizia Mário de Andrade,
que, carente, não mandava, mas pedia abraço). Estou carente? Apenas
cito Mário de Andrade epistolando a Manuel Bandeira, tão-só
pelo prazer de citar, mas atire a primeira pedra quem não estiver (digo,
sabendo que quem não estivesse atiraria o primeiro abraço).