1. Quem diria?! Começar uma crônica, ou melhor, escrever uma crônica
como Nelson Rodrigues. Qual é a semelhança? Ora (direis) ouvir
estrelas! Nelson Rodrigues numerava, sem nenhuma lógica, sem nada que
justifique tal processo, os parágrafos. E ficava bem! Suas crônicas
sabiam às do velho mestre Machado de Assis. Mais terra a terra, nem que
fosse só porque mais século vinte, mais contemporaneidade. Machado
começou o século - mas fez suas crônicas na segunda metade
do outro. Nelson estourou o meio do século - estourou é o termo,
as famílias bem comportadas do século vinte mostraram a sua cara
despudorada.
2. Nelson estourou a boca do balão, ele, o cronista esportivo, que se
esquecia do futebol amado para fazer filosofia, não a filosofia de alcova
que disseminava nos seus contos trágicos, romances folhetinescos não
menos trágicos e peças de teatro muito mais trágicas. A
vida era um pão caído no chão com a manteiga para baixo
que o pobre levantava e lambia deliciado. Nelson não falou da miséria,
dos miseráveis da sarjeta da vida: não era necessário.
A vida era uma cabra vadia num terreno baldio - e lasca entrevista! Toda entrevista
é imaginária - não era preciso dizer. E o entrevistador
é uma dama - que dama! - vadia. Era preciso uma cabra para dizer o óbvio
ululante.
3. Nelson era uma flor de obsessão. Como soa bem essa frase - flor de
obsessão! O cara era um fazedor de frases. Estou chovendo no molhado,
todo mundo sabe disso, mas não é porque a terra já está
molhada que a chuva não é bem-vinda. Que doces as obsessões
de Nelson Rodrigues! Mesmo quando não eram nada doces, amargas, azedas,
- eram o sal, o tempero da vida. Que seria de mim sem as minhas repetições!
Também vou repetir muito que o homem era um grande repetidor. Drummond
era um grande repetidor, Dostoievski, que ele reverenciava, era um grande repetidor.
Temo o homem de um só livro, temo o homem de uma só idéia!
Nelson era o homem de um só livro, de uma só idéia. Foi
um homem que abalou o mundo.
4. A professora mandou o molequinho fazer uma redação, ele tinha
apenas sete anos de idade, era uma flor ainda em botão - de obsessão,
mas flor em botão! E não é que o molequinho conta uma história
de adultério, com o conseqüente assassinato da adúltera e
do amante pelo marido cornudo - mas honrado! "Foi a minha primeira 'A vida
como ela é'", conta Nelson. O lambe-lambe da vida, o retratista
dessa rameira desavergonhada - como ela é, sem retoques - nasceu formado,
de berço. Apressado, escrevendo para jornais, não tinha tempo
para literatices, para embelezar a linguagem ou a vida, que, antes de ser bela,
era trágica. A vida como ela é - é trágica.
5. Nelson Rodrigues viveu uma vida trágica - não vou contar aqui,
não gosto de histórias trágicas. E, naturalmente, acabei
de contar uma mentira. Todos os homens gostam de histórias trágicas
e todos os homens contam mentiras, os escritores mais ainda. A mentira é
a forma da verdade na arte.
6. Nelson era um homem religioso, sabia que a Bíblia é o Livro.
É onde "a vida como ela é" está cuspida e escarrada.
A Bíblia conta a história de um povo, de uma grande família
com todos os defeitos, todas as taras, todas as distorções que
há numa grande família. Criticam a Palavra de Deus por isso, que
um livro que se diz a Palavra de Deus não pode ter tanta sacanagem. Ora,
pois! Nelson Rodrigues mostra a família burguesa do século vinte
com taras e neuroses saindo pelos fundilhos, quem diria a família de
Deus, enorme, grande como as areias do mar, vivendo ao longo de séculos
e séculos! E dizem que o Deus do Antigo Testamento era cruel!
7. Certo, sei que o Deus do Amor veio depois, no Novo. Mas o Velho, quero dizer,
o Deus do Velho Testamento - como era paciente, como era misericordioso, como
perdoava! Não abandonou aquele povo teimoso, recalcitrante, que só
vivia para pecar - O meu destino é pecar! Era como se fosse uma tragédia
- não uma tragédia grega, com a sua catástrofe e sua purificação
espiritual, e ponha catarse nisso! - mas a tragédia comezinha, as pequenas
grandes dores beirando o ridículo das mulheres e seus maridos postas
a nu - Toda nudez será castigada! - por Nelson Rodrigues.
8. Outro dia foi preso um cara que matou o amante da esposa, lavou a sua honra,
porque era um homem honrado. Conta sem nenhuma emoção como entrou
lá e fez - "entrei e fiz" -, mais nada. No braço do
personagem, desse marido honrado, está tatuado um caixão de defunto
bem visível, com as letras bem visíveis do nome do morto, o amante
da mulher, e com a data do crime. A mulher continua bela e formosa. O marido
vai preso sem nenhum arrependimento, faria outra vez, contra o fazedor de chifres,
não contra a mulher, coitada. A frieza, meus caros, da Vida Como Ela
É. Nelson Rodrigues se revira na tumba - "Essa história é
minha! Plágio, plágio!"
9. A vida imita a arte, que a tempera.
10. Nelson Rodrigues disse que o homem não é triste por causa
da morte, mas da vida. A morte é libertação. A vida é
que faz sofrer, a morte livra-nos de todos os males. Todas as mulheres gostam
de apanhar, disse. Todas as mulheres e todos os homens, Nelson. E não
adianta corrigir que só as mulheres normais e os homens normais - nem
os neuróticos reagem mais, Nelson.
11. Plínio Marcos aprendeu a escrever com Nelson Rodrigues, foi um excelente
teatrólogo, foi, para completar o quadro, uma personalidade complexa.
Mas não fez bem a lição de casa. Suas taras estão
no lugar de taras, nas celas de prisão, nos bordéis, nos prostíbulos
baratos. Seus personagens são prostitutas e prostitutos, marginais, a
escória da sociedade. Não entendeu nada do mestre: os personagens
e o cenário de Nelson são a santa e respeitável família
burguesa. O discípulo esculhambou com o esculhambado, com a escória.
O mestre esculhambou com o bom comportamento das salas de visita de nossa sociedade.
Que nunca mais foi a mesma: mostrou a sua cara, ridícula, de dramalhão
de segunda, escória como a mais reles escória.
12. A família que é espezinhada em "Senhora dos Afogados"
tem um belo sobrenome: Drummond. Alguma segunda intenção? Alguma
referência velada ou nem tanto? Mas Drummond tem algo de um título
de nobreza, e a peça não revela nobreza nenhuma: Nelson foi um
trágico, mas não à maneira dos clássicos gregos.
O mar não traz nenhum afogado à praia, afogado nenhum bóia
nesse mar: quem morreu, acabou. A morte é para sempre. Sem nenhuma nobreza.
Com todo o ridículo de um dramalhão de segunda categoria. Essa
é a tragédia brasileira.
13. Eras uma flor de obsessão, sempre repetindo as mesmas obsessões,
assumindo essas obsessões, assumindo o reacionarismo mais ordinário,
embora até bonito, e a vanguarda da devastação da condição
humana, terra desolada, terra de ninguém. A Cabra Vadia nos faz confessar
que ninguém, mas ninguém mesmo é inocente depois de Nelson
Rodrigues. Quem não tem um crime para confessar, uma injúria e
uma blasfêmia, um adultério na família, o sangue derramado,
um amor de bordel vagabundo ou elegante? Quem tem a vida, toda a história
da vida impoluta, limpa como a água do Batismo? Oh, demo-nos as mãos,
meus semelhantes, meus irmãos na infâmia da Vida Como Ela É!