"Na vida não existem diálogos.
O que existem são monólogos
que têm como resposta outros
monólogos(...). A vida é a eterna
procura de um ouvinte...."
(Nelson Rodrigues)
Minha delicada e gentil esposa, Musa Inspiradora, bonita e serviçal, sempre
ativa e dinâmica, parceira e amparo afetivo para toda obra, fala tanto,
fala muito, fala demais que, brinco, se a prendessem num freezer, conversava com
o pacote do chéster.
Se a prendessem num guarda-roupa conversava com os cabides.
É verdade. E como fala. Demais e teatralmente desproposital às vezes.
Mas talvez eu mereça mesmo, faça parte do problema, quem sabe.
Pra contar o bendito causo do aluno paroara, que fez um desenho obsceno no verso
da folha da prova de geografia, numa periférica escola pública de
latinha do estado (lá...tinha salário!) imagine só, lamentavelmente
não contou apenas do momento grave da aula em si; da classe terrivelmente
agitada de teens filhos-da-mãe; do problema grave que ninguém do
meio educacional escora; do ato curto e grosso em si.
Muito pelo contrário. É bem improvável.
Novamente destilou a falácia toda, tintim por tintim, com exagero de detalhes
narrados a exaustão, com tantas especificidades desnecessárias e
chatas que até cansou minha beleza poética. Haja picuá e
jogo de cena.
Era o quantum do calor do dia; a escola em sua arquitetura chinfrim e do abandono
governamental do estado incompetente; o degrau nodoso com lombada rude; a hora
que pegou o giz ruim feito ceroto verde-estrume; quantos alunos tinha (todos marrudos
e abusados); a cara de repúdio que fez no momento crucial; como o aluno
em foco estava vestido pra desocasião; qual segundo exatamente foi o torpe
destempero unilateral; como foi a prova - Vamos benzinho (eu a chamo de benzinho
na intimidade) - Conte logo o fato, cobro, empacado mas todo trancham - e toma
ela lá de novo, se entrincheirando no reduto da dialética sem pé
nem cabeça, loquaz e diletante na entoação e gestual-carnegão
que, se o ato real em si demorou na verdade quase meia hora que fosse, a narrativa
da minha Musa Inspiradora desesperada & impaciente passou disso com delongas
de oratórias que me deixou depauperado, perdendo atrevidamente a paciência
de amorzinho em pandareco - Ela me chama de amorzinho quando quer colo-colóquio
(monólogo)) - e foi por aí a falácia, o desboque de tempo
perdido, os reclamos, o fuzuê, como num jogo do bem contra ao mal, de prós
e contras tudo em si mesma, nesse eixo.
Será o impossível?
Mas como as mulheres falam...Meu Deus.! É verdade!
Já um amigo meu, algo machista e metido a galã de meia tigela (Alan
De...longe depois da maleita), diz que o casamento ideal é maridão
surdo e a mulher muda. Pode ser.
O Criador fez Adão, o verdadeiro Número-Um-Matrix, sem fala, impoluto,
perfeito e muito bem acabado, claro, é por aí, mas, ai de nós,
ao fazer a bendita (e maravilhosa) mulher, já cansado e maleixo, ponhamos
assim - tava perto do sétimo dia e precisava urgentemente de descanso atemporal,
coisa e tal - e nesse esparramo de vácuo-enruzilhada cometeu um erro sideral,
eterno, apertando onde não devia, onde não era chamado ainda nem
para reza ou bença (não havia precisão) e, tocando sem querer
a mão direita de Eva (Na mão direita tem uma roseira/Que dá
flor a vida inteira) a primeira e única mulher, claro, assim estimulada
(defeito num chip energético-temporão?) gritou espalhafatosa e bem
criançona ainda, o espinho: FALOU!
Também pudera.
Foi, a bem dizer, sem trocadilhos, um deus-nos-acuda pra época e para surpresa
desse Deus hiperativo. A primeira palavra no Éden-ninhal foi um vagido
de DOR. Erro de fabricação? Sim, porque, se o ser humano só
pode fazer o bem ou o mal, é apenas uma laranja mecânica, isto é,
tem uma aparência adorável, cor e suco, mas, na realidade é
apenas só um brinquedo a ser manipulado, como diria Anthony Burgess.
Depois, claro, para o diálogo (perto de um serpentário invisível)
o supremo Criador teve de reconsertar o chip da fala também no Homo-Adão-Um,
para então, assim, lhe proporcionar não só esse sacrificial
castigo do dom da fala, mas, para também lhe passar a semente da árvore-mãe
e da maçã-genitália proibida para todos os DNAs de todas
os animais-espécimes desse planeta terrestre. Deus é dez!
Começou ai a zona totêmica.
A mulher semental falou a resposta-mulher: começou aí o inferno
nodal?
E disse Deus: Haja luz. E de presto, pomposo ligou o soquete-continuação-reprodução,
nas tripas internas e nas expostas do varão e de sua companheira. E houve
luz. E logo a falante mulher disse "Eu te amo" e começou aí
a peleja da pajelança do paraíso virando forfé sem radar
tantã, ou, vice-versos. Amor e flor.
E, dando seqüência lógica ao solário da gênese,
o amor se fez acne, se fez carne, veio a libido pós-hormonal e daí
Caim e Abel, a primeira dupla caipira que deveria ser, para sorte nossa, mudinha
da silva. Aleluia!
A mulher, claro, mulherzona, mulherada, mulherio - ai de ti Camila Pitanga - centro
de atenções/reflexões/paixões/traições,
traumas e, Tróia, Helena - porque todos os grandes erros são histórias
das boas e tem fêmea-fatale no rondó das etiquetas & figurinos,
evoluiu e saiu a pedir igualdades, queimando sutiãs e pestanas.
Guerra é guerra, ora, assim como o lingerie revela quase tudo e esconde
o principal, a mulher foi no mesmo diapasão circunstancial pra desfrute-preservação
da prole: sedutora, aventureira, rainha do lar, isso quando não na Terapia:
ter-a-pia-cheia-de-louça.
Ou, pilotando. Pilotando fogão de cinco bocas. Inclusive a dela.
Ou reinando, rainha da barriga de nove meses. Cheia de si e palacial-bípede
produzindo amor lácteo. Bendita seja!
Salve-se-quem-puder. Mulher, o nexo causal do sexo frágil? Frágil
mas que retumba, reage, refratária que é, poderosa. cheia de esplendor,
amiga, companheira, como a minha Musa-Vítima. Tirei do prumo, ué?
Mas, convenhamos, esse defeito da natureza de fabricação - que é
falar demais - não aconteceu por acaso, talvez. Vá saber a intenção
do chefe-dono, o Deus-Diretor Geral, Produtor e Ator Principal dos bastidores
e pantominas dos espetáculos da vida. Afinal, dizia William Shakespeeare,
o mundo inteiro é um palco e todos os homens e mulheres são apenas
atores...
A fala foi um acidente proposital de Deus em seu bom humor celeste? Pode ser.
Adoro-as, podes crer.
Mas que a Mulher fala mais do que a boca, isso é universal, sem tirar nem
pôr.
E, com licencinha que a minha patroa tá me chamando atrevidona da silva.
Pra você ver, né não? A esposa musa-vítima.
Comigo ela fala ali, na bucha, de joelhos:
Cá entre nós e a Gaviões da Fiel, eu estou embaixo da cama
escondido das vassouradas dela a exigir bem quizilenta que eu limpe o casario.
Deus não desenvolveu software para o silêncio dos eternos casais
de namorados.
(Texto da Série, Álbum de Família, Desgraça Pouca é Bobagem)