Hoje comemoramos o centenário da morte de Machado de Assis. Comemorar-se
a morte? É meio estranho; no entanto, é o que temos. Tivemos e ainda
temos este escritor enorme entre nós: isto é motivo de comemoração.
Todo povo precisa de seus heróis; às vezes esquecemo-nos de que
há heróis no campo do Espírito; pois os há, e Machado
foi o maior deles, neste pobre Brasil.
Já afirmei que todos somos filhos de Machado de Assis; os que escrevem
páginas magistrais e nós, os outros, que escrevemos páginas
de discípulos geralmente envergonhados. Há os filhos que renegam
o pai, como de hábito, mas como não é o hábito que
faz o monge, são filhos, por eles mesmos proclamados bastardos, mas filhos.
Há, e são legiões, os que se orgulham do pai. Machado era
negro e pobre, o que nos é mais motivo de orgulho do pai que temos; venceu
duas das maiores barreiras que o homem tem no seu caminho, o preconceito e a pobreza,
uma filha da outra; uma prova de que não há barreiras para o gênio.
Somos filhos de um gênio. A sensibilidade brasileira, na língua que
escrevemos, é machadiana. Com a sua tinta da galhofa e da melancolia, às
vezes muito mais galhofa do que melancolia, ou vice-versa, uma querendo encobrir
a outra, como se fossem emblemas vergonhosos.
A tinta da galhofa e da melancolia! Esta é a primeira passagem machadiana
apontada como preferida por escritores e intelectuais. É boa, define bem
a sensibilidade brasileira, mas eu quero botar a minha colher no angu e apontar
a minha, que talvez não é apenas minha. Rachel de Queirós,
décadas atrás, quando eu era ainda um adolescente, disse que daria
toda a sua obra para ter a honra de ter escrito os dois capítulos finais
de Quincas Borba. Eu também. Por pequena que seja a minha obra, e quanto
menor, mais o anseio, ah, como desejaria ter esse estilo enxuto e largo desses
dois breves capítulos.
Costumo dizer que meu escritor preferido é Graciliano Ramos, embora reconheça
a grandeza de Machado e de Guimarães Rosa. Digo que Graciliano tem maior
carga de humanidade no que escreve, de sangue, de sentimento em seu estado natural,
não conspurcado pelas impurezas do intelectualismo, como em Machado e em
Rosa. Mas tenho que me desdizer observando esses dois capítulos mínimos:
suas palavras estão em estado puro, foram elas que geraram um Graciliano;
e a emoção vem também em estado bruto, polida, mas sem atingir
a abstração dos polimentos intelectuais.
Não é pouco escrever estas palavras, e eu ia dizer, e digo: palavras-cinzel,
tanto cortam a matéria bruta, virgem, do que dizem, como se o não
dissessem, como se tivessem vergonha de dizer tanto: "Não morreu súbdito
nem vencido. Antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na
cabeça, -uma coroa que não era, ao menos, um chapéu velho
ou uma bacia, onde os espectadores palpassem a ilusão. Não, senhor;
ele pegou em nada, levantou nada e cingiu nada; só ele via a insígnia
imperial, pesada de ouro, rútila de brilhantes e outras pedras preciosas."
É dizer demais, principalmente no final: "pegou em nada, levantou
nada e cingiu nada". O coitado do personagem, em sua pobre agonia, não
pega, nem levanta, nem cinge nada, mas quanto o escritor, com a sua carga de criador
descomunal nos dá a ver com essas palavras mínimas. Nós,
seus distantes e embasbacados leitores, vemos e palpamos a ilusão do infeliz
Rubião. "Onde os espectadores palpassem a ilusão." Sim,
senhores: nós palpamos a ilusão, nestas palavras medidas.
E querem maior força no descrever a abdicação deste mundo
desditoso? Já usei a palavra, que repito: abdicação. "A
cara ficou séria, porque a morte é séria; dous minutos de
agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação."
Dois minutos de agonia, dous! - é preciso dizer bem. Um trejeito horrível,
e que outra careta esperavam de quem se despede, no seu momento supremo? Horrível.
Não é preciso explicar mais nada. "E estava assinada a abdicação."
Como se fôssemos imperadores desta nossa condição humana,
e abdicássemos. Em favor de quem? Contrariados, mas por vontade própria,
os imperadores assinam sua abdicação. Nós teremos alguma
vontade, no último degrau?
Por fim, as derradeiras palavras do romance, e sua concludente filosofia da amargura
contida: "Eia! chora os dous recentes mortos, se tens lágrimas. Se
só tens riso ri-te! É a mesma cousa. O Cruzeiro, que a linda Sofia
não quis fitar como lhe pedia Rubião, está assaz alto para
não discernir os risos e as lágrimas dos homens." A pena da
galhofa e da melancolia era apanágio de Brás Cubas? Ri-te! Tristíssimo
palhaço, leitor, homem, com a estrela do ideal tão longe, com o
cruzeiro de Deus ou da indiferença perdido na imensidão! O riso
e o choro se irmanam nessa elegia do homem, cantada com as tintas da galhofa e
da melancolia, meu irmão, tristíssimo e risível palhaço.
(29-09-08)