(Crônica dedicada a Amiga Belvedere)
Pela primeira vez aquela emoção toda especial, jamais vivida.
Nunca tinha sentido aquilo. Um simples telefonema. Foi engano sim. Mas a voz
doce e meiga me chamou, na ligação inusitada no meio da aula:
-Pai!
Tocado...emocionado...disse o número decorado do meu celular. Ela insistiu,
interrogando, como fosse mesmo seu pai, querendo assustar seus sentimentos.
Brincar de esconde-esconde.
-Pai?
Falei então meu nome completo, meu número sagrado - quase que
pedi pelo amor de Deus para que ela continuasse na linha, que ela ali fosse
uma filha que não tive, e queria tanto ter...
Quase que quis mesmo ser pai. Foi uma das maiores emoções de minha
vida. Era o meio de uma aula expositiva.
Queria sim, queria realmente ser pai daquela voz do outro da linha, num lugar
qualquer. Meu coração, acho, naquele momento foi dono daquela
voz. Como eu fosse mesmo de alguma maneira Pai daquela flor sonora.
Como é ter uma filha te ligando e te chamando toda carinhosa e carente
de PAI?
Não tive essa felicidade. DEUS NãO ME DEU ESSA SORTE, ESSE DESTINO.
Meu pai já morreu faz décadas. E já não comemoro
mais o dia dos pais. Uma mãe distante, velhinha, doente. Irmãos
pelaí, somando, longe de mim. Mal-e-mal me ligam nas datas oficiais.
Sobrinhos às pencas, correndo, lutando, nos estudos, aventuras e romances.
Irmãs que não me amam mais. Não têm tempo. Tios mortos.
Primos sumidos. Somente, aqui e ali, uns e outros alunos-filhos. Alguns eu adoraria
chamar de Filhos, de Filhas. De outros tenho medo, muito medo. Pelo futuro deles.
Pela sociedade com eles. Pelo futuro do futuro.
Era uma segunda-feira braba de abril. Perto da Páscoa. Eu estava ali,
todo empolgado e guerreiro, explicando o Big-Bang, quando tocou o celular que,
por erro meu, não estava desligado em sala de aula, como deveria. Minha
mãe doente? Minha musa precisando de um exército? O filho sumido?
Uma entrevista pro jornal? Colaboração para o site do Rio de Janeiro
ou Portugal? Uma cobrança das Casas Bahia? Polido, pedi licença,
por educação, tocado pela emoção, atendi.
-Pai!
Não, não era eu. Infelizmente não era. Podia ser. Devo
ter sido um dia. A voz soou como uma gota de cristal no meu íntimo transido.
Eu jamais estivera preparado para ouvir uma voz de uma menina-moça me
chamar de papai. Jamais imaginei viver para sentir aquele abençoado dia.
Pois era, talvez fosse, meu presente de Deus naquela momento, um crédito-luz...quem
sabe?
-Não, amor, Você ligou errado. Não tenho filha. Meu número
é...Meu nome é...
-Pai?
Ela pensou que eu estivesse brincando com ela. Talvez eu quisesse brincar. Pensou
que eu estivesse mentindo. Talvez eu estivesse de alguma maneira cósmica
por algum motivo. Talvez ela fosse mesmo minha filha. Sem saber que era. Talvez
nunca tenha tido um pai. Talvez fosse um reencontro pedido por ela, como um
sonho impossível de, pelo menos, ouvir, por um milésimo de átimo
de segundo, a voz do pai dela. Um reencontro casual, sideral. E era eu o escolhido
ali, o sorteado. A classe toda percebeu. Algumas alunas ficaram emocionadas.
-Nossa, tiofessor, como o sr é romântico!.
-Puxa, mestre, seus olhos estão cheios de sangue. O sr vai chorar?
-Copie, Maria Cebola, copie. Largue mão de imaginar coisa alheia.
(Eu seria um bom pai? Eu seria um pai companheiro, amigo? Eu proveria direito
o lar e o coração de uma filha que não há, e que
talvez se chamasse Ana Paula, talvez Clarice Cristina, talvez Flávia
Carolina, talvez Claudia Rosangela, talvez Joana Sueli, talvez Tássia
Thaís, talvez Nathália Ely ou Carmem Elis?)
Mas não era minha filha. Nunca será. Nunca haverá uma.
Meu filho, tiraram de mim. Não sei aonde está, com quem e por
quê. Tive-o, mas não pude amá-lo presencialmente. Tem nome
de santo. Nome de poeta. Nome de apóstolo. Nome de doutor. Um dia, dizem
os amigos mexendo com minhas estruturas íntimas, baterão pesadamente
à porta, num prelúdio distante qualquer, e um moço esguio
se apresentará, olhos medrosos ou viçados, gestos ensaiados por
décadas, mãos trêmulas por andanças e erros, perguntando,
assustado, inédito, comprometido com a emoção:
-Eu sou seu filho Thiago Frederico. Você é meu pai?
Acho que vou ter um enfarte. Acho que serei um pouquinho, de novo, pelo menos.
Quem sabe um dia?
Por enquanto, vivi para sentir aquele momento mavioso, plangente, de uma voz
anônima, num orelhão qualquer do Planeta água, uma voz me
ligando por engano que fosse, e no chamar, pedir, com amor, com certeza, com
confiança, como se a cobrar o mimo de um afeto, um amparo, um pedido
de socorro - ou para me dar um abraço, um beijo, um aperto de mão
- e eu, meu Deus, atendi corado, coração em pandareco. E, confesso,
nem me reconheci direito quando ela cobrou:
-Pai.
Eu poderia ter desligado, claro. Xingado a voz pela falta de educação,
pelo erro, por não saber o número direito, estar gastando ficha,
por ter discado errado.
Mas adorei aquele momento. Uma pena que não pude dizer inteiro e completo.
Talvez o pai daquela voz já tenha morrido. Talvez tenha sido meu coração,
cobrando uma ligação pra mim mesmo. Talvez tenha sido o escuro
de minha alma, depositária de um solarium de uma saudade. Não
sei. Mas, enquanto eu viver, para muito além de para sempre, quando eu
for bem velhinho como o próprio Papai Noel, quando passar repentinamente
aqueles últimos momentos felizes e infelizes de nossa vida pela minha
cabeça com cãs, antes do derradeiro sopro final da vida, na soma
das acontecências encantadoras que me restaram, lembrarei aquela voz da
filha que não tive me chamando maravilhosamente de PAI.