A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O Meu Primeiro Assalto

(Silas Corrêa Leite)

Todo mundo tem a sua "primeira vez" para tudo, né não? O primeiro tapa, o primeiro beijo roubado, a primeira professorinha, a primeira transa. Foi bom pra você? Quem é você? Êpa! Tem também a primeira desilusão. O primeiro poemínimo neoconcreto. O primeiro gibi do Tarzan novinho em folha. O primeiro palavrão e o segundo tapa. Captou minha mensagem? Deu pra perceber. Fala sério.

Mas eu já estava bem crescidinho, cara de mortadela de soja na fila do cinema do Shopping Butantã para assistir os Filhos de Francisco, comigo uma mina da firma que eu paquerava (ainda se diz paquerar?), a caixa parda e pelancuda entretida na toleima do troco em níqueis, quando ouvi o gritinho gutural, pra dentro (a minha paquera queria mesmo era assistir a fita do Batman) e a caixa elétrica de olhos estalados, logo soou a voz gutural ao pé do ouvido direito:

-Passem a grana! (nunca achei que grana fosse roupa amassada, tivesse que passar.)

Stop!

Quis saber quem era. Impacto psicológico do primeiro instinto numa reação imediatista. O Pingüim ou o Homem-Aranha?. Fungaram feio no cangote. O sujeitinho, bafo-de-onça, truculento e nervosinho como eleitor do FHC (depois da sórdida desvalorização do falso Real) manteve a mira de um encardido 38 lazarento nos três palermas.

-Não se mexa, disse o tipo roufenho. Era do ramo neoliberal. Sabia o que fazia.

-Não se vire, completou turrão, marrudo. Um olho na grana e outro no derredor.

Eu ali, rendido às evidências, mais amarelo que filhote de cruz credo atrás do calipiá. Deusolivre-e-guarde. De rabo do zóio só vi o narigão de pelicano do marginal em vantagem física de armário; a enorme pestana esquerda de tabacow; o queixo de intelejumento e o caipora do cheiro de fedô, perfil colado rente ao gugu. Ninguém merece.

Não me mexi. Nem quis reclamar a desfaçatez. Ele tinha uma arma tipo paralisa-cérebro? Dei a carteira de couro de jacaré cheinha de trocados. A amiga íntima deu as jóias francesas made in Paraguai e alguns suspiros curtos. A bilheteira deu as férias do dia e ficou com aquela cara de boi lambido. Quero dizer, de vaca louca.

Quis reclamar dodói. Senti o atropelo das idéias de jerico. Medo querendo criar coragem. Será o impossível? Ele captou direitinho a mensagem úmida da minha sudorese.

-Se você reagir, tampinha, eu meto uma azeitona em sua cabeça de melancia e faço seus miolos tingirem o clichê de sangue!

Pedindo assim com jeitinho, foi fácil compreender inteiro e redondo, né não?.

Pegou pesado, senti firmeza. Só por Deus. O brucutu e o poeta.

Mal pensei em gritar Sazam e fazer a necessidade emergente na calça de grife cabritada mesmo; contar até dez mil ou respirar cachorrinho, e, como um milagre, fui, tóim, zap, clic: o estrupício pegajento escafedeu-se por um buraco do tempo, na zona morta do triângulo das bermudas do circo armado pra consumo.

Em seguida a mina (ainda se diz mina?) teve um siricotico temporão e capotou. A caixa registradora em pane ganhou uma feição de Hulk depois da maleita e desmaiou como maria-mole queimada.

Eu, claro, euzinho, macho com hagá, macho pra caramba, ali feito um joão-bobo, sentei perto de um baita pôster do Robin Hood (cartaz anunciando a próxima atração) e chorei escondido, chorei desesperadamente, me sentindo, claro, a frieira do verme do cocô do cachorro do homem da caverna. Sacaram a cena fílmica? Faz parte.

Em segundos fez-se um pandareco. Clarins, procissões, alarmes, sonoplastia de hollywood, trilha sonora, holofotes, gritarias, celulares, policia, foi uma correria danada. Só faltaram os Marines americanos ou o John Wayne de tromba. Quem foi, quem não foi? Imprensa marrom, câmeras turbinadas em gruas, cachorros de pedigree, autoridades obesas, seguranças metidos a deuses, o diabo a quatro. Só vendo pra crer. O Brad Pit de testemunha num outro cartaz. Pus a garota fuinha num táxi clandestino. Deixei endereços com os tiras e voltei pra casa me sentindo impotente, feito um cusarruim. Liguei pro analista boliviano e ele em portunhól mesmo soltou a pérola aos porcos:

-Foi o seu primeiro assalto? Tadinho, tão puro, saranga, inhantã e inocentezinho da silva. Isso acontece com nosotros, hermano poetito.

Onde já se viu isso?

Se eu encontrasse o morfético do bandido mil vezes, mil vezes eu o mataria. Acho que até o reencontrei mas não o reconheci. Metrópole grande, impunidade generalizada de cima a baixo, leis caducas do tempo da onça, justiça que tarda e falha, tudo isso fizeram parte de um elenco de cisma sobre o meu primeiro assalto. Levou quem trouxe!

Só que eu sou um vitimo chato.

Nesse ano carunchado perdi as estribeiras. Só acontece comigo. Não dizem que cachorro mordido de cobra tem medo de sobra?

Havera de ser com você. Pela primeira vez na vida, eu me senti um idiota descapitalizado.

Pensei no referendo, armado de moral e grandeza cívica o meu ódio paisano passou. Mas saquei que o ano que vem tem eleição de novo. E não quero que o que está aí de podre continue incompetente e insosso feito picolé de chuchu.

Também pensei em votar em branco. Mas eu não sou racista.

Meu voto é a minha arma.

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