A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Não pesco mais!

(Roberto Hefler)

As mulheres têm mesmo razão - e mesmo que não tivessem, achariam que sempre têm - nós homens, muitas vezes posamos de heróis só para esconder nossas maiores covardias.

Outro dia, confortavelmente sentado à cadeira do meu antigo barbeiro - agora ele se autodenomina consultor da estética facial masculina - fiquei imaginando como eu estava fragilizado nas mãos daquele homem que manipulava com uma terrível e ambígua habilidade, aquela afiadíssima navalha. Ele passeava pelo meu rosto com aquela lâmina fria e cortante, mas o pior não era isso, manipulava aquele mortal instrumento com a mesma atenção que dá entre um casal discutindo sua relação diante do último capítulo da novela... E eu tentando imovelmente sumir naquela imensa cadeira...

Homem se revela mesmo é quando se senta em algumas cadeiras; quanto mais confortável é a cadeira, maior a revelação... Veja o caso dos políticos... Cadeira dá status, cadeira é símbolo de poder...

Eu, agora que assumi meus pavores, estou tratando da minha saúde; já fiz meu exame de próstata - garanto que não foi numa cadeira e que nem virei os olhos - fiz meus exames de sangue, eletros... Tentei até um teste do sofá com um diretor de multinacional, mas nem cheguei perto, ele me achou velho demais. Agora, uma vez por semana, sento-me com um orgulho numa deliciosa cadeira, anatomicamente reclinável, potencialmente relaxante até que chegue a doutora... Ela abala minhas estruturas...

Ah, não existe sadismo maior do que a odontologia... Aqueles equipamentos de consultório dentário são terrivelmente cruéis, induzem a uma dor sonoramente aguda, psicológica na maioria das vezes, mas sempre dilacerante. Minha dentista vive me perguntando se está doendo e o máximo que consigo responder é com um grunhido amordaçado, gutural, que se fosse compreensível ela certamente entenderia que significa: socorro, não consigo respirar, pelo amor de Deus pare com essa tortura... Ela contra-ataca: relaxe! E tome broca, esmeril, lixadeira, politriz... Vem aquele gosto de lixar parede contra o vento... Depois vem aquele jatinho de ar comprimido seguido pela agüinha e a cuspidela, que mais lembra um exercício abdominal... E tome ar comprimido e mais abrasão... E mais tortura, minha boca se transformando num canteiro de obras... Ela ali, sentada num banquinho mais alto, com a superioridade de quem comanda a cena, impassível...Recomendando: relaaxe...

Outro dia, após uma extração, quando minha dentista costurava minha boca, digo, minha cavidade dentária, tive um incontrolável acesso de riso... Feliz, talvez por não ter que me preocupar mais com agulhas, abrasões, boticões e aquela série de aparelhos de tortura. Confessei risonhamente à minha dentista que além dela, obvia e literalmente, ter me deixado boquiaberto, me provocou uma nova sensação... Sentia-me como um peixe fisgado, preso por uma linha sendo esticada só pra dar aquele nozinho que garantiria uma cicatrização eficiente. Senti na pele como é desagradável ser pescado...

Triunfantemente minha Dentista pensou que eu havia perdido o medo e que suas recomendações de relaaaxee, finalmente estavam sendo seguidas... Mal sabia ela que aquele ataque de risos era minha última cartada pra desviar a atenção daquela mancha condenatória em minhas calças...

Hoje sou um novo homem... Não pesco mais!

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