Pensar é uma subversão, do próprio pensamento.
Pensar é nada, existência prolixa, do que tenderia a natural, sem
explicações de maior ou menor grau. Que pensa quem se olha pela
primeira vez e encontra aí o silêncio, do que soube dizer-se, sem
que houvesse porque dizê-lo, no momento em que, não sendo abstrato
nem preciso, também não achou necessidade para justificar-se,
e, por reciprocidade de um raro instante,
bastou-se a si mesmo? Nada. Se tal afrontamento coubesse aqui, que razão
guardarias tu, de sublime olhar, depois de te confundires com a paisagem, aglutinadora
e quase sempre impessoal?
E é por isso que eu digo: existe para ser, em ti como no outro, porque
se já pensaste, por mera casualidade que fosse, no que pensas vir a encontrar,
ao cruzares-te no caminho, com esse outro alguém, que houvesse de cruzar-se
também, de mesmo modo contigo, melhor fora um quarto vazio, rodeado de
espelhos obtusos, onde a obrigação era apenas seres tu, sem ter
sequer o porque olhar, quanto muito o pensamento, que já nem seria só
teu, mas de todos quantos negaste a espontaneidade, de teu gesto corporal.