Josué Montello diz que há escritores de uma língua e escritores
de uma literatura. O escritor de uma língua não pode ser transposto
para outra sem ser desfigurado, tornando-se irreconhecível. Seria o caso
de Eça de Queirós. Enquanto o escritor de uma literatura pode
ser transposto para outra língua, como Machado de Assis. Justificando-se
assim porque Machado se universaliza, e Eça não, porque as traduções
o desfiguram.
Não penso assim. Para mim, Machado é escritor universal, expressa
uma visão do mundo que é do Brasil, mas também da América
Latina, dos Estados Unidos, da Europa. Eça de Queirós seria o
escritor de Portugal, que retrata o sentir português do mundo. Daí
a dificuldade de ser traduzido, sentido e apreciado fora de Portugal. Eça
escreve para os portugueses, é escritor de uma pátria, ao contrário
do apátrida Machado de Assis.
Não conheço as traduções de Eça e suas repercussões
no exterior. Mas posso falar bem do nosso tão brasileiro Machado, que
eu acabei de chamar de apátrida. Pois tinha um humor tão refinado,
intelectualizado, feito de minúcias pegadas a pinça de um Swift,
de um Sterne, de um Xavier de Maistre, de um Fielding, etc., e até de
um Garrett tão português, que no Brasil tínhamos dificuldade
de chamá-lo de brasileiro. Demorou, talvez tenha sido preciso até
que estrangeiros viessem aqui estudá-lo, para descobrirmos o quanto brasileiro
ele era, na essência, não nas aparências.
Não quero dizer que Eça de Queirós seja menos universal.
Quero dizer que sinto Eça como muito português. Com páginas
deliciosas, deliciosamente portuguesas. Para mim Eça é o escritor
de uma pátria, ao contrário do que diz Josué Montello.
Eça é bem português e a paisagem portuguesa mais que presente
em tudo que ele escreve, a paisagem física ou humana. Machado e Eça,
os dois fizeram muito pela língua portuguesa, pátria de ambos.
Como do maranhense Josué Montello, que também fez muito pela língua
portuguesa.