"Fazendo moldes de meu
rosto e corpo, dou a mim
mesmo a oportunidade de
ver esse EU deixar a prisão"
(Marc Quinn)
(Para o Mestre Cristóvam Buarque)
Nós mesmos construímos os nossos próprios MUROS. Grandiosos,
bonitos, com grifes, cheios de pompas, com variados enfeites chamativos. Somos
reféns do nosso ego doentio, da vaidade boba, do domínio insano.
Posses, status, comodidade. Como os animais silvestres da natureza-mãe
que, em jaulas falsamente se sentem seguros, não precisam mais exercitar
a caça nem o extrativismo da cadeia alimentar, e assim, com rações
equilibradas amordaçam sentimentos, deletam sensibilidades, se acomodam
e, pior: perdem o sentido do olfato, da visão, da criatividade espiritual
até, do equilíbrio... e da sobrevivência pura e essencial.
Nós construímos nossos próprios muros. Posses às
vezes são algemas circunstanciais, diplomas podem ser cadeados sem chaves,
estabilidades econômicas custam caro e nos dão a viseira burra do
mal-feito que achamos perfeito e acabado. A paz do NADA. A franquia do inócuo.
A reprodução do sistema - e das injustiças amorais do sistema.
A tranqüilidade para o enfarte. O comodismo da neurose. A segurança
dúbia que interiormente nos trama o aneurisma, a esclerose, o esquecimento,
a insanidade...a decadência total.
Nós construímos nossos próprios muros. O controle remoto
da solidão-cangalha, o cartão de crédito da gastrite crônica,
a senha dos calmantes com efeitos colaterais, as câmeras de segurança
ilegais e o código da sobrevivência trivial entre amebas de colarinho
sujo que se fazem de PHDeuses, mas, na verdade também são do mesmo
covil viciado, e estão sempre na mesmice ajeitada por dólmãs-de-tala
que cortam jacintos da alma humana - que já nem mais respira luz, mas submerge
num esoterismo tantã entrelameado de sargaços.
Nós construímos nossos próprios muros. A mediocridade godê.
O talismã da mentira. A jaula secreta do Lexotam, a overdose midiática
de zeros à esquerda. O papo aranha sobre nadas e ninguéns, a novelinha
chula e suja, o sexismo enrustido, o cheque ouro do banco ladrão, e o avant-premiére
do chiste ridículo, boçal, mais o conjunto de tiques nervosos sublimando
psicoses e surtos de egocentrismos verbais.
Nós construímos nossos próprios muros. As parábolas
financeiras dos crimes organizados (tachados suspeitamente de lei de mercado,
oferta e procura e outros engodos históricos.) As paródias sociais
nas rodas de fofocas e clínicas de recuperação de um Deus
para todos os gostos (rasos, reles), os grã-finos com lepra nodal, a perda
do senso de responsabilidade e da noção do ridículo. Somos
mesmo, como diz a balada antiga do Raulzito, "metamorfoses ambulantes"
com etiquetas transgênicas e variados abismos transversais.
Nós construímos nossos próprios muros. A amante crisálida.
A droga disfarçada de remédio. A fuga pervertida para o labirinto
baixo do entretenimento decadente; o pedido de socorro aos neuras - em livrecos
de auto-ajuda escritos por sapos chulés. Somos o cavalo da passeata, abanando
o rabo garboso para as aparências que enganam, feito manés em campos
de joio com corvos e totens...
Nós construímos nossos próprios muros. Beijamos a mão
da Síndica, pedimos perdão ao São Guarda Noturno, ajoelhamos
para terreiros de lazarentos, oramos pro FMI e seu roubismo etiquetado por agiotas
internacionais, e ainda fazemos promessas para engodos de percursos revisitados,
açodados que somos pela consciência pesada... Quem nos salvará
de nós, ou de sermos iguais à maioria de jecas tatus, feito gado
vacum no curral das mediocridades? Ou somos galinhas...que ciscam aparências
rastaquaras, retrógradas? Perdemos a vergonha...
Nós construímos nossos próprios muros. E um deles é
epidérmico, outro é neural, e em todos nos acomodamos fáceis
e manietados por simplismos de ocasião. Um muro é sócio-econômico,
pois a inflação é um embuste. A América Bush-Cloaca
é um blefe. O Brasil é um cassino de cartas marcadas, em jogos de
azar, bancados pelo capitalhordismo americanalhado de máfias e quadrilhas,
entre abutres que se valem de falsos papéis de mercado (neoliberalismo
globalizando a miséria) entre moedas podres na redoma de cartéis
e oligarquias...
Nós construímos os muros.
Isso é uma gravação. Cópia dessa mensagem será
deixada na cápsula fotonutriente (de gás elano - de uma nave ultragalaxial
a ser lançada - para uma viagem até o final do século trinta,
provando a existência de água e vida animal na terra.)
Antes que venham os humanóides primitivos, e junto com eles os silvícolas
(os outros) com seus escravos tribais, e cruzem de novo uma nova (outra) tentativa
- o recomeço! o recomeço! - visando um novo céu e uma nova
água, fonte de toda vida. Fonte de TODA VIDA e de todo câncer da
vida: nosotros, nós mesmos, os muristas, os construtores do muro nosso
de cada dia, a partir da descoberta do fogo, da invenção da roda,
do limbo do lucro-fóssil, da escrita cuneiforme...