A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Maria, a nova eva

(José Carlos Brandão)

Achei linda uma lenda dos princípios da Igreja de Cristo, ainda mais que ornada de profundas verdades teológicas. Tendei escrevê-la em um pequeno poema, a que chamei de "A Velha da Maçã":

"O menino repousa sobre um barco/ Coberto de palha e panos./ Um boi, um burro e um cão guardam o sono/ Do menino deitado no seu berço
Que é um barco e navega com as estrelas/ Nas vastas águas da noite./ O homem medita no mistério azul/ Do menino nascido de um peixe de luz.
Uma velha mulher trouxe uma maçã/ Para a mãe do menino./ Era uma estranha e veio do outro lado do tempo
Com a maçã para a mãe do menino./ Era Eva e voltava do Paraíso/ Com a maçã e a serpente na mão."

Imaginei que o barco simbolizaria a cruz em que o Menino muitos anos depois seria crucificado. A cruz é o símbolo do amor de Deus por nós, do amor em seu estágio máximo, do amor-doação, que é o único amor verdadeiro, o amor que se entrega pelo amado. Mas começou a ser considerada o símbolo do Cristianismo somente três séculos depois. Antes usavam-se o barco, a âncora, o peixe - símbolos belíssimos. O peixe por causa das iniciais do nome de Cristo em grego, mas os três ligados à idéia de navegação do homem no mar do mundo, com seus múltiplos perigos, a que Jesus Cristo deu a salvação.

Para Jesus dar-nos a salvação foi preciso assumir plenamente a nossa humanidade. Aí entra o papel de Maria, a nova Eva. Foi preciso que o Filho de Deus nascesse de uma mulher. Foi preciso que essa mulher, Maria, aceitasse a condição extrema a que um ser humano poderia ser levado: tornar-se mãe de Deus, que foi formado aos poucos no seu ventre, adquirindo ali um corpo e uma alma com todas as misérias e grandezas de um homem.

Adão é o símbolo do primeiro homem, imperfeito, que precisou de Cristo, o novo Adão, para estabelecer uma nova aliança com o Pai e chegar á salvação. Se Cristo não fosse homem, sem deixar de ser Deus, não poderíamos ser salvos. Deus não precisa da salvação do homem, não se torna maior ou mais perfeito se formos salvos ou não, e, portanto, foi obra de sua complacência, de sua infinita misericórdia, a vinda de Cristo ao mundo para morrer crucificado.

A serpente não estava na versão da lenda que me chegou às mãos. Acrescentei-a ao meu poema porque me pareceu importante que Maria tenha herdado de Eva a maçã, símbolo da suavidade da sua condição feminina, mas também a serpente, símbolo da presença do mal, que a Virgem pisaria aos pés. A presença do mal no mundo é uma realidade, porque Deus deixou ao homem a liberdade para escolher. Maria é o modelo para nos espelharmos em nosso tão difícil caminho do bem.

O que aconteceria se Maria se negasse quando o anjo lhe anunciou que seria a Mãe de Deus? Graças a Deus isso não aconteceu. Podemos dizer que não aconteceria mesmo, porque estava nos planos de Deus. Mas a nossa salvação também está nos planos de Deus, que, no entanto, antes nos deu a liberdade para aceitá-la ou não.

Deus chegou ao homem por intermédio de Maria, tornou-se homem no seu ventre santo. Jesus é o único caminho para o Pai, mas veio a nós por Maria. Não há maior prova de que podemos e devemos ir ao Pai por Maria. Nela habitou o Espírito Santo, para que o Filho a habitasse. Maria está em perfeita união com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É a nossa mãe que nos indica o caminho.

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