Estava a ler - a ler, porque estava lendo uma poetisa portuguesa, Adília
Lopes, a poetisa que reabilitou o termo poetisa, desacreditado por ter
cara de meloso, próprio de mulherzinhas choronas, subjetivo ao extremo.
Observo que Adília Lopes não é individualista, mas criadora
de linguagem, embora eu não aprecie sobremaneira a sua poesia - individualista
é o cara centrado no Eu, assim com maiúsculas, só sabe
falar do seu pobre mundo particular. Adília é criadora substantiva,
trata o poema como um objeto de arte, e o manuseia com a linguagem. Posso não
gostar desse manuseio, mas reconheço de longe o poeta - ou poetisa! -
que trabalha a linguagem e não apenas a usa para desabafar seu drama
pessoal.
Bom. Estava a ler uma crônica de Adília Lopes e a vi dar uma definição
intrigante de poesia, em sua simplicidade: "Fazer poesia tem a ver com
a necessidade imperiosa de "transferir" "para o mundo do poema
limpo e rigoroso" "o quadro o muro a brisa/ A flor o copo o brilho
da madeira" (cito versos do poema de Sophia de Mello Breyner Andresen intitulado
"No poema" de "Livro Sexto")". Anotei a expressão
"para o mundo do poema limpo e rigoroso", com uma aprovação
muda: é o que eu quero do poema, que seja "limpo e rigoroso".
Mas logo fui levado aos versos de Sophia de Mello Breyner Andresen "o quadro
o muro a brisa/ A flor o copo o brilho da madeira", exatos, sem excessos,
"limpos e rigorosos", mas eu estava é pensando nos meus versos
de uma oficina de poesia há alguns anos, muito semelhantes: "Os
olhos / na água // no caminho / um pássaro // uma flor / sobre
a mesa", intitulado "Paisagem", que foi escrito na hora, na lousa,
como demonstração aos meus discípulos. Por um feliz acaso
- mas existem acasos? - saiu-me o poema "limpo e rigoroso", como por
um passe de mágica, ao manusear as palavras que os meus oficineiros me
forneceram. Tal feliz acaso - acabo acreditando que existem acasos - que apenas
dispus as palavras uma à frente da outra e tive tão bom resultado.
Para provar a mim mesmo o feliz acaso dessas palavras, já ordenadas,
à espera de que eu chamasse àquela ordem de poema, quis dispô-las
em outra ordem, não as palavras uma à frente da outra, mas verticalmente
- e não é que tive outro feliz resultado? Outro feliz poema -
porque existem poemas felizes, e este é mais um: "Os olhos /
no caminho // uma flor / na água // um pássaro / sobre a mesa."
Perfeito, não? Exato.
Desculpem a falta de modéstia, mas gostei me descobrir autor de um
grande poema mínimo, perdido em meus achados. Nem coube, não
houve espaço, mas vou estender esse espaço para mais uma citação:
"casem-se os poetas com a respiração do mundo". É
ainda Adília Lopes comentando a criação poética.
É uma resposta a uma pergunta curiosa: Com quem deve casar a poetisa?
Adília, poetisa sem cadeado na língua, responde e completa a idéia:
"E eu vou ser mesmo moralista e vou dizer: acho que toda a gente devia
ter o propósito de casar com a respiração do mundo. Ou,
porque não?, com a respiração de Deus. A poesia é
uma questão de fidelidade a esse casamento." Não preciso
dizer mais nada. Falou bem, exato, a poetisa.