Poesia é a emoção depurada pela forma. Se me pedissem
a minha definição de poesia, podia ser essa. Mas precisaria definir
forma. Há uma confusão abrangente nesse termo, que se torna mais
abrangente a cada dia que passa. O próprio Todorov, um dos papas do formalismo,
parece rever suas posições: não vejo como se poderia
admirar uma forma se ela não participasse da construção
de um sentido. Diz que insistia na forma, no período áureo
do formalismo, para incutir na cabeça das pessoas a importância
da estrutura ou forma de um texto. Não excluía o sentido.
Quando digo que poesia é uma questão de forma, estou dizendo que
é uma questão de linguagem. É redundância dizer,
mas digo: linguagem formalmente considerada. A linguagem trabalhada. Que tem
uma estrutura. Quando se trabalha a linguagem, cria-se a poesia. Não
qualquer trabalho. Modela-se a linguagem para criar a imagem. Esse é
o princípio da poesia. Depois há que se inserir a imagem num determinado
campo. O poema é esse campo. Cria-se o poema quando se insere a imagem
numa determinada estrutura. Portanto, mais que a poesia, o poema é uma
questão de forma.
A linguagem, lembrando os rudimentos da linguística, compõe-se
de significante e significado. É necessariamente portadora de sentido
(como lembra Todorov). Falar em forma não é falar apenas no aspecto
externo da linguagem. Se falo apenas em significante, não estou ainda
falando em linguagem. Falar em forma é falar da roupagem da linguagem
e do que essa roupagem cobre. Lembrando que a roupagem cobre, embeleza, e ao
mesmo tempo dá sentido. O continente torna-se o conteúdo, e vice-versa.
Não há como se abordar a poesia de um âmbito puramente estético.
Poesia é linguagem, e linguagem tem implicações políticas,
sociais, religiosas, éticas... Linguagem inclui em si uma mundividência.
A poesia, sendo linguagem, é uma mundividência. Ou cosmovisão.
Prefiro o termo cosmovisão: tem muito maior amplitude.
Lembro-me de que eu definia poesia como uma forma que respira. Não contradiz
o que eu disse aqui até agora. Reafirma. É ainda melhor definição:
vai direto ao ponto. Se é uma forma que respira, não é
uma forma fria. É uma forma com o homem dentro. Ou com o espírito,
sinônimo de sopro, respiração, o que anima a poesia. Concluindo:
a poesia é uma forma vivificada pelo espírito humano. É
uma forma que respira.