A Garganta da Serpente
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À espera dos bárbaros

(José Carlos Brandão)

Foi Paulo Francis quem me apresentou a idéia da Revolta dos Bárbaros. A civilização chegou a tal estado de saturação, que os miseráveis, os excluídos, os párias sociais um dia "desceriam" (de onde?, dos morros?, por que "desceriam"?, não poderiam subir dos esgotos?) e tomariam as cidades, "os homens de bem", e destruiriam tudo que encontrassem pela frente.

Seria o caos. Única alternativa para este mundo sem saída. Acabar com esta civilização que não oferece mais nada. Começar do zero. Das cinzas. O homem novo seria um homem bestial, bárbaro, que só conhece a linguagem da destruição. Uma sub-espécie humana, bem pouco humana.

Há pouco, conversando com um grande amigo morador do Rio de Janeiro, disse-me ele que a solução para a violência das grandes metrópoles seria exatamente essa. Sem ter lido sobre a Revolta dos Bárbaros, disse-me que tal anti-solução era a única solução que se poderia esperar.

Paulo Francis escrevia no final da década de 70. Francis For Coppola tinha lançado o filme Apocalypse Now, que apresenta uma metáfora da barbárie. Coppola apresenta uma selva do Cambodja como ambiente de seus bárbaros, mas inspirou-se em Joseph Conrad e sua obra-prima O Coração das Trevas, ambientado no Congo, com o mesmo reduto de anticivilização bárbara.

Conrad escreveu essa obra depois de uma expedição ao Congo, onde conheceu de fato esse horror anti-humano. Não é à toa que O Coração das Trevas termina com a expressão repetida com pavor: "O horror... O horror..." Conrad hauriu nessa expedição ao Congo toda a visão de mundo inquietante que transmitiu em seus romances todos.

O pior é que hoje o Congo vive uma situação de horror que nada fica a dever à maior criação de qualquer Conrad. Podem ter morrido cinco milhões de pessoas no Congo, depois do genocídio de Ruanda em 1994, e a situação continua agravando-se. Apenas a Palestina e Israel são notícia, horrorizam as pessoas que se dizem civilizadas, cultas, éticas... Há grandes interesses envolvidos. No Congo estão os párias, que ninguém "bem-pensante" quer ver. Podem matar-se, é como se disséssemos. É como se pensássemos que são uma sub-raça.

Foi no fim da década de 70, também, que José Paulo Paes traduziu os poemas de Konstantinos Kaváfis e, desses, em especial, senão o melhor, o mais impactante: A Espera dos Bárbaros. A cidade que parou, não há mais administração, nenhuma decisão é tomada, à espera da invasão dos bárbaros. Mas fica a interrogação final: "E se os bárbaros não vierem?"

Talvez os bárbaros não venham? A nossa civilização ocidental, esta que conhecemos, ou a ocidental e a oriental - isto é, em suma, a humanidade... Um dia a humanidade criará juízo? Tornar-se-á humana? Enquanto não houver sinal de ressurreição da ética, continuamos infelizmente à espera dos bárbaros.

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