Tem bobo pra tudo nesse mundo, dizia meu pai, Maestro Antenor Corrêa Leite,
de saudosa memória.
E explicava: -Se vendessem terreno na lua, teria muita gente querendo comprar,
por incrível que possa parecer.
Tem gente que merece mesmo ser lograda, dizia. Tem gente que se provoca vítima
de ocasião, dá calha pro trote, pra traição, pro
logro, por algum problema psicológico mal resolvido, falta de bagagem
ou de lucidez abrangente, quando não de sexismo puro ou descontrole emocional.
É verdade.
Na América Rica - nós somos o lado Pobre da América luso-católica
- um sujeito registrou a Lua e vem vendendo seus lotes lá. Acredite,
se quiser. O comprador - pato, vítima, tongo? - ganha até um título
de propriedade do terreno, croqui, escritura e tudo. Se bobear, recebe ainda
uma taxa de IPTU pra pagar. Vai por aí a insanidade.
Tem gosto pra tudo. Aliás, desgosto pouco é bobagem. Estou falando
do chamado gosto musical.
Tem gente que gosta de cada lixo sonoro... O mesmo lixo nosso, Agnaldo Timóteo,
Bartô Galeno, Amado Batista, Reginaldo Rossi (só pra citar alguns
tranqueiras) são vendidos no quintal pobre de nossa latinidade sul-americana,
periferia latíndia. Lotam estádio com show do Nelson Ned no Paraguai,
Venezuela, Colômbia.
Nós compramos o lixão excedente norte-americano, pseudo-pop. Consumismo
brega.
Tem gente que mal sabe falar inglês, sequer o básico, macarrônico,
e vive ouvindo música em inglês, sem compreender nadica de nada.
Principalmente Raps.
Um aluno meu do ensino médio, pintou um dia na escola com uma camisa
vermelha-biscate com um palavrão escrito em inglês. Sondei a figura.
Mais aparecido do que penteadeira de cigana. Calça daquelas que cabem
três dentro, tênis sem cadarço mais sujo do que a vida daquele
turco político corrupto do estilo "rouba mas diz que faz",
boné cabritado e camisa com a frase, em inglês: My Mother is Cow.
Fiquei na minha. A tchurma achou da hora, tá ligado? Só. Falou.
Depois veio com o boné da mesma marca. Em seguida comprou o cedê
importado via internet, e lá ficou cantando o kit básico do refrão
laranja da musiquinha cocô, se balançando todo na sua negritude
baianíssima: My Mother is Cow. (Minha mãe é uma vaca!.)
Um dia pedi pra ele cobrar da professora da inglês a tradução
literal, curta e grossa. Foi depressinha, esperto. Se achando o rei da maloca,
o papa-tudo do Morro do Querosene.
O sujeito foi conferir, todo da hora, tá ligado e, literalmente, montou
num porco, como se diz lá na minha Estância Boêmia de Itararé.
Deu com os burros n'água.
Tem gente que é fanático por pagodes...uma espécie de sub-samba,
se tanto. Tem gente que é caipira de rodeio e vaca mecânica cheirando
a nódoa diesel, mais pra country e guarânia (paraguaia) do que
música caipira de raiz mesmo. E toma balada de amor, com traições,
motéis. Bem se diz que deveriam inventar espingarda de dois canos, pra
acabar com dupla caipira.
E que, a cada corno novo, lá vai o sujeito que levou chapéu de
vaca buscar companheiro, amigo, irmão ou afluente do Rio Amazonas qualquer
(Solimões), pra fazer dupla caipira e encher o ouvido da gente (que não
é penico) daqueles etílicos acordes altíssimos gritando
É o amoooooor!
Eu, claro, gosto de todo tipo de música - de qualidade. De MPB a Blues.
Caetanear, por que não? De caipira - fui um rapaz que amava Os Beatles
e Tonico & Tinoco - a Mozart. De ópera a boleros. De clássicos
da velha guarda e sucessos do Rei, tipo, As Flores do Jardim de Nossa casa.
Sacou, baby?.
E adoro o rock brasileiro. Legião Urbana, Severinos, Raimundos, Lulu
Santos, e vai por aí o desboque.
E sempre gostei dos modernosos, dos malditos. Sou fã do Luiz Melodia,
do Jards Macalé, do Arnaldo Antunes, adoro o Chico Buarque, o Milton,
e, claro, a sagrada Elis Regina, a craque-pelé de nossa MPB mestiça.
E até ando sondando a barriga de melancia da filha dela, a Maria Rita,
para a qual até fiz um poeminho todo cheio de amor-saudade.
Sempre adorei Bossa-Nova, os sucessos maravilhosos da Tropicália, os
sambas de terreiro da Clementina de Jesus, e as gracezas dos Mamonas Assassinas.
Viu como sou eclético? Sempre fui.
Assim como curti Led Zepelim, também curti Trio Los Panchos, Moacir Franco,
Altemar Dutra, e, claro, Cazuza, Jessé, Gonzaguinha, Renato Russo (um
poetaço) e tantos outros que morreram, mas os sucessos literalmente abundam
por aí.
E, confesso: detesto Axé. Odeio pagode. Música sertaneja fajuta
e brega então, é horrível. Raps têm os ótimos
e os prosaicos, bobinhos. Falando sério: tem coisa boa e porcaria em
tudo quanto é estilo. De funk porcaria a Axé-Bund. E tem pocotó
pra todo mundo ralar o tchan. Eu, hein?
Adoro também Taiguara, Cartola, Caimy, Gil, Oswaldo Montenegro, Djavan,
musica instrumental e todo o bando dez de nossa riquíssima e híbrida
MPB de qualidade fora de série, a melhor musica do mundo.
Dá de dez a zero na norte-americana muito pasteurizada, falso pop de
ocasião pra ouvinte banana consumir e achar que é chique, fazer
pose nessa inumana e amoral globalização neoliberal neoescravista.
Dos estrangeiros, só os melhores.
O pior é você ver o sujeito se empanturrando de um só tipo
de música, de qualidade duvidosa, pra lá de brega, cafona.
Isso, quando não Sandy & Júnior e outras porcarias que vendem
mas não valem a época, o momento, a balada água com açúcar,
ou, normalmente, porcaria vertida do lixão do Tio Sam que empanturram
paradas musicais suspeitas em gritinhos histéricos de teens que mal sabem
o que sabem, mal pensam o que pensam, e vão na onda, caem no consumismo
bocó.
Tem gosto pra tudo. Pior: tem desgosto pra tudo. Tem bobo pra tudo também.
Então, além dos sem terra, em amor, tem os sem gostos. Desses
a mídia-piloto se vale para alavancar lucros insanos, num elenco de porcaria
que vai torrando o sacro da gente.
Por isso, com licença, companheiro, que vou ali no quarto ligar o rádio
numa FM brasileirinha de estilo, e curtir o último sucesso do Caetano
Veloso, ou da Grã Bethânia.
Saravá, Pixinguinha!. Ave Maestro Gaya de Itararé!
Alegria, Alegria.