Eu tinha lá, quando muito, meus vinte e poucos anos, algo ainda inocente
puro e besta, jeca total de tudo, mal recém-oriundo da minha distante e
adorável Estância Boêmia de Itararé, Cidade-Poema, início
dos anos setenta, e labutava como Auxiliar de Pessoal numa confecção
japonesa de nome Sakuraba, lados do Bom Retiro, São Paulo, Capital do Brasil
S/A entrevado numa incompetente, corrupta e violenta ditadura militar.
No escritório da firma, eu trabalhava como aprendiz de contabilidade com
um gerente bem janota e boçal de nome Laércio Piazonne, cheio de
cacoetes, recalcado de tiques nervosos, chato por modus operandi, mais
uma viúva quarentona que, cafona-romântica cantava músicas
bregas em alto e bom tom enquanto preenchia os livros de débitos e créditos,
e uma amiga já balzaquiana da parte fiscal que, aqui, vamos chamar de Maria
Odete, vá lá, que seja.
Pois é aí que entoa o causo.
Volta e meia soava o bendito trim repetitivo e chato do telefone (que na verdade
tocava o tempo inteiro e era eu o mané serviçal e porqueira quem
o atendia) e, como disse, de tempos em tempos o mesmo trololó:
-Alô? Por favor, a Maria Odete está?
-Pois não, boa-tarde, Confecções Sakuraba, Departamento Pessoal,
quem é que deseja falar com ela?
Esse era o meu repetitivo disquinho de sempre. E o tipo do outro lado da linha,
voz de cantor de ópera:
-Aqui é o Machadão. Fala pra Maria Odete trazer-me, por favor, o
meu LIVRO hoje, às vinte horas. Obrigado. Tiau.
E desligava, o porqueira do outro lado do aparelho pretinho.
Eu passava o recado pra Maria Odete que, claro, toda sinuosa, às vezes
corava, agradecia, então se aprumava feliz (reparei muito tempo depois)
vaidosa, e assim passava o cadarço do dia no quédis da situação
ocasional.
Seguia seu curso o trabalho, volta e meia como já disse, às vezes
véspera de feriado prolongado, o entojado do Machadão novamente
importunando:
-Fala pra Maria Odete trazer o livro hoje, por favor, às tantas horas sem
falta, em tal endereço.
Eu, como também já disse, inocentezinho e babaquara como qualquer
eleitor-ameba do Maluf filhote da ditadura, passava depressinha o bendito recado,
encafifado, algo já de butuca, sondando o desmanche do andaime postural
da Maria Odete, ainda não com a pulga atrás da orelha.
Deveria?.
Passaram-se os meses, alguns anos, a mesma ladainha.
Será o impossível?
Tava eu lá, desacorçoado de fazer pedidos, preencher papéis,
quando, de novo, fora de propósito, sexta-feira de sol ardido e calor de
matar, o Machadão cobrando novamente o bendito do LIVRO.
Tem cabimento?
Um dia, conversa vai, conversa vem, eu, louco pra saber mais sobre o lazarento
do livro emprestado e jamais devolvido - deveria ser uma belezura (e eu, como
hoje, também adorava muito ler) quando toca o telefone, o Machadão
com a mesmíssima conversa fiada; o caipora do recado besta que eu passava
prestativo, a Maria Odete com o sorriso maroto, e eu então, que sempre
montava num porco com atrevimentos fora de propósitos, caí na besteira,
claro, e, encafifado (não era por menos) cobrei da Maria Odete que já
era minha amigona, a única pessoa alto astral e de qualidade humana que
ali trabalhava a me dar a coragem de ser e de viver maravilhosamente cada dia
como se fosse o último:
-Você, hein, Maria Odete? Pelo-amor-de-Deus, por que não entrega
esse bendito LIVRO pro Machadão? Que sujeitinho. Estou curioso para saber
que autor é, que edição, que editora. Faça-me-o-favor,
hein, benza-Deus.
E me apresentava, solícito:
-Quer que eu leve o livro pra você? Somos amigos, faço essa devolução
de coração.
-Quer que eu entregue pro Machadão?
Ela só retrucou, delicada, mas curta e grossa, não antes sem ficar
coradinha da silva:
-Você não iria gostar...
Passaram-se os anos, claro, que a vida passa o seu curtume de acontecências
triviais, e um dia estando só eu e a Maria Odete na firma, fim de tarde
de balancete trimestral, com o sol lambendo o beiço dos calipiás
em horizontes de arranha-céus e chaminés distantes, quando fiquei
sabendo pela Maria Odete, toda recatada, discretíssima, pedindo que eu
não alarmasse muito sobre o recado de tempos em tempos do amigo especial.
E contou-me, algo ainda jocosa por minha pegajenta humildade e pela minha modesta
inocência tão pueril:
-Somos amantes. Ele é casado. Não pode largar a mulher que é
doente de caroço na mama. Então, volta e meia, sentindo saudades
de nosso amor, de nossos encontros maravilhosos, liga e diz que quer que eu lhe
entregue o livro, que é a metáfora; a senha, o código que
encontramos para, delicadamente marcarmos o encontro prazeroso de nosso secreto
amor impossível.
Pra falar a verdade, cá entre nós, desde esse bendito dia, passei
a sondar a Maria Odete de-través, ferindo um pouco a nossa amizade de trabalho
e os confeitos dela.
E, confesso, nunca mais fui o mesmo depois disso, medida as proporções,
claro, acredite se quiser. Como bem disse ela, eu não iria gostar mesmo
de entregar o LIVRO pro Machadão.
Como um arigó completo que era de uma histórica herança machista
e tonga, saranga de tudo passei a ver a pedaçuda da Maria Odete como uma
biscate.