Para Mona Lígia (Ex-Ligiana Vítima)
Era finalmente a eterna primavera. Os enormes girassóis amarelo-ovo estavam
viçados e ela sabiamente pensou: -Como tinha sido tola. Podia agora,
enfim, ouvir o canto dos pássaros no bosque lilás de sua alma.
O seu sofrido coração, pela primeira vez na vida respirou luz
e ela sorriu poderosa e livre. "Free Again" pensou, em inglês.
Livre novamente, conjecturou, reinando, ornando-se. No rádio em FM o
velho e romântico Frank Sinatra cantava My Way. Como era bom se sentir
digna, recuperar a auto-estima, viver em paz, ao seu jeito, ver o casal de filhos
amados crescerem sem opressões, sem uma tumultuada relação
anterior de vivências disformes do real, do ético, do humano, do
cristão. Agora estava ali. Era primavera no seu espírito outra
vez. Aleluia!
Mas nem sempre tinha sido assim, cismou. Tinha sido usada, oprimida, era como
se estivesse morta para a vida serviçal do lar em conflito, e agora ali,
como uma espécie de Lázaro saindo das pedras, sentia-se forte
por si mesma, com suas próprias mãos, por suas próprias
pernas fazendo a caminhada da grinalda sagrada da vida. A ressurreição
depois do Divórcio, pensou. Estava em pleno poder de si, em plena forma
de vida, pela primeira vez na vida finalmente SE SENTIU. Um rápido corte
- como se um estilete de menta - cortou seu coração suave, feito
um questionário de renúncias, entre estranhos pertencimentos anteriores.
Vivera para curtir aquele dia de plena posse de si, por si mesma.
Casara cedo, pensara numa família, num lar. Sem experiência, levada
no bico, o homem errado, na hora errada. O céu por testemunha. O tipo
tinha problemas com a mãe, que nem Freud explicava. Quando se viu, ser
doce, meiga, comunitária, aberta - como a mãe dele era - fazia
mal pro sujeito sem seca, casca grossa. Vieram os problemas. Filhos e agressões.
Suportava, tinha pena, pensava que era sua cruz, sua missão. Foi se perdendo
de si. Quando a gente não se ama, como pode amar a outra pessoa? Quando
não nos respeitamos, ninguém nos respeita também. O lar,
era um inferno. Mas levava como podia, disfarçava. Baixa estima. Tempos
difíceis, filha única, sem amigos poderosos, o seu vilão
em casa, inimigo íntimo, levou sua canga como pode. Fogo amigo.
Há um Deus!
Finalmente foi lecionar, tiafessora fez amigos especiais - todos têm problemas
- (seu inferno não era o único?) juntou anjos ao redor de si,
pois Deus no mesmo presépio de ouro, incenso e mirra, também criou
protetores, bálsamos, veredas, tábuas de esmeraldas. E ela foi
se recuperando aos poucos, voltando à tona, mesmo com os constrangimentos,
tratamentos degradantes. Ganhou irmãos postiços, aceitou mães
de luz, acatou pais de ruas, levou amigos da alma, teve asas de mimos e afetos.
Preparou-se para o pior. Guardou-se, precavida. A prole. O casal de filhos amados.
Mas não há sensações no esquecimento. Tinha que
tirar da alma, a grinalda do casamento. Tinha que tirar do coração,
o espinho da rosa mais íntima. Tinha que tirar do destino, a tragédia.
Não foi fácil. Mas ela era dura na queda. O traste era mesmo um
encosto ruim, uma cruz presencial, caso de policia mesmo. Mas ela era todo perdão,
sempre foi, eternamente o será. Cedeu muito para abrir na sua alma um
solário, um respiradouro, um solar de ser-se inteira e plena. Lavou as
janelas surradas, pintou as portas com vícios de continuísmos,
varreu o puxadinho de sua alma-talismã, abriu gavetas emperradas em neuras
e mágoas ressentidas, e pôs para cuorar a máscara de seu
reencontro consigo mesma. Ei-la, flor-fêmea, estrada e rio, nuvem e relâmpago,
batom e pomada, sal e vinagre, corda e caçamba, prelúdio e horizonte.
Chorou muito. "Já choramos muito/Muitos se perderam no caminho(...)/A
lição aprendemos de cor/Só nos resta viver..." diz
a badala de Beto Guedes. Sol de Primavera.
Nesse dia imaginário de um certo devir, certamente fará um apanhado
razoável de vivências e credos. Perdas e ganhos. No balancete da
vida, carregou o lastro do imobilizado, fez balanços invisíveis
(o sonho! o sonho!) até que um dia - coragem irmã, coragem - peitou
a dor; disse um basta, içou bandeiras de luta na trégua da resignação
e assinou o papel do divórcio. Ave Liberdade, abre as asas para nós
todos.
Desde esse dia que o marido-mala empreitou a viagem para dentro do labirinto
da solidão - licor de ausências - que ela foi outra, é outra,
pode cantar no banheiro, pode falar palavrão, pode riscar o carro, pode
deixar a alma aberta que Deus há de pôr querubins em sua maravilhosa
liberdade-luz. Será o impossível?
A ressurreição depois do divórcio. Caminha com ela um anjo-ser,
que a toma pela mão e a conduz pelo Vale dos Campos Celestes, e ela só
agora vê o orvalho matinal, sente o vento do mar, capta o gestual perene
da vida, pode dar um pito-carito no filho sem se podar, pode dar um sabão
na filha-pavão sem ser limitada ou parecer-se ruim,. Exerce o ofício
de mãe. Exerce pela primeira vez o oficio de ser SER e, sendo ser, ser
mulher, ser bonita, esbelta, curtir a vida como ela é, quase se sentado
na janela das aparências para todo os dardos do sol passarem a mão
nela...
Essa é a minha amiga. Não chore amiga-irmã mais nova. Não
chore agora. Não chore nunca mais. E se chorar que o sol seque as lágrimas
de sal no seu coração reviçado. Um novo tempo, um novo
brilho, um novo sentido de empenho, de luta, a liberdade como dínamo
nas suas reapreendências, feito um novo letramento de Deus em corotes
de lágrimas...
Você numa mais será a Ligiassaura, você sobreviveu e está
na fase pós-ligiana. Passou o campo de trigo com corvos, vai ter que
começar tudo de novo, feito uma Mona Lígia. Tudo de novo. Tudo
outra vez. Criançona você é, vai brincar de pular carniça
com a saudade, vencer remorsos, crescer totalmente, abrir um leque de sua alma,
pois você tem potencial, sabe que nasceu para brilhar, não para
ser muleta de um janota mané.
Sorte nossa que você está inteirona, tem muita lenha pra queimar,
a fogueira da vaidade logo passa e você voltará a estudar, fará
um outro curso, pode virar Diretora, Coordenadora, Mas, sempre será Ser
Humano, Mulher, Amiga, Mãe, Companheira - e ninguém pode tirar
isso de você, de você ser o que quiser por seus próprios
acertos e buscas. Viva e deixe-se viver. Você venceu-se a si mesma. Tudo
recomeça agora. Vamos, tome o seu lugar no futuro. Vá encontrar
Deus na sua oração de vida. Viaje, reine, vá, voe!. Lígia
LIVRE na praça, cuidado, perigo de VIDA...Socorro!!!