Inicio por um desejo exequível, óbvio: que o sol brilhe para
todos. Talvez para não me frustrar, direis, como no soneto Ouvir Estrelas,
acusando-me de me agasalhar no destino de poeta, viver nas nuvens, mas tanto
não vivo nas nuvens que me preocupo com o fato de o sol brilhar mais
para uns que para outros.
Se o sol já foi tomado por deus, porque poderoso e visível, imagine-se
a ideia de um Deus invisível e praticamente inconcebível. Falei
antes do sol, que parece brilhar para todos, e para sempre, lembrando que Deus
também parece brilhar para todos, mas como o sol, brilha mais para uns
que para outros, uma das questões mais inextrincáveis da teologia
- onde a justiça, a verdade, o bem, a sabedoria de Deus? Motivo a mais
para desejar que Deus brilhe para todos, tanto os que têm fé, quanto
os ateus - esses que mais cobram o silêncio consequente desse deus em
que não creem.
Descendo mais ao terra a terra, desejo que todos tenham condições
de produzir ou adquirir o alimento necessário para sua subsistência,
assim como desejo que não falte água para ninguém. Se me
disserem que a água parece que não vai faltar nunca, então
que não falte no homem consciência para tratar e dividir a água
com todos os outros, seus irmãos.
Enfim, tenho um desejo mais elevado: que não falte vinho para ninguém.
O vinho é necessário para celebrar a vida, não importa
se exagerado, mas a celebração é essencial, como Jesus
deixou claro no seu primeiro milagre, oferecendo de uma vez seiscentos litros
de vinho aos convidados das núpcias de Caná.
Concluindo, que não falte ar para ninguém. Óbvio? Respirar,
sentir a alegria do dom da vida é óbvio? Então, que todos
sintam o óbvio ululante. Mais: que todos os homens se reconheçam
irmãos. Não nos destruamos, nem ao planeta em que vivemos. Se
Caim não matar mais Abel, isto é, se o homem deixar de ser um
animal estúpido, será possível o socialismo de Saramago.
Quando o homem deixar de ser submisso ao mal, Deus não será mais
um empecilho.
O resto vem por acréscimo, desde a escola e diversão para todas
as crianças, até o direito de viver a vida da melhor forma possível
para todos os velhos, assistência médica para quem precisar, etc.
Vem por acréscimo até a honestidade dos políticos, o desenvolvimento
para os homens e não para o estado ou a empresa, o fim das guerras, essa
bestialidade humana. Se houver o ágape fraterno, tudo o mais vem por
acréscimo.
Desejei o impossível? Oras, é possível sonhar.