A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Da inutilidade da poesia

(José Carlos Brandão)

"Eu faço poesia
porque vou morrer."
(poema Motivo)

Dizem que a poesia não é necessária. Eu digo que é essencial. É um sinal de que o homem está vivo.

Todos os homens nascem condenados à solidão. Sempre falta algo que lhes preencha a alma. Sempre sobra um vazio interior. Pode haver aquele auto-suficiente, que se julga superior, frio e calculista, e acha não necessitar da poesia. Porque não tem vazio interior. Porque nem interior tem. Esse é que precisa mais da poesia. Mais do que para preencher o vazio que todos nós temos uma vez ou outra, quando nos confrontamos com nós mesmos. Para dar-lhe essa vida interior que lhe falta, para torná-lo humano.

Mas o que é a poesia? Poesia é a emoção depurada pela forma. Se me pedissem a minha definição de poesia, podia ser essa. Mas precisaria definir forma. Há uma confusão abrangente nesse termo, que se torna mais abrangente a cada dia que passa. O próprio Todorov, um dos papas do formalismo, parece rever suas posições: "não vejo como se poderia admirar uma forma se ela não participasse da construção de um sentido." Diz que insistia na forma, no período áureo do formalismo, para incutir na cabeça das pessoas a importância da estrutura ou forma de um texto. Não excluía o sentido.

Quando digo que poesia é uma questão de forma, estou dizendo que é uma questão de linguagem. É redundância dizer, mas digo: linguagem formalmente considerada. A linguagem trabalhada. Que tem uma estrutura. Quando se trabalha a linguagem, cria-se a poesia. Não qualquer trabalho. Modela-se a linguagem para criar a imagem. Esse é o princípio da poesia. Depois há que se inserir a imagem num determinado campo. O poema é esse campo. Cria-se o poema quando se insere a imagem numa determinada estrutura. Portanto, mais que a poesia, o poema é uma questão de forma.

A linguagem, lembrando os rudimentos da linguística, compõe-se de significante e significado. É necessariamente portadora de sentido, Todorov faz questão de lembrar. Falar em forma não é falar apenas no aspecto externo da linguagem. Se falo apenas em significante, não estou ainda falando em linguagem. Falar em forma é falar da roupagem da linguagem e do que essa roupagem cobre. Lembrando que a roupagem cobre, embeleza, e ao mesmo tempo dá sentido. O continente torna-se o conteúdo, e vice-versa.

Não há como se abordar a poesia de um âmbito puramente estético. Poesia é linguagem, e linguagem tem implicações políticas, sociais, religiosas, éticas... Linguagem inclui em si uma cosmovisão. A poesia, sendo linguagem, é uma cosmovisão.

Lembro-me de que eu definia poesia como uma forma que respira. Não contradiz o que eu disse aqui até agora. Reafirma. É ainda melhor definição: vai direto ao ponto. Se é uma forma que respira, não é uma forma fria. É uma forma com o homem dentro. Ou com o espírito, sinônimo de sopro, respiração, o que anima a poesia. Concluindo: a poesia é uma forma vivificada pelo espírito humano. É uma forma que respira.

O poema é invenção. Apossa-se de todas as possibilidades. Nada lhe tolhe os passos. É um pássaro na palma da mão pronto para a possibilidade do voo. Sabendo que é apenas uma possibilidade. Com as asas cortadas, a garganta cortada, cego. Enfim, tudo lhe tolhe o voo. A possibilidade e a impossibilidade do voo são o território do poeta.

A essência do poema é a falta de sentido do universo, da palavra, da vida e da morte. Precisa gravar a lápide porque sabe que aquele instante não vai sobreviver. Precisa organizar o mundo para a morte. O êxtase da vida é desorganizado pela morte. Escreve para fixar esse êxtase. É um servo da incoerência: escreve para falhar. A lápide é gravada: o poema existe, falho e inútil, contra todas as expectativas.

É um sinal de que o homem está vivo.

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