Se eu pudesse pedir perdão...por alguma coisa, algum motivo, alguma
razão limpa, talvez pedisse ao meu querido pai, principalmente por não
tê-lo compreendido exatamente como deveria, e poderia então, pra
perdida sorte minha, ter sacado muito bem e antes de sofrer tudo o que sofri;
e teria certamente evitado descaminhos, e talvez assim, de alguma forma (doces
memórias) e com revisitada imagem dele, os meus destemperos doessem menos
no meu peito entrevado, e agora eu tivesse menos marcas das sinuosas trilhas,
e assim eu tivesse ainda mais plenamente as asas da saudade dele sobre mim,
como uma benção dos céus distantes.
Se eu pudesse pedir perdão...por alguma coisa, algum motivo, alguma razão
limpa, talvez pedisse perdão à minha pobre mãe velhinha,
principalmente por ter deixado o nosso lar-doce-lar muito cedo, cedo demais
(cedo para sempre) - cortei minha infância pela metade - e caído
afoito nas garras de gavião do destino insano, e, em vez de aprender
com gestos, sanções, atitudes e eventuais surras de falácias
caseiras, as lágrimas dos céus me aconteceram bem mais cedo do
que eu pensava e esperava, e eu pude compreender (e posso traduzir tristemente
isso agora em banzos-blues), que o amargurado que me tornei, além de
algum eventual improviso de jazz com solo de tristices, foi ter tomado peito
muito precocemente para enfrentar a barra de viver (a barra pesada de viver),
e ter caído no rocambole do mundo como um inocente puro e simples, mesmo
as mãos limpas, o peito arfando, os olhos viçados, isto é,
simplesmente uma frágil folha de papel rasa em que a vida pôs a
malvada descompostura dela, o que me tornou também sofredor precoce,
depois refém da sensibilidade extremada, com muito déficit afetivo,
e eu lamentavelmente pude, assim, de alguma forma, ser abatido, predado, sofrido,
tornar-me - na fuga! na fuga! - um poeta com sânscrita identidade de humildes
como licor de jabuticaba de terceira dimensão em realidade substituta.
Se eu pudesse pedir perdão... por alguma razão, loucura, ou macadame
de sofrência, eu pediria perdão às minhas adoráveis
seis irmãs, não apenas por tê-las amado tanto, mas por não
ter tido competência para tê-las defendido como deveria, e também
por não estar presente ainda mais como o outro seio secreto delas, amparando
as ocasionais angústias e perdas, carregando as sobras de tantas tintas
intimas das vaidades exageradas delas, ou colhendo mais dos filhotes-sobrinhos
belos e abençoados que me deram quando eu era peregrino fugidor, e por
isso, intimamente por isso eu as amei muito, amo-as mais do que posso traduzir,
e as amarei muito além do lar infinital do dono do sol, quando, finalmente
e então, os meus globos oculares já com saquinhos de chá
sobre as pálpebras inferiores disserem de meu quase um século
de vida, e eu poder dizer Adeus para ver o remanso do último lírio
selvagem da terra, e então poder ir, finalmente, colher estrelas no campo
de estrelas do céu com meu finado genitor, porque, assim também,
claro, no vislumbre do reencontro, sei que na casa de meu pai há muitas
moradas.
Se eu pudesse pedir perdão...de alguma forma, de alguma maneira, em algum
estágio e devão desse erradio caminho (de caminheiro atiçado
pela busca de um farol além da curva do arco-íris), eu iria pedir
também que me perdoassem tantas coisas, nesse favo de inventário
e partilha, a saber:
Um: Eu pediria perdão a
Todas as ruas de minha infância, principalmente aquelas com terrinhas
cor-de-rosa de minha descalça pegada íntima, na liberdade de ser
puro entre aurorais, encantários, ninhais, e, claro, também, mandorovás,
camaleões e fantasmas verdes entre beronhas e formigas-saúvas
Dois: Eu pediria perdão a
Todos os quintais das casas de cigano aonde morei, nessa e em outras vidas antigas
- ah a aurora que trago da infância! - entre dormentes, trilhos, tatus,
canteiros, pardais & cidreiras, porque de eios de água brotaram imaginações
saradinhas como cuques de framboesas temporãs
Três: Eu pediria perdão a
Todos os milhares de livros que eu li, porque neles, pelo menos assim em tempos
de vacas magras, todos os finais eram magnificamente felizes, o Crusoé
era uma gaivota santa numa ilha de nascentes limpas, e eu imaginava que, sendo
eu mesmo, sempre, teria santerias por atacado nas minhas aventuras de atiçado,
sensível, quase um Sentidor da pá virada
Quatro: Eu pediria perdão a
Todas as mulheres que eu amei, e que não me amaram, e que assim e talvez
por isso mesmo foram infelizes para sempre, como uma desculpa-livramento, um
castigo-andaime, uma solidão-palhaço, um prelúdio-talismã.
Até porque, confesso, o meu primeiro amor foi uma parede. Que eu trago
e tenho comigo, como um íntimo butim, como um alforje de estrelas que
despenco cada vez que escrevo. E eu escrevo para não chorar. E eu faço
poemas porque não sei morrer sozinho como uma lesma cega cor de leite
Cinco: E pediria perdão por
Todos os malditos(..) sonhos que eu tive. Eu, tolo, achava que iria crescer
e mudar o mundo. Só os imbecis são felizes? Primeiro queria ser
presidente, depois poeta, afinal restei-me educador. Como viram, nunca soube
me escolher na melhor parte do filé das víboras, nos tapumes dos
chacais, nos guizos dos incrédulos. Fui, perdoem, cem por cento eu mesmo
e todo emocional como um baú de estimas. Deus sabe com quantas lágrimas
faz o castelo de nossas idas e vindas (não há perdão no
esquecimento)
Seis: Eu pediria perdão a
Todos os inimigos, e circunstancialmente os tive em algum lugar ou vareio de
palavras, e que por algum motivo me magoaram, me traíram como margens
abruptas de um rio inocente. Alguns eu perdoei como se perdoa um esquilo cego
por morder seu calcanhar de Aquiles, a outros eu acabei por - moendas do estilo
da vida nua e crua - a dar pão e água, e, confesso, muitos eu
matei tanto dentro de nim como um surto-circuito, que eles mesmo se anularam
com seus nós íntimos, como cactos vítreos de rudezas pegajentas
em clãs espúrios
Sete: Eu pediria perdão a
Todos os anjos que me ajudaram, e que devem me perdoar mesmo para muito além
do eternamente, porque, aqui e ali, nalguma curva do caminho, sem o saber, sem
querer e mesmo sem maldade, eu os abandonei entre um mata-burros, uma pinguela
ou um portal. E há lugares (o mundo sombra?) que anjos não freqüentam.
E eu atinado fui buscar candeeiro na boêmia, troçando alhures (troféus
de mixórdias), trocando flores por cançonetas, amando tardes de
chuvas e minguados afetos de ocasião, quase purgando interioridades com
primaveras que já deram o que tinham de dar
Oito: Eu pediria perdão
Por todas as preces, todos os brancos lenços de adeuses (até os
escondidos), todos os poemas escritos na mais cuneiforme intenção
do refluxo do inconsciente - que é quando eu me despojo, me decomponho,
pondo a alma para respirar - escrevendo de supetão o rebite de uma idéia,
um ideal, entre um copo de leite azedo, um mimo celestial ou uma pestilenta
tentativa de abismo que escrevendo evito um pouco
Nove: Eu pediria perdão
A todas as árvores que fui, de alguma maneira e por algum motivo, medidas
as proporções, de groselheiras secas a laranjeiras sem guirlandas
brancas, como se um dia, de verdade eu tivesse sido alguma espécie de
árvore, noutro século, noutra encantação, e, por
algum fruto proibido vim a ser vetado de ser outra vez, depois espiritualmente
perdi o sagrado direito de tê-las comigo no DNA, e aqui me deixaram em
dimensão-placenta errada, não apenas como um castigo pro carbono
virar diamante, ou não, mas para como, tentativa de cicatriz, eu de novo
aprender a ser raiz, a ser copa, a ser tronco, a ser pétala, a dar flores
& frutos, tudo de novo, tudo outra vez, como uma canga, um pesadelo vivido,
no arremate de uma alma superior cerzindo minhas perdas entre ofícios
testamenteiros e arrozais de desculpas com azedumes terçãs
Dez, finalmente
Eu pediria perdão, ainda, nesses meus dez mandamentos-testemunhos(?)
de desalinho e dor (poetas não têm peças de reposição),
a àquilo que fui de alguma maneira, por algum motivo, sem o saber, sem
o querer, sem o poder, mas identificando afinidades íntimas:
-Cardume: Por ter sido um pouco areal, um pouco atol, um pouco rede, um pouco
albatroz no mar de sargaços da vida, então paguei a duplicata
da perda a ser isso também me serviu como lima nova em ferrugens adquiridas
-Tempestade: Por ter navios fantasmas em mim, ser sobrevivente de naufrágios
abismais, trazer estranhas marcas disso, fui isso e me feri de ver o que provoquei
em ira insana, atemporal, obedecedor involuntário de desastres e tragédias
-Chuva de abril: Por saber que nada me pertence, nada do que me foi dado é
gratuito, tudo tem um preço e eu não acredito em valores a não
ser o lado pérola da ostra, por isso pago dobrado esse crime de existir
em Nau Catarineta errada, indo e vindo, carpinteiro das águas no teatro
de absurdo dos ciclos que jamais dominarei
-Cisterna: Porque ainda tenho lágrimas para tornear poemas por séculos
e séculos, não tendo medida para a minha tristeza terreal, e nem
me sabendo livro aberto em página errada, assim nunca poderei ordenar
à dor que saia para sempre de mim, mesmo que eu ande pelo vale da sombra
da morte...
-Deserto: Porque sou solitário como uma nave sideral pirata clonada de
outra banda cósmica, e solitário me tenho como ser espúrio
em vinagre vencido e injusto dessa existência pagã, então
escrevo para não ficar louco, escrevo porque o meu cálice transborda
e ninguém tem piedade por eu ser como porta-lapsos em núcleo de
paradoxos
-Eco: Tudo o que sou, soa alto e claro, o que não sou, não sabendo
inteiramente me assusta (cacos do espelho), então eu peço perdão
por ter amado de repente quem não devia, dito adeus quando era para ficar
estagiário, aprendido ser leitor de tudo quando deveria ser plantador
de campos de lavandas em outros mundos em que a morte não existe.
-Barco encalhado: Isso eu sou e serei por muito tempo, mesmo não tenho
ainda inteireza do que isso me representa ou me servirá, até porque,
em frente ao mar eu me sinto o próprio mar, como se a mãe-natureza
me fizesse carbono do sal marinho, depois gaivota número um, depois ilha
de areia, depois pobre foca, até que eu perdesse asas ou guelras, até
que eu pudesse nadar e ser átomo, esporo, pólen, e chover na horta
da espécie humana com seu bezerro de ouro, entrando então pela
porta dos fundos da existência só para exatamente pôr o dedo
nessa ferida acesa que é o tão mal conjugado verbo viver
E, por fim, perdoem musas e boêmios, perdoem anjos e vigiadores de quarteirão,
eu me resto aqui um aprendiz de tudo, entre um vazio e o vácuo, criando
borboletas de palavras, sendo sempre um homem fora do meu tempo.
Quando eu era piá de tudo, amava estar com os idosos tão sábios.
Agora que estou quase velho, adoro lidar com crianças.
Sempre achei, aliás, que iria morrer muito cedo e criança.
Espero morrer criança com quase cem anos.
E que Deus tenha piedade de nós.
À bença, Mãe. Ave Estância Boêmia de Itararé.
Porque Hoje é Sábado, aviso aos incautos navegadores de primeira
hora: Bolinhos de chuva encharcam com cervejas bentas, e criam mais tecido adiposo
nas vaidades herdadas.