Escrevi num poema (Poética Essencial, 2008) que eu Escrevo para
entrar em êxtase. / Escrevo para ver Deus. Muita pretensão?
Ninguém diria isso se São João da Cruz ou Santa Teresa
de Jesus, grandes poetas, além de santos, tivessem escrito esses versos.
Santa Teresa dizia que se policiava para não entrar em êxtase,
que, por qualquer descuido, sentia-se transportada, pela força da oração,
para fora da realidade. E São João da Cruz era o enorme poeta
da Mística, que cantou as núpcias da alma com Deus.
Todavia não é outro o poder da poesia, a sua função
é, em primeiro lugar, encantar, não pelo encanto em si, mas para,
pelo encantamento, iluminar, extasiar, levar-nos a transcender a nossa pobre
realidade. Não usei o verbo extasiar? Um verbo que usamos
comumente para dizer que estamos encantados, iluminados, extasiados pela poesia.
Extasiados, isto é, em êxtase.
A função da poesia é fazer-nos entrar em êxtase.
É levar-nos a atingir a transcendência. O que é o Transcendente,
em última instância? Deus. Por isso escrevi o nome Transcendente
com maiúscula, porque estava escrevendo o nome de Deus. Por isso registrei
que Escrevo poesia para ver Deus. É a pura e simples verdade.
Ver Deus pode não ser tão extraordinário.
Li e reli várias vezes o capítulo Êxtase em Óstia,
das Confissões de Santo Agostinho. Queria ver o que haveria
de extraordinário nesse Êxtase. Santo Agostinho elevando-se
do chão em companhia de sua mãe Santa Mônica, inebriados
do amor de Deus, como se já não pertencessem a este mundo vil?
Sem peso, etéreos, duas almas, dois corpos gloriosos, triunfantes, libertos
das contingências da carne? Nada disso se via, nada de fora do normal
estava acontecendo, nada do que achamos que é fora do normal. Apenas
a mãe e o filho recém-convertido contemplavam a natureza de Deus.
Agostinho e sua mãe contemplavam a natureza, a beleza da paisagem, a
criação maravilhosa de Deus. Não eram mais do que duas
pessoas comuns olhando a natureza, encantadas, extasiadas com a poesia que viam
no jardim e além, até o mais distante que poderiam imaginar. E
esse mais distante que poderiam imaginar estava próximo, estava ali ao
lado deles, mais do que isso, estava dentro deles. Compreenderam que o Criador,
esse Ser tão distante, completamente inconcebível, estava ali
junto deles, dentro deles.
Escrevi sem querer, mas acertando, que Agostinho e Mônica contemplavam
a natureza de Deus. Eu me referia à beleza da paisagem que olhavam, que
os rodeava. De fato o que Agostinho nos conta no seu Êxtase em Óstia
é que ele e a mãe viram Deus. Não viram a natureza verde
do jardim ou o infinito dos espaços azuis a se perder de vista, mas viram
a natureza de Deus. Agostinho, quando escrevia, era poeta e contou, com
a mágica das palavras, como viram Deus.
Concordo que é muita pretensão, ver Deus. Mas qualquer conhecedor
de poesia sabe que a sua função é transcender a realidade,
é ver o invisível, é iluminar a noite escura da alma. A
função da poesia é dar a ver Deus.
Não é preciso ser santo para ver Deus. É preciso ser poeta.