Natal, e lá está no horário nobre da tevê, o show especial do Rei Roberto Carlos. Ele é um amante a moda antiga, do tipo que ainda manda flores. Emoções. Detalhes.
Esse último show, enquanto ele cantava, ao piano, o "acróstico" que musicou para sua última paixão, Maria Rita, fiquei avaliando o olhar triste de nosso ídolo ao piano branco, cercado de azuis transparentes entre canhões de luzes, solando suas lágrimas numa canção de amor e saudade. Ternura.
Eu era um guri "que amava os Beatles e Roling Stones", mais Tonico e Tinoco e, claro, Roberto Carlos Braga, o rei de todos nosotros que, calça calhambeque, botinha sem meia, cabelo na testa, repetíamos seus sucessos na "hit parade" da vida, e que tudo mais fosse pro inferno, mora?
O Rei Roberto Carlos era mesmo um fenômeno, ao lado de seu amigo, irmão de
fé e camarada Erasmo Carlos, desfilando um sucesso atrás do outro, com sua
voz fina e meiga, seu olhar cândido de boi lambido, mais o personagem que
fez de si, um mito, cantor e compositor, um dos maiores ídolos do Brasil e a
sua MPB que é, ao lado da música norte-americana, a melhor do mundo.
Anos 60. A tal Jovem Guarda no auge. Jovens tardes de domingo. O Brasil
parava para curtir o ágape na tv. Audiência total, IBOPE altíssimo, e o Rei
Roberto Carlos, ao lado da Wanderléia, da Martinha, do Jerry Adriane, do
Wanderley Cardoso, dos Golden Boys e dos Incríveis, destilava seu repertório
que marcou época e fez, de todos nós, seus fãs de carteirinha.
São tantas as emoções. São tantas as saudades. Bons tempos aqueles. Meu pai
era vivo, eu era inocente, puro e besta, tomava minha Cuba Libre no Bar do
Calixtrato em Itararé, e, nos shows pratas da casa que o conjunto local, Os
Marionetes fazia, eu imitava O Rei, imitava Antonio Marcos e outros cantores
da época.
Vietnã, Agente Laranja, ditadura militar, Araguaia, e os jovens ali
curtindo a patota do Rei que sempre tinha um sucesso nas superparadas das
emissoras de rádio que difundiam o auge desse movimento que perdura até
hoje. E com ele, Roberto Carlos o número um filho da Lady Laura.
Talvez tenha sido realmente, o maior ídolo de todos os tempos. E desde
então, a cada ano nos brinda com um show de Natal. Ele, o Rei, já entrando
em idade, curtindo um amor espiritual, recolhido, sistemático,
supersticioso, afastando do mundo real, já encorpando seus fantasmas, mas
nunca deixando de ser o personagem de si mesmo, na persona de um mito, um
ídolo, um rei que tem que estar sempre de branco, cercado de azuis, odiando
marrom e nunca falando palavras ruins como maldade, azar e outras.
Esse é o nosso Rei. E a sua outra face revela-se aos poucos, aqui e ali, em
gestos, movimentos e canções. Nosso Rei está envelhecendo. E não poderia
deixar de ser diferente. Místico, carente, talvez problemático de alguma
forma agora, o Rei repete as mesmas canções, com arranjos simples, mas a
cada cantoria, uma nova interpretação da mesma música. Ele é assim. Quase
intocável.
E o que sabemos dele hoje, por revistas de fuxicos e fofocas, é que ainda
carrega a solidão dos reis e mitos nos ombros que já começam a curvar, na
curva teimosa do tempo. O rei está morrendo, de alguma forma. Suas últimas
composições, são despedidas. Só não vê quem ainda não sacou que ele é como
nós. Crescemos, estudamos, curtimos, ficamos calvos ou obesos, mesmo
vaidosos e sonhadores, o tempo vem sempre cobrar a sua duplicata. Tempo-rei.
Os cabelos do Rei estão grisalhos. Sua alma está grisalha. Sua mão tremula
quando interpreta baladas, como se fosse um escondido aceno de adeus ainda
tímido. Mas ele ainda dará o seu adeus para sempre, pelo menos no campo
presencial, táctil, porque quem é rei só perde a majestade corpórea, fica o
imagético, a saudade, as lembranças, e as canções que ele fez pra nós...
Pude curti-lo no último show de Natal, e lá está o rei perolizando a dor de
uma perda nas canções. Ficou ainda mais triste. O cenho franzido, os gestos
metódicos, mesmo quando sorri é um sorriso pela metade, um sorriso avelã,
triste, fraco, composto, pois o Rei está morrendo. O rio que corre para o
mar, morre. A árvore que já foi caule, morre. A nuvem morre para virar
chuva. O trigo morre para virar pão, cantou Gilberto Gil. E o Rei vai morrer
em carne e osso, para se tornar ainda mais uma lenda, depois indo cantar na
freguesia do céu, e dizer finalmente e pra valer: Jesus Cristo Eu estou
Aqui!
Deus, quando quer levar nossos Reis, enlouquece nossos Reis. Roberto Carlos
não está no normal dele. Parece cansado de existir. Parece passado. Mas ele
já recebeu seu aviso interior. O relógio do tempo deixou sua marca nele. Faz
louvores ao amor, mas está amargo como sidra vencida. O Rei está nos dizendo
adeus aos poucos, a prestação, pois já está chegando a hora de ir... A
despedida dói em reis também...
Ficarão na lembrança o seu pique, as imagens de seus filmes, entrevistas,
as canções para o Calhambeque, pro motorista de táxi, pra mulher de
quarenta. De Maria Carnaval e Cinzas, até ao vencer o Festival italiano e
também se lançar nos Estados Unidos e no mundo latino de língua espanhola.
Enquanto ele, sentado a beira do caminho, espera se desmanchar a carruagem
de abóbora do sonho, e ele embarcar para um outro mundo que não é da
fantasia, mas a casa do espírito. Na casa do pai há muitas moradas. Roberto
Carlos sabe. Ele, de alguma forma já foi avisado. -Maria Rita que ainda o
prende a nós, talvez o esteja preparando para a travessia, a passagem. Eu
senti isso. Eu captei isso, me perdoem. Talvez mais um outro outro disco
meloso, regravações marcantes, talvez mais um ou outro show de Natal, depois
o Rei Roberto Carlos vai em busca de sua estrela perdida, muito além do
horizonte...
Um Rei também morre. Um mito também tem unha e carne. Não poderia ser
diferente com ele. Garrincha morreu. Luther King morreu. Gandhi morreu.
Charles Chaplin morreu. Che Guevara morreu. Drumond morreu. John Wayne
morreu. Jhon Lennon morreu. Ficaram os tempos de ouro da Jovem Guarda, de
nossa juventude transviada, de Crushs e hippies. De Panteras Negras, ou Amor
e paz. Quem não trabalha, não faz amor.
Roberto Carlos resiste. Como um jogador famoso que já não sabe criar jogadas ousadas, ou já errando pênaltis, ele resiste e se cerca de anjos e fantasmas, repetindo chavões, frases, gírias vencidas, revisando sucessos, aqui e ali criando sozinho uma música nova. Já se despediu de Erasmo Carlos. É preciso saber viver, mas ele vive mais fora de um contexto real, como se estivesse com um pé no hangar espiritual da travessia.
Um cadilac de Deus virá buscá-lo?
O coral de anjos celestes está precisando de uma nova estrela...
E que tudo mais vá para o Céu!