"A poesia não é magia. A transcendência da poesia, como
de qualquer outra arte, acha-se na sua capacidade em dizer a verdade, para desencantar
e desintoxicar" - disse W. H. Auden, que é um dos maiores poetas do
século 20, sabe o que diz, e portanto merece ser ouvido. Mas a frase, aparentemente
bela, contundente, com termos fortes que nos chamam a atenção, como
"magia", "transcendência" e "verdade", parece
que não funciona bem, que foi feita mais para impressionar.
Senão, veja só. Se poesia não é magia, é o
quê? Qual é o elemento que torna um texto poesia, senão justamente
a magia? As palavras se unem e, num passe de mágica... Não, estou
me repetindo. De propósito, a repetição é um dos melhores
recursos para se escrever. O escritor vai-se repetindo, e repetindo, e, por acaso
ou bem por querer, chega lá - conduz o leitor até lá onde
ele queria. O leitor diz: É óbvio! Estava na cara, era o que eu
queria dizer! A grande arte do escritor é se apagar de tal forma, que o
leitor pense estar descobrindo a verdade, a transcendência - para me ater
aos termos de que Auden se vale.
Mas vou sem pressa. Eu falava da magia. Não num passe de mágica,
mas num trabalho consciente do poeta, na medida do possível consciente,
as palavras se encontram, se estranham ou se beijam, copulam, sim, como se fosse
um ato carnal, e acontece a mágica: nasce o filho - a imagem, o inusitado,
o milagre, a epifania, a revelação, uma faísca, um relâmpago...
Você não chamaria a esse processo de mágica? Auden não
fala na transcendência da poesia? Quer maior transcendência do que
a magia? O mágico não é um iluminado, um emissário
do transcendental, mas um operário, um artista da prestidigitação,
especialista em enganar, em fingir ("O poeta é um fingidor...",
eu não queria citar Fernando Pessoa, já tão citado - mas
tinha que falar em fingir!).
O próprio Auden não admite o transcendental? Oras, a poesia é
uma iluminação. A palavra se transfigura, torna-se imagem, não
tem mais o sentido banal, mas potencializa-se, num salto no escuro, para uma outra
realidade. Toda arte é surrealista: transcende a realidade. O verbo de
Deus cria o mundo. O verbo do poeta cria a realidade. Não aquela do pão-pão,
pedra-pedra, nem a em que o pão deixa de ser pão e a pedra deixa
de ser pedra, embora isso possa acontecer. Mas a do pão que é mais
do que o pão, da pedra que é mais do que a pedra. A palavra não
é a pedra ou o pão, é mais do que isso: é o absoluto.
A palavra é a imagem que o poema cria (Frost) e que cria o poema. Por que
não chamar de magia a esse processo, se o chamou de transcendental?
Posto isso, vou ao fato mais grave. Onde está esse transcendental? Em criar
a imagem, em iluminar, na revelação súbita de um dado do
inconsciente, do real mais forte do que o real, ou de um outro real, ou apenas,
basicamente, dar a ver o real? Não, o transcendental está em dizer
a verdade. Certo que até um René Char disse que poesia e verdade
são sinônimos. Mas René Char era um poeta alado, e sabia disso,
não vale. René Char era um cavalo, pastava o sonho ou o capim da
verdade, tanto faz. O difícil é ouvir um poeta como Auden dizer
que a obrigação da poesia é dizer a verdade. O que é
a verdade? A emoção do poema deve ser autêntica, os dados
que são lançados ao acaso ou estruturados com o labor do artífice,
esses dados, como acabei de dizer, foram manipulados pelo acaso ou pelo artista.
Sempre achei o acaso um deus muito pobre, muito pouco deus, então fico
com o artista, pobre, mas, enquanto artista, senão criador como Deus, ao
menos bom manipulador.
Por fim, estranha a função do poema segundo Auden? Desencantar e
desintoxicar. Perfeito. Aqui dou a mão à palmatória, embora
preferisse o termo "encantar". A poesia é um encantamento, ah,
uma magia, voltei ao início. Mas pense em se desencantar e desintoxicar
da burocracia, do mundo mecânico, artificial, das idéias feitas,
etc. Perfeito. Uma bela função para a poesia, e já não
mais tão estranha.