Nunca pude esquecer aquela noite. Era o primeiro Natal depois da morte de Mamãe.
Sempre, toda a vida, ela e Papai, de noite, pertinho do Natal, armavam a nossa
árvore, com muito carinho, Lininha e eu sentados ao lado. Agora, pela
primeira vez, a gente foi cedo pra cama. Eu logo dormi, Lininha me acordou.
- Vamos! Vamos!
- Vamos onde?
- O Papai... Papai foi...
Entendi. Me levantei, fui com ela. Papai tinha ido armar a Árvore de
Natal, a gente não ia deixar ele sozinho. Então, os dois bem juntinhos,
a gente foi caminhando pelo corredor. Os chinelinhos de Lininha, teque, teque,
faziam barulho no soalho. Falei pra ela, ela tirou eles. Estava tudo escuro,
muito escuro mesmo. Então a gente foi andando mais devagar, devagarzinho,
encostadinho na parede. Tinha uma vaso de avenca no meio do caminho, Lininha
bateu nele, e então a gente resolveu ficar ali. Logo, lá no fundo,
acendeu a luz. Então a gente resolveu andar outra vez. Apareceu uma sombra,
era o Papai. E a gente foi caminhando mais devagarzinho, com cuidado pro Papai
não ver a gente. Ele não podia mesmo, estava tudo escuro; mas
a gente via bem, que lá na sala, lá tava claro. Tinha um armário
no fundo do corredor, a gente chegou ali e ficou bem juntinho dele e da porta.
E ali, bem escondidinhos, a gente ficou olhando o Papai.
Ele pegou a árvore, arrumou bem os galhos, alisou tudo direitinho, pôs
em cima da mesa, ficou olhando pra ela. Depois se sentou, baixou a cabeça,
olhou de novo a árvore, baixou outra vez, fez que assoou o nariz, passou
a mão nos cabelos. Ah, a gente gostava de cariciar aqueles cabelos. Eu
tava pensando isso, Lininha me chamou.
- Olha!
- Olha o quê?
- Bobo! - ela falou e eu vi que ela tava brava mesmo. Mas logo ela continuou:
- Olha! Ele está se levantando agora. Abriu a janela. Você sabe
pra onde ele tá olhando?
- Pro cemitério.
- Psiu! Fala baixo. Papai percebe.
- Então era isso! Eu já tava desconfiando que Papai tava chorando.
Tava um quadro tão feio o Papai arrumando a árvore, sem a gente
perto, sem... sem a Mamãe! Lininha, ela não vai voltar mais mesmo?
- Viu?! O Papai percebeu. Eu não falei pra falar baixo!
Então a gente viu o Papai se voltar e olhar pra gente. E então
a gente saiu de detrás da porta e foi caminhando pra ele. Ele cruzou
os braços, olhou bem pra gente, parecia que estava bravo. Mas logo ele
se baixou, abriu os braços, chamou a gente. Então a gente foi
correndo e logo tava os três abraçados. E a gente chorou. Papai
chorou. E eu. E Lininha.
Depois Papai se levantou, a gente no colo, e foi pra janela. Apontou pro cemitério,
lá longe. Os eucaliptos na estrada subindo pro cemitério pareciam
fantasmas, meio pretos, meio cinzentos, balançando-se no vento. A gente
não tinha medo, tava quase gostoso. Um ventinho macio trazia pra gente
um perfume quente de flor e mato molhado. E a gente olhou depois pra mangueira
no quintal. Veio um vento forte e derrubou um monte de mangas. E ficou ventando
e ficaram caindo mangas. Depois parou, ficou tudo parado. E a gente ficou pensando,
a mangueira era a vida, as mangas que caíam era a gente quando morria.
- Mas Mamãe foi devagarzinho, não foi bruto assim - Lininha falou.
Mas nem não acabou bem e a gente viu cair outra manga e não tinha
nenhum vento, foi suave, bem devagar. Então eu falei:
- Mamãe foi assim.
Depois a gente ficou ainda olhando pro cemitério, com uma dor grande,
um peso bem pesado no coração. Pspt, bateu uma coisa na janela,
a gente olhou, era uma rosa, bonita de vermelha, que se esfolhou todinha. Depois
a gente olhou pra lua, ela tava coberta com muitas nuvens pretas, parecia que
tinha um véu de viúva. Parecia que a gente via lágrimas
caindo dela. Parecia que ela chorava com a gente a ausência de Mamãe.
Não tinha nenhuma estrela no céu. Ligeiro a lua também
sumiu. E então começou a chover. E a Lininha falou:
- Tudo tá chorando com a gente.
E tava mesmo. E então o Papai desceu a gente no chão, fechou a
janela e começou outra vez a arrumar a Árvore. Pegou os enfeites,
arrumou bem direitinho nos galhos, pendurou todas as bolas, as lampadazinhas,
de toda cor, e voltou a se abraçar com a gente. Então a gente
se levantou, bem seguros nos braços de Papai, e apagou a luz. E tudo
afundou numa escuridão bem grande, tava tudo preto. E então a
gente procurou o botão das luzes da Árvore de Natal, e acendeu
tudo. Como tava bonito! E como tava triste ali sem a Mamãe!
E então depois a gente sentou junto do pé da Árvore, e
a gente ficou, os três bem juntinhos, velando a ausência de Mamãe.
E tudo chorava com a gente. A chuva. Uma goteira cansada. Aquele passarinho
piando, longe lá fora. E a Árvore sobre a gente era como se a
Mamãe chegasse ali, ficasse com a gente, e falasse obrigado, gostasse
da gente ficar ali.
E a noite foi longe, e veio o dia, e a gente ficou ali, até dormir de
cansado, os três bem quietinhos, bem juntinhos, velando a ausência
de Mamãe.