A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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A Importância de Ser Ninguém

(Silas Corrêa Leite)

(Para Charles Chaplin)

Como é bom não ser ninguém, não ser reconhecido na rua por qualquer motivo ou coincidências de circunstâncias, não correr riscos desnecessários, nenhum burocrata ladrão, nenhum político neoliberal ou vendedor de terrenos na lua; que gostoso ser um ilustre desconhecido total, a paz de não ser famoso, a tranqüilidade de ser comum no trivial dessa maravilhosa vida que é simples e boa, essa é, entre outras coisas, a importância de não ser ninguém para quem quer aparecer, ser famoso, imitar artista, parecer rico, correr riscos com tudo isso de inócuo, sem conteúdo existencial.

Eu não. Eu sou Ninguém. Quando muito têm pena de mim, ou medo da minha aparência humilde, comum, já que me misturo tranqüilamente com o povo e me pareço direitinho com ele, de igual para igual, cara a cara, olho no olho. Ah que ventinho bom, que espaço generoso em abundância, que sombra e água fresca, posso ver a vida inteira e infinita do andar de baixo, e assim tenho muito mais tempo para olhar com a consciência tranqüila lá para cima, para o alto, e ver muito além da linha do horizonte, ver muito além do sol.

Como é bom não ser ninguém, poder ver o outro como um irmão, companheiro de andanças, brasileirinho de jornada, o carente como um ser humano a ser ajudado - o necessitado em seu caminho pode ser um anjo enviado por Deus para testar sua alma - e assim caminhando e cantando e seguindo a canção, ouvir o relho do ventinho de chuva no ipê amarelo que dança, ouvir a voz terna da criança na creche periférica contar de como pula amarelinha, ouvir que, ao longe - no devir? - alguém sola uma clarineta e meu espírito sereno recebe a pelica dessa benção.

Como é bom não ter que dar autógrafos, coisa mais ridícula do capitalismo burro, como é bom não ter compromissos agendados, o telefone celular incomodando você o tempo todo, você ter todo o tempo do mundo para ir e vir, sem compromisso, mas ser e parecer ser; como é bom não ter uma câmera intrusa filmando você e ser violada a sua intimidade, o seu lado pessoal de simplesmente ser, como é extremamente bisonho e ruim, com quase todos querendo aparecer - carências múltiplas - e você só querendo saborear intensamente a lição do verbo existir, um picolé de uva, um pão de queijo quentinho, um abraço apertado do filho, um livro de poemas falando de Pasárgada, um pôr-do-sol, uma nuvem em formato de pelicano .

Como é bom não ser importunado por telefonemas de madrugada, e-mails aos milhares pedindo respostas prontas, quilos de cartas querendo fotos e lembrancinhas, inocentes inúteis querendo chamego, curiosos suplicando sinais, fanáticos e despreparados (para viver) caçando você, a foto, o susto, o flagrante, a intromissão, você incomodado se policiando numa persona que às vezes nem lhe cabe inteiramente, só para agradar a gregos e baianos que querem ser você, quando até, pode ser, você não agüenta tudo isso de ser você inteirinho, o tempo todo sendo você mesmo.

Como é bom ser Ninguém, como tantos outros ninguéns que abundam pelaí, mundão a fora, entrar tranqüilo em lojas clandestinas, porões proibidos, passear em praças piratas sem despertar desconfiança e sem ninguém sequer reparar que você está ali, assobiar Caetano Veloso (Um Índio Descerá de Uma Estrela Colorida Brilhante...), Taiguara (Que As Crianças Cantem Livres...) ou Geraldo Vandré (Para Não Dizer Que Não Falei de Flores...) e ver pardais albinos nos fios de alta tensão, ver flores que não existem nas pessoas sadias espiritualmente, sentir-se livre e suave e pleno de vida, enquanto um caramelizado mauricinho démodé ou uma indócil sandy jeca não têm esse prazer porque querem ser mais do que são, sem conteúdos, vivendo de ilusão - são tantas as ilusões - por isso usam maquiagens importadas, pontos postiços, botox, máscaras epidérmicas, e fogem do tempo como o diabo da cruz, vegetam entre camarins, fãs clubes, spot-lights e incuráveis segredos íntimos que resignarão em cachês, aplausos, solidões (depois do espetáculo), egos, neuras e até infelicidades somatizadas por abusos indevidos sem peças de reposição porque a fama é reles, a fama dói, não vale a pena o alto preço a pagar pela paz e a intimidade preservadas.

Como é bom ser ninguém, único, e não se parecer com ninguém, não ter nada a ver com nada de edição midiática, como se um simples e pobre mortal comum, uma espécie de E.T. em terra afro-tupibrasilis de estrelas, onde todos querem luz, câmera, ação; abrem as cortinas mas não têm nada a dizer; desfilam vazios como envelopes de abandonos sensoriais, sachês de aparências fazem poses decoradas que não significam nada, não dizem nada, não acrescentam nada a nada, representam o que não são, pois na verdade nem sabem o que são sendo assim, reféns do consumismo, da grife pegajenta e pífia, da estética de todos serem iguais a todos e portanto sendo assim nada são por si mesmos.

Como é bom ser ninguém, votar no mais radical - radical é a miséria - ser diferente para você mesmo, não acompanhar aqueles que seguem o berrante das modas bobas, procurar ter personalidade própria, pensar para votar, discutir sim, futebol, política e religião, ter medo dos donos da verdade, ter medo daqueles que são usados e acham que estão agradando; afinal, ser ninguém é ser gente no sentido mais magno da palavra.

Quem quer ser gado marcado no curral das aparências que seja. Bonés, tatuagens, frases feitas, gírias de baixo calão, que baixaria, que baixa cultura.

Tente ser feliz, se não conseguir, pelo menos tente não fazer ninguém infeliz. Isto, por si só, é a primeira moeda de uma futura fortuna de imensa felicidade.

Seja você mesmo o tempo inteiro, a vida toda, é tão fácil não ser ninguém sendo intenso, pleno e verdadeiro sem pendurar uma melancia de plástico no pescoço.

Mas seja um ninguém simples, humilde, comum, bacana, e assim, por isso mesmo talvez, numa sociedade de marionetes finalmente você será verdadeiramente e a pleno vapor

ALGUÉM MUITO ESPECIAL!.

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