O problema do nonsense é que sempre faz muito sentido.
Costumo dizer que sempre é muito tempo, mas não é do tempo
que pretendo falar aqui. Aliás, escrever. A vantagem em se escrever,
é que se podem encher laudas e laudas de papel sem dizer nada. Também
se pode falar sem dizer nada: é o que todo mundo faz.
É mais uma tautologia. Fala-se e escreve-se demais sem dizer nada.
A inutilidade da linguagem é um fato incontestável. Talvez pareça
absurdo, pelo menos ninguém quer admiti-lo.
A inutilidade das ações humanas é incontestável.
Há um número minimamente certo de ações necessárias:
comer e defecar, por exemplo. Mas as grandes decisões humanas? Ou as
pequenas decisões (que não se pode medir o peso de uma decisão)?
Trabalhar, realizar ações repetitivas e sem sentido (olha aí
o nonsense!). Conviver, amar o meu semelhante, esse estúpido. Amar a
mulher, ou no caso dela, amar o homem, esse estúpido e essa estúpida.
O meu semelhante é um estúpido, portanto eu sou um estúpido.
Bem que Flaubert quis escrever, em Bouvard e Pecuchet, uma compilação
de toda estupidez humana.
Bem que Stanislaw Ponte Preta escreveu o seu Febeapá, ou, por extenso,
Festival de Besteira que Assola o País.
Felizmente morreram Flaubert e Ponte Preta. Tinham um trabalho interminável
pela frente.
Não há suplício pior para o homem, esse Tântalo,
do que um trabalho interminável e sem sentido. O caráter de interminável
tira qualquer sentido de um trabalho.
Quando se fala em nonsense pensa-se em absurdo, quando se fala em absurdo,
pensa-se em Kafka. Não contem isso para Kafka. O homem escrevia com a
maior naturalidade como se não tivesse noção nenhuma de
nonsense ou absurdo.
Nós é que somos absurdos, queremos uma lógica (nossa,
como se fôssemos lógicos) para a realidade.
Saramago escreveu um Ensaio sobre a Cegueira, que estupidez! Meirelles fez
um filme, outra estupidez.
Em terra de cego quem tem um olho é rei ou caolho? E quem tem os dois,
que suplício! Agüentar a cegueira do mundo inteiro e achar-se anormal
por isso. Conceber-se uma idéia dessas é sinal do fim dos tempos.
Um homem estava sentado com um porrete deste tamanho, uns dois metros e coisa,
na porta de uma loja fechada do Calçadão. Quando passei, aconteceu
de ele se levantar e o porrete quase me arrebenta a cabeça. Ergui os
dois braços e abri a boca para gritar: "Parece cego, cara!"
Fui ruminando o grito por uns duzentos metros, quando me lembrei de voltar.
Lá vinha o homem com o seu bordão que mais parecia um porrete,
toque, toque, apalpando o chão. De repente, pá! Trombou com um
poste.
Era um cego e nem sabia orientar-se com o seu bordão. Entrou na minha
crônica para provar que não tinha nada a fazer aqui. Absurdos da
vida.
Mas dizem que o cego é um homem feliz, vive rindo, de bem com a vida.
O meu cego nem praguejou contra o poste, o prefeito, Deus ou o diabo. Deu dois
passos à esquerda, mais para o meio do Calçadão, e seguiu
seu caminho. Feliz?
É verdade que o surdo vive de cara amarrada e o cego sorri para a vida.
Por quê? O surdo não sabe o que falam dele e vive enfezado. O cego
tem os outros sentidos apurados, ouve muito bem o que falam dele e, como ainda
por cima não vê a cara do adversário, sorri.
O cego tem a serenidade dos estóicos.
O surdo vive enfezado, isto é, cheio de fezes. E ainda querem que sorria?
Voltemos ao Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago. Não somos todos cegos?
Não sorrimos para a vida com a estultice dos cegos?
Podem chamar a essa atitude serenidade ou estoicismo, será sempre estultice.
Você nunca ouviu dizer que o mundo será dos estúpidos?
Nós, que somos muito espertos. Nós, que nos amávamos tanto.
Ou nos odiávamos, nos desprezávamos. Nós nos olhávamos
com os óculos da indiferença, que é a forma mais elegante
do ódio? Quem somos nós?
Chamamos o nosso semelhante de estúpido: somos estúpidos. O mundo
será nosso, estúpidos? É estupidez querer apossar-nos deste
mundo estúpido. Uma bela charada do absurdo.