A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

A magia da poesia

(José Carlos Brandão)

"A poesia não é magia. A transcendência da poesia, como de qualquer outra arte, acha-se na sua capacidade em dizer a verdade, para desencantar e desintoxicar" - disse W. H. Auden, que é um dos maiores poetas do século 20, sabe o que diz, e portanto merece ser ouvido. Mas a frase, aparentemente bela, contundente, com termos fortes que nos chamam a atenção, como "magia", "transcendência" e "verdade", parece que não funciona bem, que foi feita mais para impressionar.

Senão, veja só. Se poesia não é magia, é o quê? Qual é o elemento que torna um texto poesia, senão justamente a magia? As palavras se unem e, num passe de mágica... Não, estou me repetindo. De propósito, a repetição é um dos melhores recursos para se escrever. O escritor vai-se repetindo, e repetindo, e, por acaso ou bem por querer, chega lá - conduz o leitor até lá onde ele queria. O leitor diz: É óbvio! Estava na cara, era o que eu queria dizer! A grande arte do escritor é se apagar de tal forma, que o leitor pense estar descobrindo a verdade, a transcendência - para me ater aos termos de que Auden se vale.

Mas vou sem pressa. Eu falava da magia. Não num passe de mágica, mas num trabalho consciente do poeta, na medida do possível consciente, as palavras se encontram, se estranham ou se beijam, copulam, sim, como se fosse um ato carnal, e acontece a mágica: nasce o filho - a imagem, o inusitado, o milagre, a epifania, a revelação, uma faísca, um relâmpago... Você não chamaria a esse processo de mágica? Auden não fala na transcendência da poesia? Quer maior transcendência do que a magia? O mágico não é um iluminado, um emissário do transcendental, mas um operário, um artista da prestidigitação, especialista em enganar, em fingir ("O poeta é um fingidor...", eu não queria citar Fernando Pessoa, já tão citado - mas tinha que falar em fingir!).

O próprio Auden não admite o transcendental? Oras, a poesia é uma iluminação. A palavra se transfigura, torna-se imagem, não tem mais o sentido banal, mas potencializa-se, num salto no escuro, para uma outra realidade. Toda arte é surrealista: transcende a realidade. O verbo de Deus cria o mundo. O verbo do poeta cria a realidade. Não aquela do pão-pão, pedra-pedra, nem a em que o pão deixa de ser pão e a pedra deixa de ser pedra, embora isso possa acontecer. Mas a do pão que é mais do que o pão, da pedra que é mais do que a pedra. A palavra não é a pedra ou o pão, é mais do que isso: é o absoluto.

A palavra é a imagem que o poema cria (Frost) e que cria o poema. Por que não chamar de magia a esse processo, se o chamou de transcendental?

Posto isso, vou ao fato mais grave. Onde está esse transcendental? Em criar a imagem, em iluminar, na revelação súbita de um dado do inconsciente, do real mais forte do que o real, ou de um outro real, ou apenas, basicamente, dar a ver o real? Não, o transcendental está em dizer a verdade. Certo que até um René Char disse que poesia e verdade são sinônimos. Mas René Char era um poeta alado, e sabia disso, não vale. René Char era um cavalo, pastava o sonho ou o capim da verdade, tanto faz. O difícil é ouvir um poeta como Auden dizer que a obrigação da poesia é dizer a verdade. O que é a verdade? A emoção do poema deve ser autêntica, os dados que são lançados ao acaso ou estruturados com o labor do artífice, esses dados, como acabei de dizer, foram manipulados pelo acaso ou pelo artista. Sempre achei o acaso um deus muito pobre, muito pouco deus, então fico com o artista, pobre, mas, enquanto artista, senão criador como Deus, ao menos bom manipulador.

Por fim, estranha a função do poema segundo Auden? Desencantar e desintoxicar. Perfeito. Aqui dou a mão à palmatória, embora preferisse o termo "encantar". A poesia é um encantamento, ah, uma magia, voltei ao início. Mas pense em se desencantar e desintoxicar da burocracia, do mundo mecânico, artificial, das idéias feitas, etc. Perfeito. Uma bela função para a poesia, e já não mais tão estranha.

Copyright © 1999-2020 - A Garganta da Serpente