A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Difícil não falar disso!

(Lathea)

Sei que tinha prometido não falar de violência urbana. Mais parece que os jornais insistem em anunciar o pior, não me deixando em paz. Parece-me que esse é o assunto mais estressante do dia. Quando você tenta se desligar dos problemas, aí aparece um sujeito na TV comentando sobre uma apreensão policial no morro tal... O secretario de segurança que não vou citar o nome disse: o rio não é uma cidade violenta. Pra ele não deve ser mesmo, deve andar com uns quinhentos seguranças, um arsenal de guerra, um míssil, uma AK 47, um lança rojão e outras coisinhas mais. Se o rio não é violento, por que esse desespero para nomear novos secretários de segurança pública. Já perdi a conta de todos que disseram que acabariam com a violência. Fizeram questão, de exibir aquele fuzil 7,65 apreendido numa batida policial - esse fuzil derruba helicóptero, dizia o PM.

Tudo bem que a secretaria de segurança foi infeliz no seu comentário tanto, que se retratou, pedindo desculpas e mandando uma nota para o jornal, meio que, não foi bem isso que falei. O fato é, no Rio, secretaria de segurança virou assunto de primeira ordem. Foram muitos prefeitos e governadores eleitos a troco de resolver o problema da violência urbana, mais precisamente, referindo-se ao tráfico de drogas. Sempre foi complicado, cada secretário tem sua estratégia. Lembro-me de um que dizia para seus subordinados: não desperdice munição, só atire no alvo, esse foi exonerado.

Desde quando a violência começou a tomar proporções alarmantes no Rio que rola esse papo de secretaria de segurança pública. Trançando mirabolantes estratégias para resolver um problema de quatrocentos anos de pobreza.

Gente, a favela existe há quatrocentos anos, o poder público nunca resolveu isso, nunca quis saber. Aí chega certo secretário e pronto, está resolvido. Tudo bem, a população pobre dos anos 40, 50 etc., não era tão violenta como as de hoje. Mais no Rio, se bem me lembro, já tinha uns punguistas, uns malandros querendo se dar bem; claro, ninguém de fuzil, ser malandro nessa época não era para qualquer um, tinha que ter talento.

Vou ser sucinto no que desrespeito as políticas públicas em relação às populações pobres. Sempre houve uma elite dominante, com idéias de Eugênia, ou seja, exterminar com os pobres. Desde que o Brasil é república que a classe dominante tem esse problema, ou seja, o que vamos fazer com esses pobres. Libertaram os escravos e não deram os devidos direitos de cidadania para eles. Então podemos mais ou menos compreender como essas populações tentam sobreviver.

Da para imaginar o que chamam de favela, como elas surgiram ex: você tem escravos recém libertados, sem nenhuma garantia de moradia, emprego, subsistência. Aonde essa gente vai morar eim? Não é difícil imaginar...

Essa população que vem sofrendo com o descaso de políticas públicas. Desde quando essa zona era república, que a população pobre se entrincheira no morro, no entorno. E não é culpa deles, nunca deram uma alternativa para eles. Ah, foi mal, fizeram casas sim, o BNH um projeto de moradia popular que virou favela. Temos também conjuntos habitacionais como vila não sei o que, cidade não sei o que, que virou favela. Ouvi falar, que foi um projeto nos anos 70 de remover favelas do centro da cidade para colocá-las no subúrbio. Um planejamento urbano, visando à construção de prédios para a classe média.

Só que alguém tem que lavar, passar, faxinar, tomar conta das crianças, ou tomar conta do teu prédio É sempre bom ter uma favela perto de casa, porque ai, a mão de obra fica mais barata.

Bem voltando ao infeliz comentário do secretario de segurança, realmente o Rio (não era violento nos anos 60, quem era violento era o estado) inclusive, tinha a lei de segurança nacional, lembram. Foi meio por ai, que começaram a surgir os primeiros bandidões, que iam dar subsídio para essa geração...

Pois é, a política de extermínio não deu certo, nem para os pobres, nem para os comunistas. Não se pode querer exterminar tudo que te incomoda, como era o caso do Estado déspota dos áureos tempos da ditadura. No caso do pobre; pobre se prolifera com uma facilidade incrível. Comunista é mais difícil, não são muito adapto do crêsseis-vos e multiplicai-vos, até porque são ateus.

Os pobres como se fosse uma vingança social pelos maus tratos causados desde a escravidão, desenvolveram um modo de produção, ou seja, o trafego de drogas. Não é muito difícil de desvendar esse mistério; cansados de pequenos delitos, assaltos, roubos. Arriscando a pele para conseguir uma ninharia. Ouviu falar de tal de ouro branco, uma substância que se inalava e dava muito dinheiro. Seu preço já estava cotado no mercado internacional, os americanos deram uma ajudinha, para a valorização da droga! Ai a rapaziada da comunidade sacou a malandragem - aí pretinho, o grande lance é ficar aqui no morro, esse negócio de ir para o asfalto roubar as madames já hera, não tá com nada. Pô, tá pintando uma parada aí, tal de Brizola?

Foi quando nos anos oitenta, no limiar de uma periódica abertura política no Rio; certo governador foi eleito à revelia: O incansável Leonel Brizola, que logo após, de longo percurso no cenário político tomaria seu lugar ao sol. Amigo do antropólogo Darci Ribeiro, fez inúmeros projetos, muito pertinentes à cidade do Rio. Mais não foi muito fácil sua gestão, sendo crucificado pela classe dominante carioca, que não tolerava seu sotaque sulista Tchê; e ainda o acusava de dar boa vida para bandido - diziam; que a bandidagem pintava e bordava na gestão Brizola. - não me perguntem se Brizola, tem a ver, com a substância cocaína; muito estranho né? O fato é que a cocaína subiu o morro mais ou menos nessa época, e me parece, que nem o Brizola sabia. Que azar, agora ele ficou com essa fama, coitado!

Então deu para perceber, que com a entrada das drogas nas favelas, rola meio que um sustento paralelo. Claro que isso implica em muita merda. Ou seja, guerras, mortes desnecessárias; deputas sangrentas. Com esse novo mercado que surge nos anos 80 no Rio de Janeiro, começa a ter-se outra lógica, a coisa rende.

- Meurmão; a cocaína tá cotada no mercado estrangeiro.

- Quem cota o preço da cocaína?

- São os americanos é mole!

- E o PIB da Colômbia, leva-se em conta o dinheiro da cocaína.

- Que legal, quer dizer que a cocaína é cara assim por causa dos americanos.

- Ué mais não foram eles que começaram usar esse troço, enquanto no Brasil nem se conhecia isso.

O Brasil nem conhecia a Colômbia, não tinha a mínima idéia que os índios andinos mastigavam a tal da folha.

- quem ensinou isso aos brasileiros?

- a só pode ter sido os americanos!

- brasileiro adora imitar estrangeiro...

Então a burguesia trouxe o ouro branco para o Brasil. Diziam que era a última moda nos estados unidos e na Europa. Agora tem neguinho falando que maconha é coisa de pobre, que o barato mesmo e a cocaína. A burguesia perdeu o controle da coisa e o ouro branco foi parar no morro. Agora eles param com seus carrões, vem um camarada com um fuzil atravessado nas costas e diz; preto ou branco?

O morro ficou poderoso, pois entraram no mercado. Não isso que o capitalismo recomenda. tem que produzir, tem que consumidor? Os caras estão movimentando o mercado, comprando armas de guerra com o dinheiro do varejo. A coisa ficou perigosa, o que era só uma modalidade de descolar uma grana, passou a ser um risco eminente.

Agora eles derrubam helicópteros com armas potentíssimas, vindas sei lá de onde. A população está aterrorizada, cada confronto com esses insanos, custa-nos muitas vidas inclusive, a maior parte é de inocentes.

É um absurdo, que em uma guerra dita particular. Homens façam uso de um arsenal bélico, definido por muitos especialistas, como arma de guerras como Iraque, só utilizadas por militares, ou seja, guerras de nações, país contra país. Nunca na história, se viu tantas armas pesadas, sendo utilizadas por civis, ao não ser em caso de insurreições populares, que não é o caso do Brasil. Fuzis de todas as marcas e calibres, sendo usados em áreas definidas como particulares, ou seja, favelas tendo uma área restrita, no máximo 10 km E armas que atingem até 2,5 km, com um poder de perfuração muito mais letal.

Coisa impensável, tendo como barricadas, barracos que são perfurados por calibres acima da média. Causando tremendo estrago para as populações desses entorno. É uma monstruosidade pensar que é desnecessário, o tipo de arma e calibre usados nessas guerras ditas como (particulares). O pior que não existe uma estratégia para apreensão dessas armas, nem políticas de controle desse armamento, que vem ferindo mortalmente a população. Não existe a maior preocupação por conta dos atuantes desses conflitos, de amenizar esses calibres, pelo contrário, querem intensificar esse arsenal; trazendo pânico para a população.

Por outro lado, a população não se organiza para discutir o problema da droga. Fingem que ninguém usa droga e que isso só acontece no morro. A população não tem coragem de admitir, que o problema da droga é real. E atinge toda camada da sociedade, não querem repensar nem o uso, nem a descriminalização, quiçá a liberação.

Temos que ser realistas, e pararmos de tapar o sol com a peneira. O problema da drogas está aí. Jovem classe média viciando-se. Violência nas favelas. E a população passiva, reclamando da violência. Seria necessário um congresso com vários seguimentos da população para discutir o problema. Drogas não é só um problema de polícia, é também um problema de saúde e da sociedade. Cada vez, que as pessoas se omitem e não se organizarem fica mais difícil resolver esse problema.

Temos vários exemplos de países que liberaram as drogas e conseguiram ter certo controle na comercialização delas; evitando qualquer tipo de violência relacionada à sua venda. Que para nós, ao contrário, causa um estrago. Pois, em países como a Holanda o estado distribui, controla, e com dinheiro, ainda pode manter uma clínica última geração para dependentes. Isso soa meio anacrônico, mas é bem melhor que ver nossas crianças morrendo, em uma guerra sem sentido!

Claro que para a nossa realidade, essa alternativa ainda é teórica. A falta de perspectiva de emprego; o nível de pobreza, a falta de educação, são fatores determinantes que contribuem para uma piora em nossa região. Sem falar nas mentiras cotidianas que não ajudam em nada a população como: Quem acha que nos classificados de jornal, oferecem todos aqueles empregos? Se existisse essa quantidade de empregos, que dizem que existe, não acha que todos já estariam trabalhando, tendo seu emprego, seu salário? O fato é, existe o desemprego, e a maioria dos empregos disponíveis para baixa renda, são na sua maioria na construção civil. É o único lugar que o sujeito chega, e já começa a trabalhar. No restante, é assim, depois entramos em contato.

Então acabo que quase desistindo, de entender esse paradigma político Brasileiro. Só sei que, se não nos mobilizarmos, ficaremos nesse fogo cruzado, nos escondendo entre carros, postes e arvores. Deitados em trincheiras urbanas perdidos, desorientados. Não podemos admitir que nossa cidade vire meros desentendimentos de políticas públicas, de secretarias de segurança, de soluções que sabemos que não são reais, são paliativas. Não resolvem; não nos acalma, pelo contrário, causa-nos pânico, indignação. Temos ótimos pesquisadores de diversas universidades, que poderiam estar dando suporte a esses pseudos entendedores de violência. Temos que utilizar de todo nosso conhecimento, violência não é um assunto para se comentar nos lugares, é um assunto para se resolver, e agora. Ya basta!

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