A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Prisões

(Silas Corrêa Leite)

Tudo é uma enorme ilusão adquirida do DNA de ancestrais lusonautas, tudo uma baita fantasia sem igual, você não reparou não, cara pálida?

Tudo é uma enorme prisão.

Um lugar muito distante daqui, num além-luz, talvez num satélite de Ganimedes, é que existe a vida verdadeira, sem igual, inexplicável com essas nossas falas coloquiais no limite-gramática do acervo de palavras-decorebas pra uso coletivo que herdamos.

Lá as doenças como as daqui não existem, foram extintas há milênios.

Para suborno, furto, traição, mentira, agressão, existem tipos de aspirinas que saram tudo. As pessoas não morrem nunca. Transcendem-se. Ainda assim há raros indícios de câncer como crimes hediondos, não curáveis, que os remédios existentes não tratam. Casos graves, terminais.

Eles chamam isso de câncer social.

Então, uma vez por milênio, juntam a escória, colocam os prisioneiros irrecuperáveis numa cápsula-nave e mandam pro lugar mais atrasado do espaço cósmico, a nave terra, uma prisão sideral, o nosso espaço geográfico.

Por entre cavernas vulcânicas sobreviveram algumas espécies rejeitadas como lagartas nojentas lá, no Desmundo, e, pervertidas também aqui, acasaladas com macacos albinos já com algum estágio evolutivo, daí o explicado salto qualitativo na espécie terrestre dos humanóides.

Esses são os pseudo-humanos, os seres caídos, nós, os mambembes bípedes comedores de carniça, novamente inventores do fogo, da roda, como se num rodízio cíclico de perdas, danos, evoluções e gomorras.

Mas chegamos de novo ao estágio pós-primata. Tudo é uma enorme prisão. Ou melhor, são prisões de todos os tipos.

No condomínio estamos presos, dependendo do lugar, não se sabe se os bandidos de todos os tipos estão dentro ou fora.

Presos em escritórios-gaiolas entre chefes-hienas, patrões-nazistas, alarmes, câmeras, cartões de freqüências permitidas, crimes organizados de todos os modelos, para todos os gostos, químicas, proveitos ou dependências.

São tantas as prisões.

Do estágio da placenta-cela ao mundo-nave-cela. Aqui, prisioneiros no jardim da infância. Depois nas escolas onde somos como se receptáculos, depositários de letramentos e aprendências pra organização do Comando Geral, a Nova Ordem Econômica, uma espécie de Comando Vermelho com grife.

Nos clubes chiques estamos sujeitos a regras como formóis, como macacos ordinários sofremos sanções de maluquices comportamentais em egos hierárquicos. Estamos presos no banco e não sabemos quem é o ladrão, a cooperativa internacional de agiotas que o mantém, ou a bala perdida do próximo assalto, no crime perfeito onde todos lucram, se aceitadores numa boa, sem retaliações, derramas ou levantes.

São diversas as prisões. As que ditam modas sazonais. As que dominam o jogo aberto e o clandestino. O câmbio negro. Os bicheiros. O contrabando informal. As máfias e quadrilhas controlando tudo.

Chamam isso de capitalismo com leis falsas e charlatanismos históricos. Ai de quem se voltar contra. Tudo é um jogo selvagem de papéis mandando em tudo. De ações a dólares, de Bolsas de Valores a empresas públicas e algumas também literalmente privadas.

Somos galinhas reféns desses papéis. Para comer, usar, viver, nascer e respirar, precisamos deles. Falta só o carimbo da besta na fronte como está escrito.

Da certidão de nascimento, da identidade-cela ao diploma de burro, depois da carteira assinada ao atestado de óbito. Cartórios-currais têm nossas siglas, marcas, identidades-endereços. Alguns são prisioneiros de suas celas-corpos. Vegetam orfandades de todos os tipos, entre aluguéis, carnês de prestações de contras, duplicatas de genocídios e lustres de permissividades e prevaricações.

Todos nós altamente previsíveis pelo sistema, mesmo os irrecuperáveis, os babacas ou insanos, os poetas ou criminosos comum (pra cultura de subsistência entre experts), de pintores a bichos-grilos, de malucos-belezas a pansexuais, de prostitutas a viciados em K-Suco de capim nos subterrâneos da incompreensão, entre o mundo paralelo, o mundo irreal, o estado onírico, um eventual surto psicótico e ainda, claro, os suicidas em potencial, de alguma maneira disfarçados em cargos altamente remunerados, egos doentios, controvérsias usuais e pirâmides de decantação espiritual.

Foram escolhidos mas não foram chamados ainda.

Tudo é um enorme Carandiru a céu aberto, como no Brasil S/A. Passando divisas, fronteiras, são outras prisões exóticas. De guerrilheiros que sonham utopias entre plantações de cocas, a indústrias globalizadas que exploram a mercadoria-trabalho, reformatórios de educação neoliberal, ilhas de edição, asilos camuflados ou cinemas multinacionais.

Nestes vamos reaprender sistematicamente posturas novas, nossas emoções serão lavadas e dirigidas, assim como, por intermédio de modismos nos ensinam a vestir, comer, gastar, viajar, valermo-nos de nosso santo cartão de crédito, que é só isso que valemos como índices em estatísticas de vidas, roubos, mortes, viagens, estudos, panfletagens, sexismos e velhacarias.

Até entretenimentos combinados são prisões. As fila de espera. Os lugares sagrados de araque. Algumas igrejas que cobram alto preço, de dízimos a cruzadas, de livros santos a medo de Deus, de despachos com sangue humano a bobos sacrifícios inúteis.

A ONU, o Vaticano, o Pentágono, tudo são prisões. Somos prisioneiros vivos em museus de todos os tipos, tabernáculos, templários, bares ou bailes. Nos clubes somos vigidos. Nos pares pertinentes temos posturas iguais como se fôssemos todos zumbis gêmeos. Nos botecos, alterados quimicamente, somos vaquinhas de presépio de vícios consentidos ou vícios pagos com altos impostos - e taxas de trevas.

Nos elevadores entre punguistas, nas delegacias entre bandidos presos e com cargos oficiais, nos currais eleitorais com chiliques, nos chiqueiros com organizadas torcidas, nas piscinas e saunas somos todos prisioneiros com pastas epidérmicas feitas celas invisíveis que pagamos caro e altos royalties pela importação de outros terreiros e barracos.

Alguns ainda, dentro de si, têm ódios, nojos, medos, recalques de vinganças, que eles dizem - numa outra gaiola-base - que herdamos de casa, segundo o que preconizou Freud.

Somos todos vasilhas de uso e consumo, uso e costume, rasas apostilas itinerantes e baratas, paquidermes andando feito imitações sósias por aí, respondendo a impulsos sexuais, neuras, querendo só o lucro, o poder, a comida.

Depois deixamos nossas marcas de macacos boçais urinando ojerizas e presenças em órbitas regulares entre a família, o seqüestrador, o clube, a amante, o emprego (neoescravistas ganham com a terceirização), e voltamos para casa alvissareiros como antas calvas e obesas, cheios de estrias e ainda assobiando músicas que nos são impostas (num neural refluxo do inconsciente) por repetições a exaustão.

Falamos um medíocres repertório pequeno de palavras (como senhas de convívio a algum ajuste somatizados), somos magoados como ratos brancos, traídos como jumentos com etiquetas, mas aceitamos tudo numa boa, como galinhas que ciscam pra trás e são passadas pra trás no curtume da espécie em extinção.

Até somos falsos numa boa, faz parte.

Somos enganados de forma tácita e inconseqüente pedindo mesmo por isso, mas, falando sério, isso não é vida que se leve.

Somos prisioneiros como lázaros em pedras de todo os tipos, de antros de cimento armado a grades íntimas, de caixas sonoras onde somos meros sacos de vísceras, até a caixa-bomba-relógio, a caixa-computador, a caixa-geladeira, a caixa-televisão (o open-doping da mídia que nos conduz), a caixa-cama, quando, enfim, recebermos a doença fatal na caixa torácica corrompida até a medula. Aí é tarde demais.

Então, adeus mundo-prisão, adeus mundo cruel, fui mundo-mentira, mundo-ilusão, terra do nunca, antro de serpentes, covil de salteadores.

Recebemos as lágrimas-macaquices de entes queridos por dependência habitual, e lá vamos nós, num caixão horroroso, pagando um mico com um chato ritual de séculos ensaiado e repetido até consentirmos e assimilarmos como esparadrapo pelas culpas dissimuladas na consciência pesada.

Somos então enterrados numa exata cela de terra, logo cercado de vermes por todos os lados, onde, também, para eles, somos uma espécie nojenta de enorme verme que, finalmente caiu em si.

O verme fugiu finalmente da prisão sideral e ganhou seu único quinhão nesse latifúndio-devoluto: os sete palmos de terra sem direito a vaidade, sem panca de orgulho, sem mercado de posses ou o geneticamente sincronizado e abismal Medo de Deus.

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MAS Há UMA LENDA.

Só mais uma. Ninguém nunca sabe direito se é verdade, se é isso mesmo que acontece, apesar de magos, feiticeiros, videntes, espiritualistas e outros sonhadores teimarem atos, palavras, idéias e premonições.

Diz uma delas, a mais interessante, de que as pessoas que aqui nessa prisão, misturadas, pisadas, rejeitadas, injustiçadas, mesmo assim adquirirem força de espírito, permanecem limpas e neutras, e que, com resiliência natural sobrevivem com as mãos limpas fora dos antros, dos feudos, dos foros, da anarquia institucionalizada (as aparências enganam) em todos os níveis, e assim pacatamente sobrevivem sem nódoas, sem ranços, cedo ou tarde, de um jeito ou de outro, são recolhidas sob um manto de signo terrestre chamado aqui erroneamente de morte.

E assim, dessa maneira recolhidas, voltam ao eixo central, à sede-matriz, e ali são de novo incorporadas como fechamentos de ciclos novos, ganham a vida nesse andar superior chamado aqui bobamente de paraíso, e nesse lugar, numa dimensão onde o leão e o cordeiro vivem em paz no mesmo pasto, são feitas novamente pessoas de asas, e então, finalmente, livres e puras, terão a chamada Vida ETERNA.

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