A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Alunos, Pais e Sociedade Consumista: Ambições Materiais

(Silas Corrêa Leite)

(Para Luis Nassif, Heródoto Barbeiro e Marcelo Tas)

No mundo em que vivemos, desde a tal falência das utopias e, no flanco a neoliberal globalização inumana que faliu políticas públicas já precárias, há uma ala tendenciosa que embasa a ditadura da mídia que promove seu open-doping e inverte valores, e assim vale tudo no jogo de levar vantagem em lucros impunes, fundando então um consumismo insano e, no contexto a ambição material acima de todos os valores éticos e sócio-comunitários, principalmente Família, Deus, Solidariedade.

Ambições materiais que, em famílias com paradoxos e pragmatismos criam complexos, deformam valores, e, frutos estranhos de um meio às vezes carentes, crianças, teens, jovens, principalmente alunos, são resultantes disso, reflexos disso, acabando a escola por ser um falso desfile de modismos pueris, de consumismo que foge do real e, vai por aí a "cabeça vazia" que o educador tem que avaliar, encher de outros valores mais magnânimos, mesmo não sendo pai, psicólogo ou mesmo assistente social e, ainda assim ter que, do seu jeito, lidar com o problema assim mesmo, se superando para ter e manter uma visão equacionada muito bem humanista num meio pressionado pelas mesmas práticas de uma globalização que valora etiquetas e grifes e deforma valores adquiridos e fere conquistas de sentimento de solidariedade.

Vale mais um tênis de marca do que um livro. Vale mais um jeans cabritado do que um cedê de jazz, vale mais uma tatuagem do que a valia de uma ética cidadã, vale mais o que prega a novela do horário nobre do que um ato bendito que endossa um meio, uma equipe, um grupo, um espaço sadio de conquistas salutares que deve ser e precisa ser a escola mas nem sempre o é, por conturbadas situações de políticas que falem o estatal em favor do privado e em detrimento do povo com suas carências , e ainda as tais históricas dívidas socais centenárias impagas desde o fim da Ditadura de 64 e ainda depois da Falência do Plano Real enquanto multiplicador de incoerências e de devaneios que iludem os incautos a partir de engodos estatísticos de néscios.

Ambições materiais.

Nada mais preocupante. O professor mal-remunerado e sempre sob alce de mira de mídias mirabolantes que elegem nefastos políticos que contribuem com as chamadas riquezas injustas de um modelo deprimente, recebe a cota humana para o ano letivo a partir de falências públicas e resíduos sociais, o ser enquanto humano chamado aluno cada vez menos formado enquanto ser, filho, cidadão e pessoa, e tem que estar ali para ser alvo, pensar rápido, sacar lances, domar feras sem ser opressivo e ditador, mas sabendo que a clientela discente é sim, ano após ano, mal-preparada a partir do lar, de pais com problemas, de meios danosos, de ambições outras que não a de Ser mas a de Ter e assim não adquirir conteúdo e nem estar preparado (e interessado) nesse enfoque. E assim perdem todos. A escola, o mercado, o aluno que vai enfrentar a concorrência quando será só mais um dígito na linha de produção e linha de crédito.

Na Ásia, em Londres, na aldeia mais fronteiriça do Chile, da Europa toda e, claro, também e principalmente no Brasil, o jovem já vem carimbado: problemático. A culpa não é da escola - em que pese mal provida estruturalmente (para não dizer de professores ganhando menos que policiais) - mas é na escola o espaço-problema que vai locar situações-limites, situações-conflitos, e o educador tem que se virar como pode, resolver na marra, esse é o modelo, todos são vítimas e os recursos parcos ou desviados, apesar da propaganda enganosa que ilude o pior tipo de ignorante que tem, o ignorante político.

O aluno está mais preocupado com o tipo de mochila chique que veste, do que com o caderno, copiar a lição, saber, ser, aprender, convier. Todos querem aparecer sem ser. Mal do século, um dos preços da globalização neoliberal amoral e inumana. Que tem o grupo, depois gangue, a linguagem depois o elenco de gírias, o comportamento depois o ataque, as incoerências depois a agressividade gratuita. Quem não passou por isso? Quem não testou seu mestre? Mas os tempos eram outros. Pais eram amigos, famílias decidiam em paz, o mercado tinha emprego, professor ganhava igual a um juiz, sabíamos o que queríamos e, a bem da verdade, depois dos pais, os mestres eram os melhores amigos dos jovens. Hoje nem os pais são pais, nem a família é família, todos fingem e todos se perdem.

O tempo hoje é quase inimigo da escola. O espaço é multiplicador de cabeças errantes, drogas, sexo, mídia apelativa, tudo indo contra o foco do estudo, o interesse do professor, o que o aluno deveria aprender que é vítima, mas então é tirado do caminho do sucesso por só querer ser sem ser. Antigamente você via um jovem indo par escola, da mesma maneira que ia para uma igreja. Polido, esperançoso, consciente, um sonho, um ideal. Tinha valores. Hoje você vê como um jovem vai para a igreja qualquer que é obrigado ou não a freqüentar, mascando chiclete, de boné, ouvindo walk-man, como se tivesse indo pruma boca de fumo ou um forró, e assim mesmo desse jeito pesudomoderno de ocasião que vai para a escola querendo ser o ator principal de um circo de aparências, quando pega um professor bom ou o leva na conversa, ou tem uma didática meio porra-loca, ou vai bater de frente e, claro, todos saem perdendo, não é essa a idéia, mas, principalmente o aluno que precisa daquilo que não sabe inteiramente que precisa, porque não lhe deram o mínimo em casa, o essencial: a educação básica, de berço, de raiz, de meio. O caráter.

Ambições materiais.

Esse é um problema universal, já detectado no mundo inteiro. Depois do fim das utopias, o fim do ser pensador enquanto ser pela expressão da palavra. É cada um por si, todos por todos, como diz a canção "Vida de gado/Povo marcado/Povo feliz..." e o aluno triste fruto desse meio, é só a resposta direta do que reage o jovem pelo que lhe impingiram com falsidades e simplificações que vão de pirações a violências gratuitas. Tá no desenho animado, tá na moto da hora, tá no produto cabritado, tá na associação extralar, na falta de limite que lhe deram, na falta de punição, sanção, que os pais por não terem moral e visão de moral também não lhe impuseram como racionalmente deveriam até por disposição legal. E o Sem Amor (daí sem caráter) vira o aluno-problema, depois cidadão fútil, péssimo ser humano, vítima de si mesmo e de sua origem, seu meio, sua estrada cheia de tumultos, acabando por ser refém de improbidades para sobrevivências possíveis e os pais equivocados culpando a escola, o governo, o professor, quando escola prepara, não molda a partir dos primórdios de uma educação essencial que é fruto de um lar inteiro e sério, um lar de verdade que poucos têm.

Em escola particular a concorrência é ruim, quando um aluno é suspenso, tirado da escola ou sofre um acidente de percurso, todos os colegas comemoram um tipo a menos para enfrentar. Na escola pública é pior, você vê o jovem que mal sabe soletrar direito uma frase com sujeito, predicado e verbo querendo cantar em inglês maleixo, ou tendo celular e não tendo pra quem ligar, de quem receber chamada e até mesmo de verdade não tendo nada a declarar, nada a dizer. É apenas um medíocre símbolo de status jeca quando status mesmo é falar bem, escrever bem, por conseqüência disso pensar bem e vencer desafios.

- Meu filho não sabe nem escrever direito e passou de ano, chia o pai mais bronco ainda, pobre coitado. Perguntem em quem ele votou. Pior: analisem o que pensa e vão ter uma surpresa. E depois aparecem ONGs oportunistas e suspeitas faturando alto, jornais e revistas vendendo educação mais como marca, marketing, do que essencialmente com uma filosofia humanista de conteúdo, de um - também na escola em geral - humanismo de resultados. E todos faturam. E a escola perde. Quando é que vão medir isso?

Você compra uma revista de educação moderna para aprender conceitos contemporâneos, múltiplas releituras, apreendências, filosofias, técnicas, didáticas, textos inteligentes, puristas, teorias/praxis de peso, e lá está a bobinha citação neo-esóterica de ocasião, a lenda estilo Paulo Coelho (decadente, portanto), a propaganda enganosa de um ou outro governo, grana emergente de fundos perdidos (que continuam em mãos estranhas), todos cobrando boa educação só da cara falsa pra fora; todos escondendo espúrias glosas em caixas pretas de tanto caixa dois, e os professores nunca ganharam tão mal, nunca foram tão vítima do sistema injusto com eles do que nesses tempos de irreais planos reais estatalmente também improbos. A mentira da globalização neoliberal agrada a muita gente, rende lucros, todos saem ganhando menos o aluno que deveria ser o cidadão a evoluir, mas que fica sentado à beira do caminho, vendo a história passar e ele ser sacado do time de sucesso.

Ambições materiais.

O Cassino Brazyl S/A só perde com isso. Quem está ganhando por fora, jogando sujo, fazendo a reprodução do open-doping de uma mídia viciada em mentira que atira contra cabeças e mentes que serão novos feudos de consumos de um futuro sem futuro?

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