A Garganta da Serpente
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O êxtase da poesia

(José Carlos Brandão)

Escrevi num poema (Poética Essencial, 2008) que eu “Escrevo para entrar em êxtase. / Escrevo para ver Deus.” Muita pretensão? Ninguém diria isso se São João da Cruz ou Santa Teresa de Jesus, grandes poetas, além de santos, tivessem escrito esses versos. Santa Teresa dizia que se policiava para não entrar em êxtase, que, por qualquer descuido, sentia-se transportada, pela força da oração, para fora da realidade. E São João da Cruz era o enorme poeta da Mística, que cantou as núpcias da alma com Deus.

Todavia não é outro o poder da poesia, a sua função é, em primeiro lugar, encantar, não pelo encanto em si, mas para, pelo encantamento, iluminar, extasiar, levar-nos a transcender a nossa pobre realidade. Não usei o verbo “extasiar”? Um verbo que usamos comumente para dizer que estamos encantados, iluminados, extasiados pela poesia. Extasiados, isto é, em êxtase.

A função da poesia é fazer-nos entrar em êxtase. É levar-nos a atingir a transcendência. O que é o Transcendente, em última instância? Deus. Por isso escrevi o nome Transcendente com maiúscula, porque estava escrevendo o nome de Deus. Por isso registrei que “Escrevo poesia para ver Deus.” É a pura e simples verdade. Ver Deus pode não ser tão extraordinário.

Li e reli várias vezes o capítulo “Êxtase em Óstia”, das “Confissões” de Santo Agostinho. Queria ver o que haveria de extraordinário nesse “Êxtase”. Santo Agostinho elevando-se do chão em companhia de sua mãe Santa Mônica, inebriados do amor de Deus, como se já não pertencessem a este mundo vil? Sem peso, etéreos, duas almas, dois corpos gloriosos, triunfantes, libertos das contingências da carne? Nada disso se via, nada de fora do normal estava acontecendo, nada do que achamos que é fora do normal. Apenas a mãe e o filho recém-convertido contemplavam a natureza de Deus.

Agostinho e sua mãe contemplavam a natureza, a beleza da paisagem, a criação maravilhosa de Deus. Não eram mais do que duas pessoas comuns olhando a natureza, encantadas, extasiadas com a poesia que viam no jardim e além, até o mais distante que poderiam imaginar. E esse mais distante que poderiam imaginar estava próximo, estava ali ao lado deles, mais do que isso, estava dentro deles. Compreenderam que o Criador, esse Ser tão distante, completamente inconcebível, estava ali junto deles, dentro deles.

Escrevi sem querer, mas acertando, que Agostinho e Mônica contemplavam a natureza de Deus. Eu me referia à beleza da paisagem que olhavam, que os rodeava. De fato o que Agostinho nos conta no seu “Êxtase em Óstia” é que ele e a mãe viram Deus. Não viram a natureza verde do jardim ou o infinito dos espaços azuis a se perder de vista, mas viram a natureza de Deus. Agostinho, quando escrevia, era poeta – e contou, com a mágica das palavras, como viram Deus.

Concordo que é muita pretensão, ver Deus. Mas qualquer conhecedor de poesia sabe que a sua função é transcender a realidade, é ver o invisível, é iluminar a noite escura da alma. A função da poesia é dar a ver Deus.

Não é preciso ser santo para ver Deus. É preciso ser poeta.

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