A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Geração perdida

(Jorge Humberto)

Vínhamos todos juntos desde os primeiros dias de escola, desde os nossos seis anos, amigos para sempre: dissemos e assim foi pela vida fora, até que esta nos separou uns dos outros no auge da adolescência ou de jovens adultos.

Tudo tinha começado numa comunhão de amigos, querendo experimentar a vida e o que ela teria para nos oferecer. Ofereceu-nos a droga como possibilidade, onde todos podíamos partilhar dos mesmos pensamentos e ilusões. E corria de mão em mão o cigarro de haxixe ou de erva e à noite tomávamos pastilhas que nos alterava o nosso estado de espírito, o que fazia com que os dias de trabalho se suportassem melhor e de forma mais harmoniosa.

Curioso como não há, o flagelo se aproximou, em passos estudados de mim, e uma seringa com cocaína me apresentou, ao que eu repetia para quem me quisesse ouvir: que era só para experimentar.Desde esse dia meus treze anos, não mais parei, e à cocaína juntei a heroína, minha tragédia por longos anos. Alguns amigos vieram comigo, muitos tive nos joelhos em colo até ao seu último suspiro. E não mais regressaram: meus queridos amigos de escola, lá onde eu aprendi o que era companheirismo e amor aos amigos - de que me valeu, eles que se foram e eu que fiquei?

Pesando quarenta e cinco quilos aos vinte e seis anos, dentes todos podres, agressões verbais e não só (por parte da polícia, que não corria atrás dos grandes traficantes mas daqueles que vendiam para um bandido qualquer, para poder ter a sua dose diária), era presa fácil dos corruptíveis, vestindo uniformes e bebendo álcool, que qualquer um podia cheirar à distância, e não eram repreendidos por isso, descarregando todo o seu atrofiamento nos que nada mais faziam do que sobreviver ao seu vicio.

E já só segui minha vida de toxicómano, dentro de uma sarjeta, que assim me via e queria, tal a revolta que nutria por mim mesmo.

Muitos mais anos se passaram, trinta e dois anos ao todo, até que não podendo mais disse basta, com meus olhos virados para o sol, onde incandescia de novo a fogueira da vida e senti uma vontade imensa de viver novamente - o passado ficou lá atrás, o ensinamento comigo, o qual não largo e transmito a todos a minha experiência.

(11/11/09)

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