A jovem cantora (27 anos) Ana Cañas, como por acaso, diz: "Descobri
o canto como um instrumento". Foi quando se descobriu cantora. O poeta
também se descobre poeta quando descobre a língua como um instrumento.
Se você tirar música de sua língua, se o seu poema cantar,
se for autônomo, valer por si só, você é um poeta.
Como eu sei isso? Basta você ouvir alguém cantar para saber que
é um cantor. Assim com o poeta: basta lê-lo. Quem desafina, não
"tem voz" ou "canta muito bem", apenas, certamente não
é um cantor. O poeta também: não basta escrever muito bem.
O seu poema deve soar como perfeito. Não deve ser como o "cantor
de banheiro" ou como quem canta para um grupo de amigos.
Por isso não é fácil saber se alguém é um
poeta: seus primeiros leitores são os parentes e os amigos. Péssimos
julgadores. Sempre é preciso que outrem lhe diga se é um poeta.
O problema é que esse "outrem" é um grande mentiroso.
Feliz ou infelizmente, é preciso publicar. É preciso que "outrem"
seja de fato outrem, alheio, indiferente. Se o seu poema não o deixou
indiferente, você é um poeta.
Mas como saber se ele entende mesmo do assunto? Se não está enganado?
Não importa: você é um poeta para ele.
Assim, os concursos literários são um mal necessário. Embora
haja apadrinhados, como em qualquer lugar, os jurados vão lê-lo
com olhos críticos. Vão lê-lo comparando-o a cem, duzentos,
trezentos ou mais outros poetas: se sobreviver a esse teste, você é
um poeta.
Veja bem: é preciso sobreviver aos erros desses jurados, a seus subjetivismos,
suas idiossincrasias, a algumas cartas na manga. Muitas vezes à burrice
desses jurados. Podem estar julgando, como os críticos, porque não
sabem criar.
Vou terminar saindo um passo ou dois do assunto. Citando Betty Milan (de ouvido):
"O artista poderia ser chamado de Salvador, como Cristo. A arte salva."
Depois, André Gide (segundo a mesma Betty Milan): "Quanto mais entraves,
mais perfeito o texto". Lembro que esses entraves não devem aparecer,
num texto, em sua arte final. É o que dizia Olavo Bilac, no seu Arte
Poética. Apesar de ser um parnasiano superficial, era um artista da palavra.
O poeta tem que ser um artista da palavra.
Falando em entraves, lembro-me de Cioran, que, romeno, lutou contra os entraves
da língua francesa até escrever no mais puro francês.
Mais uma observação. O escritor precisa, inclusive, violar a gramática.
Proust violava. Não é o quanto basta para se fazer um Proust.
Não basta, mas é uma condição sine qua non.
Por fim. A nota final. Decisiva. A poesia deve exprimir a eternidade. O poeta
só escreve para lutar contra a morte. Se você não pode deixar
de escrever, tem que derrotar essa inimiga fatal, a morte, em nome da eternidade,
você é um poeta.
Grande coisa?! Grande condenação. O poeta é um condenado
a lutar contra a língua, seu instrumento musical, para tornar palpável
a eternidade. Uma missão impossível.