As mulheres têm mesmo razão - e mesmo que não tivessem,
achariam que sempre têm - nós homens, muitas vezes posamos de heróis
só para esconder nossas maiores covardias.
Outro dia, confortavelmente sentado à cadeira do meu antigo barbeiro
- agora ele se autodenomina consultor da estética facial masculina -
fiquei imaginando como eu estava fragilizado nas mãos daquele homem que
manipulava com uma terrível e ambígua habilidade, aquela afiadíssima
navalha. Ele passeava pelo meu rosto com aquela lâmina fria e cortante,
mas o pior não era isso, manipulava aquele mortal instrumento com a mesma
atenção que dá entre um casal discutindo sua relação
diante do último capítulo da novela... E eu tentando imovelmente
sumir naquela imensa cadeira...
Homem se revela mesmo é quando se senta em algumas cadeiras; quanto mais
confortável é a cadeira, maior a revelação... Veja
o caso dos políticos... Cadeira dá status, cadeira é símbolo
de poder...
Eu, agora que assumi meus pavores, estou tratando da minha saúde; já
fiz meu exame de próstata - garanto que não foi numa cadeira e
que nem virei os olhos - fiz meus exames de sangue, eletros... Tentei até
um teste do sofá com um diretor de multinacional, mas nem cheguei perto,
ele me achou velho demais. Agora, uma vez por semana, sento-me com um orgulho
numa deliciosa cadeira, anatomicamente reclinável, potencialmente relaxante
até que chegue a doutora... Ela abala minhas estruturas...
Ah, não existe sadismo maior do que a odontologia... Aqueles equipamentos
de consultório dentário são terrivelmente cruéis,
induzem a uma dor sonoramente aguda, psicológica na maioria das vezes,
mas sempre dilacerante. Minha dentista vive me perguntando se está doendo
e o máximo que consigo responder é com um grunhido amordaçado,
gutural, que se fosse compreensível ela certamente entenderia que significa:
socorro, não consigo respirar, pelo amor de Deus pare com essa tortura...
Ela contra-ataca: relaxe! E tome broca, esmeril, lixadeira, politriz... Vem
aquele gosto de lixar parede contra o vento... Depois vem aquele jatinho de
ar comprimido seguido pela agüinha e a cuspidela, que mais lembra um exercício
abdominal... E tome ar comprimido e mais abrasão... E mais tortura, minha
boca se transformando num canteiro de obras... Ela ali, sentada num banquinho
mais alto, com a superioridade de quem comanda a cena, impassível...Recomendando:
relaaxe...
Outro dia, após uma extração, quando minha dentista costurava
minha boca, digo, minha cavidade dentária, tive um incontrolável
acesso de riso... Feliz, talvez por não ter que me preocupar mais com
agulhas, abrasões, boticões e aquela série de aparelhos
de tortura. Confessei risonhamente à minha dentista que além dela,
obvia e literalmente, ter me deixado boquiaberto, me provocou uma nova sensação...
Sentia-me como um peixe fisgado, preso por uma linha sendo esticada só
pra dar aquele nozinho que garantiria uma cicatrização eficiente.
Senti na pele como é desagradável ser pescado...
Triunfantemente minha Dentista pensou que eu havia perdido o medo e que suas
recomendações de relaaaxee, finalmente estavam sendo seguidas...
Mal sabia ela que aquele ataque de risos era minha última cartada pra
desviar a atenção daquela mancha condenatória em minhas
calças...
Hoje sou um novo homem... Não pesco mais!