Nos últimos dias li várias vezes sobre o terremoto de Lisboa,
que teria levado muita gente ao ateísmo na Europa do século XVIII.
Bobagem. O século XVIII é o século do Iluminismo, quando
o homem pretendia ter todas as respostas pela razão e, assim, se tornou
ateu. O terremoto de Lisboa foi apenas um pretexto para quem queria ser ateu
porque estava cego pela razão.
O terremoto do Haiti dói muito na nossa consciência. É assustador,
é aterrorizante constatar a pequenez do homem diante da natureza. É
mais um motivo para nos aproximarmos de Deus, como os haitianos estão
fazendo. Não deve ser tomado como pretexto para abandonarmos Deus, como
quer a frieza dos europeus e sua civilização que já perdeu
o sentido justamente por se afastar da sua história, que é a história
da cristandade.
Conheço bem a ideologia portuguesa na época do terremoto de Lisboa
(1755). Os governantes pretendiam ter mais luzes do que os criadores do Iluminismo,
na França. O Marquês de Pombal reconstruiu Lisboa, que tinha caído
por terra, mas não foi preciso reconstruir a grandeza espiritual do povo
português quando se acabou sua tirania ilustrada. O homem português
sempre foi grande interiormente.
Assim hoje com o Haiti. Levantamos as mãos aos céus. Clamamos
a Deus, e mesmo contra Deus. A nossa fraqueza humana não consegue suportar
tamanha dor. Chegamos a culpar Deus, que permite sofrimento assim terrível.
É mesmo saudável tal comportamento: revela-nos quem somos, faz-nos
refletir, reconhecer a nossa miséria e, enfim, a nossa extrema necessidade
de Deus.
O Livro de Jó nos ensina que o sofrimento vem para todos, tanto para
os maus como para os bons. O homem tem o direito de ser teimoso e impaciente
como Jó, mas não de se afastar de Deus. Quem nega Deus não
vê nenhum sentido na vida. Pode se considerar um grande intelectual por
seu racionalismo, mas não deixará de ser um grande infeliz.
O Haiti foi condenado à miséria por seus governantes e pelo bloqueio
econômico dos outros países há décadas. Agora o mundo
inteiro quer salvá-lo, quando sempre foi preciso salvá-lo da ganância
e corrupção dos políticos locais e universais. Apenas nessas
horas extremas os homens descobrem a fraternidade? Os haitianos continuam nobremente
religiosos, não foi preciso um terremoto para descobrirem a extrema necessidade
de Deus.