Éramos blues. Éramos seis. Éramos filhos da Estação
de Trem. Tínhamos os trilhos da alma na plataforma de lançamentos
de sonhos. Tínhamos o carro-chefe do trem noturno como a nossa juventude
viciada em Crush e calças rancheiras. Tínhamos os apitos, os faróis,
as manobras, como a Maria Fumaça de nossa inocência pura e simples.
Itararé era nosso encantário, nossa terra-mãe, nossa aldeia
ninhal. Éramos felizes como framboesas silvestres em temporadas de maduranças
e deleites à beira do rio verde.
Tudo era a Estação de Trem. Partidas e chegadas, como bem canta
a Maria Rita, filha da saudosa Elis, a Pelé de nossa magna MPB. Pessoas
chegavam com alforjes de arroz-com-frango e tubainas de limão-rosa, jovens
com espinhas graúdas partiam com lágrima perolizando esperanças.
E ainda havia o guri que engraxava sapatos brancos de anjos visitadores, ou
o amolador de tesouras que queria ser marinheiro e via fantasmas da revolução
de 1930 por ali.
Tudo era a Estação de Trem. Os ferroviários suados passavam
fardados de graxa e óleo cru, maleixos e insones. Maleiros com cãs
traziam pandoras de felicidades. Um barzinho do Chico Preto vendia encapotado
de frango e, até havia um simca chambord do taxista Xaxá que fazia
ponto na Estação da Saudade de Itararé. Uma lua inteira
e nua, feito lustre (pendurado pelo paisagista Burle Marx) nos mostrava ao longo
a Ursa Maior, muito além de uma estrela cadente.
Tudo era a Estação de Trem de Itararé.
Hoje não há piás borboleteando nas ruas de cacau quebrado
(paralelepípedos) de Itararé, nem há gurias de lenço
de chita em cabelo crespo como bom-bril castanho esticado. Agora vemos as crianças
numa outra estação escalafobética, a tal Play-Station.
É assim que se escreve? Pois os pais, a partir de então, nem sempre
conseguiram tornar seu filhos seres e cidadãos (pediram demissão
de serem pais?) e falidos na essência vital das realizações
imponderáveis tentam fazer deles bruxos. E há o jogo virtual...
No reino da web há muitas moradas? Um jogo tem muitas vidas, morre-se,
mata-se a todo instante, o vício solitário - sem jogar bola de
meia, pegar figo maduro no pé, pular carniça - o teen acaba sendo
um ser ilhado em si mesmo, até que, por força das circunstâncias
se atira na rua da amargura, e o associacionismo extralar é barra pesada
Na Play-Station joga-se o risco do mundo globalizado, conectado na Internet,
com metralhadoras em três dimensões, granadas de urânio,
capas com asas de néon e espadas de laser, mais uma troca violenta, um
tique freudiano, um leva e traz de vantagens, quando se vê, criamos o
ser meio real, meio virtual. Tempos de angústia e solidão.
Sim, mãe, em que lugar na parede da memória, ficou aquela estação
de trem, elo umbilical perene, feito um farol muito além do fim do mundo,
onde depositávamos as avencas de nossas criações, sem ter
medo de sonhar, sem medo de ser feliz, lutando contra a miséria do cotidiano,
e brigando - amor e flor - contra o Agente Laranja de guerras estúpidas?
Estamos insensíveis, irmãos. Caímos em desgraça
com Deus. Nem a Estação Saudade nos salvará de nós,
nem a tal Play-Station nos levará para Passárgada ou Shangi-lá.
Estamos no meio do caminho, pedindo esmolas de mimos, querendo um lugar que
não existe, um paraíso que não existe. Existe a minha Estância
Boêmia de Itararé?.
Ai que saudades da minha terra! Pior: ai que saudades de mim. Em que lugar me
fiquei pós-moderno, em que lugar deixei minha algibeira cheia de bolinhas
de gude como olhos de sapo-martelo, em que lugar pinchei fora meus sonhos de
groselha preta, em que trilha rasguei minha botina de raiz, em que gaveta escondi
minhas mãos que teciam raios de sol?
Será que peguei caruncho? Vá saber. Será que esqueci a
cor da borboleta da manhã, que arrebenta a mamona no pré-auroral
em minha aldeia-matriz? Ah minha mãe eu tenho medo, eu tenho muito medo,
minha mãe. Tem cabimento? Eu faço versos como quem chora.
Fecharam a estação, sou ruim de jogo virtual, estou descobrindo
silêncios em mim. Será o impossível? Abro uma cerveja preta
- ai minha alma nau catarineta - e escrevo uma linha repolhuda, abstraio torresmos
estéticos, reino ariticuns, cismo lambaris, crio esquilos mágicos
de cartolas, sempre perolizando a ostra de minha dor encruada no corote do íntimo.
Tem dia que tem noite.
-Já vai, mãe!
De longe, muito longe (longe é um lugar que não existe?) escuto
a voz de minha mãe me chamando dentro do arlequinal do sonho, numa distância
avelã que é já meio espiritual, num tempo do já-hoje
em que eu, um guri que amava os Beatles e Tonico & Tinoco, se perdeu de
si, como se nada mais valesse a pena; como se eu quisesse, carente e trancham,
estar de novo no colinho quente e cheirando a pastel-de-couve de minha mãe
Eugênia.