A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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AI QUE PREGUIçA!

(Silas Corrêa Leite)

Acordo, Sony. O encardido rádio-relógio destilando um etílico e miserento blues melancólico, lados do Mississipi, a terra do Tio Sam que pensa que é dono desse mundão sem porteira. Levanto, Edredon. Vou me lavar, Lorenzetti. Tomo um nodooso leite Parlamat e tomo um mini café Nestlé. Depois, em seguida, Nike, Boss, vou escovar os dentes Gessy-Lever e o meu asseio matinal - segunda-feira é dia do Senhor Patrão - já foi Palmolive, não necessariamente nessa ordem, claro.

Se vou de táxi, como a Angélica, é Ford ou Chevrolé, se vou de bus é Mercedez Bens, claro. As lâmpadas? Osram. O cigarro, além do Souza-Câncer (tem fogo numa ponta e um idiota com soda cáustica na outra) um palito aceso no ritual. Meu trampo, baby, é Bil Gates, meu ar refrigerado é Phillips (é assim que se escreve?), minha caneta é Bic, quando não meu lancheburguer é McDonald-qualquer-coisa, sabor sabonete que eles propagam como se fosse mesmo fast food. E toma Coke!. Depois, Aspirina.

Ah que saudade do picadinho de minha vó negra oriunda de Angola, da Tubaína Tutti-Frutti da minha Estância Boêmia de Itararé, das limonadas com limão-rosa mais bolinho de arroz, bolinho de chuva e vai por aí fieira de acontecências de origem-raíz.

Ai que preguiça!

No serviço o patrão babando pose pra sirigaita da novata recepcionista loura oxigenada, a papelada-grude pra preencher bandas cambiais, a rádio FM destilando agora um tecno-pop que mais parece um bate-estaca horrível, logo vem o fax apitando cobrança (relatório), o telefone chiando uma crítica (falha operacional), um mecânico e-mail pedindo respeito a tantos vírus, e eu ali, ouvindo o papo-aranha (coloquial) sobre:

01)-Big Brother Brasil. Quem assiste também é três bês. Bobo, Babaca, Burro. Sim: enchem um lugar bonito de idiotas, e torcem para que um bando de idiotas perca tempo assistindo (alguns pagam por isso!) a anta obesa cerrindo secos e molhados pra cima do coió, mais a falsa feição do Pedro Bial saranga & ególatra. Palavrões, sexo, porres e um papinho de quem já deu o que tinha de dar. Um horror. E pagamos royaltes por isso. Sai de baixo!

Ai que preguiça!

02)-O começo da novela. Ou o galã pestanudo. Ou o fim da novela. Tudo a mesma coisa. Todas as novelas são as mesmas novelas. A virgem rica se apaixona pelo filho do zelador, na hora do sim no altar é seqüestrada por um tarado-fã secreto, depois é devolvida embuchada, revoltada, transa com o prédio todo, o ex-quase fica rico, o pai da donzela abduzida fica pobre, e, num final feliz - e toma pagode! - eles se casam...

Até começar tudo de novo, a mesma coisa, em outro canal, outra novela, outro dia, outro horário, mas a mesma historinha besta e sem graça, com novos atores, novos nomes e... vade retro! Que saudade do Dias Gomes.

Ai que preguiça!

03)-Fuzuê geral. O Brasil é assim. Se pôr grade é hospício. Se pôr lona é circo. Se pôr luz neon é bordel chique, Bordel Excelência. Quem está saindo com quem na alta sociedade. Porque na baixa também é um zona total, mas sem hipocrisia. A classe média falida pelo FHNistão, o Pai da Fome, et caterva, arrota peru mesmo comendo mortadela de terceira categoria. A revista Caras está em tudo quanto é banheiro. Aliás, tem até revista de fofocas e mentiras de bastidores. Quem é, quem não é. Vez em quando inventam um homossexual
novo. Ou um chapéu de vaca prum casadinho da silva. Que vergonha, Brasil. É penta!

Ai que preguiça!

E a mulher mandona, na TPM, telefona querendo fazer aquela operação plástica na vaidade descascada pelo bronzeamento artificial tipo câncer dois. Quando não, poderosa, quer que eu brigue com o gerente do banco Novo Mundo pra ele aumentar o limite. Ela perdeu outro. O filhote que já tá amaciando umazinha pelos cantos do condomínio Pindorama. E a filha Maria Cebola que já foi vista dando uns tapas... Perigo. Socorro. Pai sofre e fica tenso. Stress. Mãe adora sofrer.

E toma reportagens babaquaras sobre a invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Guerra mesmo é outra coisa. Todo mundo sabe de tudo. E o Flamengo levando cacetada. Perdendo pra ele mesmo. E o Corinthians sendo campeão outra vez, em cima do São Paulo com seu estádio a ser batizado de Morumbambi.

Ai que preguiça!

Passo no barzinho, peço uma Tecate (cerveja mexicana - uma delícia!) ou uma Brahma Extra mesmo, e, encafifado, sondo o derredor. Todos assaltados. A síndrome do medo. O Estatuto da Bala Perdida. O ladrão pensando que o cidadão honesto é o ladrão, com medo de ser roubado, o honesto pensando que o ladrão é detetive, com medo de ser achacado, a polícia pesando que o dr é da máfia pensando em molhar a mão, e o doutor achando que tudo é uma só quadrilha generalizada de narcotraficantes e contrabandistas informais.
Todos a favor do liberalismo-fiasco, da globalização-nojo. E um tipo com medo de ser pego pelo Fisco que glosa. Ou seja: tudo na mesma. E toma rock alternativo e flanelinha pedindo mais que o estacionamento legal, permitido. O Rio de Janeiro nunca mais será o mesmo. E o medíocre do Garotinho achando que política de Segurança Pública é púlpito. Que tudo se resolve com um milagre federal.

E São Paulo crescendo com seu esgoto a céu aberto, sua periferia S/A, seu capitalhordismo americanalhado, onde a corrupção banca tudo. Saravá, Tucanos! Os que vão sobreviver têm vergonha.

Ai que preguiça!

Volta pra casa. Lotação clonada, clandestina. Perigo de assalto. Farol quebrado. Lixo entulhando esquinas e canteiros secos. Logo vai nascer pé de tijolo. A rua escura. O celular que não funciona, numa outra privatização-roubo do desgoverno amoral anterior. E as cobranças chegando antes da compra. Na televisão, o lixo geral, cada programa pior do que o outro. Talvez se salvem, ainda, pelo menos, os programas religiosos. Ou mesmo alguma coisa na TV Cultura. Um livro pra ler: Mário de Andrade ou Oswald de Andrade?

Pois é.

AI QUE PREGUIçA!

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