Foi Paulo Francis quem me apresentou a idéia da Revolta dos Bárbaros.
A civilização chegou a tal estado de saturação,
que os miseráveis, os excluídos, os párias sociais um dia
"desceriam" (de onde?, dos morros?, por que "desceriam"?,
não poderiam subir dos esgotos?) e tomariam as cidades, "os homens
de bem", e destruiriam tudo que encontrassem pela frente.
Seria o caos. Única alternativa para este mundo sem saída. Acabar
com esta civilização que não oferece mais nada. Começar
do zero. Das cinzas. O homem novo seria um homem bestial, bárbaro, que
só conhece a linguagem da destruição. Uma sub-espécie
humana, bem pouco humana.
Há pouco, conversando com um grande amigo morador do Rio de Janeiro,
disse-me ele que a solução para a violência das grandes
metrópoles seria exatamente essa. Sem ter lido sobre a Revolta dos Bárbaros,
disse-me que tal anti-solução era a única solução
que se poderia esperar.
Paulo Francis escrevia no final da década de 70. Francis For Coppola
tinha lançado o filme Apocalypse Now, que apresenta uma metáfora
da barbárie. Coppola apresenta uma selva do Cambodja como ambiente de
seus bárbaros, mas inspirou-se em Joseph Conrad e sua obra-prima O Coração
das Trevas, ambientado no Congo, com o mesmo reduto de anticivilização
bárbara.
Conrad escreveu essa obra depois de uma expedição ao Congo, onde
conheceu de fato esse horror anti-humano. Não é à toa que
O Coração das Trevas termina com a expressão repetida com
pavor: "O horror... O horror..." Conrad hauriu nessa expedição
ao Congo toda a visão de mundo inquietante que transmitiu em seus romances
todos.
O pior é que hoje o Congo vive uma situação de horror
que nada fica a dever à maior criação de qualquer Conrad.
Podem ter morrido cinco milhões de pessoas no Congo, depois do genocídio
de Ruanda em 1994, e a situação continua agravando-se. Apenas
a Palestina e Israel são notícia, horrorizam as pessoas que se
dizem civilizadas, cultas, éticas... Há grandes interesses envolvidos.
No Congo estão os párias, que ninguém "bem-pensante"
quer ver. Podem matar-se, é como se disséssemos. É como
se pensássemos que são uma sub-raça.
Foi no fim da década de 70, também, que José Paulo Paes
traduziu os poemas de Konstantinos Kaváfis e, desses, em especial, senão
o melhor, o mais impactante: A Espera dos Bárbaros. A cidade que parou,
não há mais administração, nenhuma decisão
é tomada, à espera da invasão dos bárbaros. Mas
fica a interrogação final: "E se os bárbaros não
vierem?"
Talvez os bárbaros não venham? A nossa civilização
ocidental, esta que conhecemos, ou a ocidental e a oriental - isto é,
em suma, a humanidade... Um dia a humanidade criará juízo? Tornar-se-á
humana? Enquanto não houver sinal de ressurreição da ética,
continuamos infelizmente à espera dos bárbaros.