Por ocasião da data que corresponderia ao seu século de vida, se
estivesse vivo no findar do ano passado, o país todo sofreu - sob o foco
e a febre da mídia - um verdadeiro "Ano Drumond", então
vivenciado como nunca se viu antes, tornando repentinamente (e sem fazer ao seu
estilo e gosto) um poeta Cult bem marotamente algo Pop.
Curto e grosso: Banalizaram Drumond.
O que deveria ser um confeito de justíssima homenagem, virou uma espécie
assim (como se diz lá em Itararé) de "carne de pescoço".
No programeco brega de rádio, tava lá o locutor conservador recitando
o bendito "E Agora José?". Ao fim do sem seca Jornal Nacional,
cada dia era uma descoberta bem espúria dessa invenção chamada
poesia, banalizada até atropelos e incorreções no imediatismo
de últimas horas.
Era criança bocejando ao declarar não entendendo patavinas a tal
"Pedra No Meio do Caminho"; era um ou outro poema do velho mestre de
Itabira musicado às pressas e cantado mal-e-mal num horror pseudopop tamanho.
Ou ainda uma professorinha desses quintais alhures querendo fazer jogral com a
poesia-crônica de um Drumond extremamente subjetivo e com sua poesia de
contradições e enluos, pouco convencional. Falando sério:
aqui e ali, foi duro de agüentar. Em alguns casos até mesmo mataram
novamente o Drumond que eu adoro.
Isso quando não, também no açodado do momento, um jornalista
meio babaquara recitando seu repertório de um Drumond velho ou água-com-açúcar
(nem tudo pode ser perfeito), quando não, trocando um poema de outro poeta
pelo acervo de Drumond, ou ainda, pior, declamando uma croniqueta apócrifa
dizendo que era um mimo de Drumond, quando era clandestina, falsa, piegas. Haja
paciência.
Claro que Drumond é um dos dez melhores poetas do Brasil em 500 anos, para
dizer o mínimo, claro que ele ser lido e cantado em verso e prosa é
uma beleza, tudo isso se não fosse mais um enviesado da mídia não
tendo mais o que fazer, o que criar, o que investigar (como as falcatruas da Cultura
e Educação no reino inumano do tucanato) resolveu colocar o poeta
da pedra no enfoque de tantas honras e também de tantos padecimentos vernaculares
e constrangimentos de todas as formas inimagináveis.
Gosto de ler poesia, não de ouvi-las declamadas ou teatralizadas. Drumond
era de um intimismo universal, mas ainda assim poetaço de ser lido, curtido,
alimentando-se homeopaticamente com suas jazidas, não com enxurradas de
homenagens e veiculações bobas querendo procurar no Drumond o que
nem mesmo o Drumond se sabia, muito menos a metáfora pedra de seu caminho
como investigação de rupturas ou jogo de palavras cruzadas, até
porque, ele era mesmo um trocadilhista de mão cheia e com fino humor irônico
no transversal de sua cabeça única.
Assim, acordar Drumond, beber Drumond, comer Drumond, ver a empregada com o livro
rifado do sebo dele, ver o cidadão de rua citando-o porque ouviu no decoreba
do filho por força da imposição do open doping da mídia,
foi um desespero. Pobre Drumond.
Talvez nem comemorasse mesmo o aniversário se fizesse vivíssimo
o centenário em carne e osso e pedra, mas saber-se atacado de todas as
formas, lambido pela fama temporária, ocasional e tendenciosa (para dizer
o mínimo), depois certamente cair no esquecimento (brasileiro tem memória
curta) foi muito chato.
A pessoa dúbia do Drumond. Quem não é? A filha com nome de
flor. A mulher mal reconhecida. A amante (quem?) que talvez fosse e seria, no
entanto, contudo, todavia, porém... ninguém sabe, ninguém
viu. Chutes. A vida em cargo público. As amizades em verde-amarelo. O seu
lado coisa, o seu lado socialista. Os amigos mineiros e suas panelas de ferro.
As entradas e bandeiras. Até um estátua fizeram pra ele num calçadão
chique do Rio entojado de um ocasional turismo bocó com seus piscinões
de águas pardas. Foi um angu de caroços. Que tristeza.
Drumond que faria cem anos em 30/1202, da Rosa do Povo ao Farewell, das análises
certinhas pra boi dormir, às falsas conversas fiadas dele, o que ele quis
desdizer no que disse, os erros e acertos, as iluminuras e a tez chão.
Aventuras e lambanças. Ave Drumond.
Isso para não dizer das açodadas imperfeitas pajelanças de
ocasião, com a mineiridade forte da mídia trocando alhos por manjedouras,
momentos por difusões, créditos por invencionices, sempre, claro,
tudo muito bem roteirizado ao sabor do vento favorável, no oportunismo
dos entrelaços. Sai de baixo.
O sujeito empírico da persona da Drumond. Ele era só o que era?.
Ou mal se conduzia entre o ser de si, os self de um não-lugar e o pensar
um humanismo de resultados? E o lado sombra de Drumond? Reflexões e alusões.
E ainda bobas ilações do arco da velha.
Drumond de terno e gravata, Drumond de sonhos e esperanças. Um vaidoso
Drumond oficineiro no tear de seu íntimo revisitado, sempre, a poética
indizível da contradição, a alma obscura - ou só confete
no palavreiro, com o vetor irônico de seu lagar: as caras e as coragens...
Afinal, que Drumond há em Drumond? Decifra-me e eu te devoro...
Aquele só nosso, que amávamos como um butim especial, de poucos,
de especiais, sentidores e sensíveis, tornou-se uma aventura popularesca
sob o manto diáfano da fantasia charlatã, e de uma mídia
que gosta de datas, pontos, spot light, camarins e coxias, e pouco de difundir
a cultura literária, principalmente a poesia de qualidade propriamente
dita.
A melancolia-angústia de Drumond. A pá de cal sobre todas as tentativas
de revelar seu lado avesso. O seu sentido plural-comunitário de vida, sem
verniz político assumido sob uma as/piração explícita
e prático-funcional.
O Drumond faquir nos arames e pregos de sua teia excepcional de vivendas e noiteadeiros.
Um Drumond lúcido, por isso mesmo brigando com palavras, cortando-as, interrompendo
fluxos e rebites emocionais, para tocar o cerne do humanus enquanto finito bicho
também. Um Drumond ora agnóstico, ora no sagracial de sua inspiração
privilegiada tocando os deuses
Quem era Drumond? Se ele soubesse, não seria poeta, claro. Pior: a mídia
entrando de roldão em sua eventual magna data, deu um banho de inversão
de valores, mesmices repetitivas, tocou fios pouco críveis, popularizou
a banalidade, alimentou lucros, impulsionou curiosos a beberem do néctar
dos deuses engodado pelo furacão Drumond, enfim, a sua bela poesia foi
virada de cabeça pra baixo, e pouco valoraram mesmo da qualidade dele como
criador, de seu fazer poético, de sua alma nau procurando os fungos desse
mundo tão conturbado antes dele, e, certamente ainda mais tenebroso e amoral,
com lucros injustos, feudos palaciais, riquezas impunes - muito ouro e pouco pão
- depois dele, principalmente por causa das camufladas mineirices políticas
liberais de ocasião, a partir de historicidade aprendidas lá nos
idos das trevas da inquisição, das derramas e barrocas, das fugas
de escravos a argumentações ilícitas nos clubes dos egos,
até esses tempos em que uma data manda mais que o conteúdo em si,
em que o nome foi pop, quando, realmente, o seu esplêndido material de trabalho
ainda fica restrito a feudos editoriais e ainda assim a preços exorbitantes.
Banalizaram Drumond. A Mídia em geral exagerou nas doses do óbvio
ululante. Nem por isso deixarei de amá-lo, claro. Mas, confesso, por esses
dias de quarentena - até que o esqueçam, que o deixem em paz - vou
voltar a ler Rilke, Neruda, Lorca, Yets, Ezra, Pessoa, Silvia Plath, e, das magistrais
pratas da terra brasilis, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, Castro
Alves, e outros tantos.
E dos vivíssimos e saradinhos, Manuel de Barros, Carlos Nejar, Soares Feitosa
e Ledo Ivo, além dos novos como Lau Siqueira, Erorci Santana, Ana Peluso
e tantos outros inventores do inexistente...
E, fazendo essa espécie de ocasional retiro espiritual pós-dumondiano,
se alguém for louco de, num apurado de falsa cultura de ocasião,
me recitar na bucha "E Agora, José?", vou guardar meus maus bofes,
curtir minha biles cervejiana e berrar, cobrando do próprio homenageado:
E agora, Drumond?