Achei linda uma lenda dos princípios da Igreja de Cristo, ainda mais
que ornada de profundas verdades teológicas. Tendei escrevê-la
em um pequeno poema, a que chamei de "A Velha da Maçã":
"O menino repousa sobre um barco/ Coberto de palha e panos./ Um boi, um
burro e um cão guardam o sono/ Do menino deitado no seu berço
Que é um barco e navega com as estrelas/ Nas vastas águas da noite./
O homem medita no mistério azul/ Do menino nascido de um peixe de luz.
Uma velha mulher trouxe uma maçã/ Para a mãe do menino./
Era uma estranha e veio do outro lado do tempo
Com a maçã para a mãe do menino./ Era Eva e voltava do
Paraíso/ Com a maçã e a serpente na mão."
Imaginei que o barco simbolizaria a cruz em que o Menino muitos anos depois
seria crucificado. A cruz é o símbolo do amor de Deus por nós,
do amor em seu estágio máximo, do amor-doação, que
é o único amor verdadeiro, o amor que se entrega pelo amado. Mas
começou a ser considerada o símbolo do Cristianismo somente três
séculos depois. Antes usavam-se o barco, a âncora, o peixe - símbolos
belíssimos. O peixe por causa das iniciais do nome de Cristo em grego,
mas os três ligados à idéia de navegação do
homem no mar do mundo, com seus múltiplos perigos, a que Jesus Cristo
deu a salvação.
Para Jesus dar-nos a salvação foi preciso assumir plenamente a
nossa humanidade. Aí entra o papel de Maria, a nova Eva. Foi preciso
que o Filho de Deus nascesse de uma mulher. Foi preciso que essa mulher, Maria,
aceitasse a condição extrema a que um ser humano poderia ser levado:
tornar-se mãe de Deus, que foi formado aos poucos no seu ventre, adquirindo
ali um corpo e uma alma com todas as misérias e grandezas de um homem.
Adão é o símbolo do primeiro homem, imperfeito, que precisou
de Cristo, o novo Adão, para estabelecer uma nova aliança com
o Pai e chegar á salvação. Se Cristo não fosse homem,
sem deixar de ser Deus, não poderíamos ser salvos. Deus não
precisa da salvação do homem, não se torna maior ou mais
perfeito se formos salvos ou não, e, portanto, foi obra de sua complacência,
de sua infinita misericórdia, a vinda de Cristo ao mundo para morrer
crucificado.
A serpente não estava na versão da lenda que me chegou às
mãos. Acrescentei-a ao meu poema porque me pareceu importante que Maria
tenha herdado de Eva a maçã, símbolo da suavidade da sua
condição feminina, mas também a serpente, símbolo
da presença do mal, que a Virgem pisaria aos pés. A presença
do mal no mundo é uma realidade, porque Deus deixou ao homem a liberdade
para escolher. Maria é o modelo para nos espelharmos em nosso tão
difícil caminho do bem.
O que aconteceria se Maria se negasse quando o anjo lhe anunciou que seria a
Mãe de Deus? Graças a Deus isso não aconteceu. Podemos
dizer que não aconteceria mesmo, porque estava nos planos de Deus. Mas
a nossa salvação também está nos planos de Deus,
que, no entanto, antes nos deu a liberdade para aceitá-la ou não.
Deus chegou ao homem por intermédio de Maria, tornou-se homem no seu
ventre santo. Jesus é o único caminho para o Pai, mas veio a nós
por Maria. Não há maior prova de que podemos e devemos ir ao Pai
por Maria. Nela habitou o Espírito Santo, para que o Filho a habitasse.
Maria está em perfeita união com o Pai, o Filho e o Espírito
Santo. É a nossa mãe que nos indica o caminho.