Alguns pais altamente competitivos e exigentes de ocasião, mas não
necessariamente bons pais no termo contextual da palavra, levam os filhotes
a acreditarem que o VESTIBULAR é tudo. Os interesses às vezes
escusos de algumas escolas particulares no mesmo fito, reforçam isso
e levam os alunos-clientes a acreditarem mesmo (e friamente) que o bendito Vestibular
é tudo. Parado aí! Vestibular não é tudo, cara pálida!.
Claro que é importante, bicho, mas é apenas e tão somente
um começo e marco como referencial da idade, um primeiro degrau, um fechamento
de ciclo e começo de um outro altamente importante, um andar para cima,
um período de travessia, vamos colocar assim. Pois é: o "teen"
sai de um ensino médico e cursinho e vai sofrer o crivo de uma popular
e famosa (e ocasional) peneira oficial, correndo riscos, é claro.
Falando francamente, já vi muito jovem não passar no primeiro
filtro oficial, depois, num segundo também ficar fora e, de repente,
após uma terceira tentativa eficaz, mudar a cabeça, o estilo,
à vontade, e até a opção do que realmente queria
inicialmente fazer, estudar bastante, pra valer, e passar de primeira na seqüência,
se formando bem, alcançando sucesso e sendo um vencedor - e feliz na
vida - que é isso mesmo que vale a briga e a nossa estadia dentro do
que convenciono chamar o belo verbo Viver. Viver intensamente é a soma
de lucros e perdas, acertos e erros.
Por outro lado, já vi uns caras aí passarem em primeiro lugar
em mais de três faculdades públicas de altíssimo nível,
darem um show como se sabichões, assumirem circunstancialmente por uma
carreira como se definitiva e plena, iniciarem até relativamente bem
o curso, mas, fraquejarem no andar da carruagem universitária, depois,
não acabaram o curso iniciado tão alvissareiramente, enfim, desistiram,
partiram pra outra, mudaram de trilhas e projetos, e acabam nem se formando,
ou nem conseguindo um diploma de uma coisa e trabalhando em outra, quando não
desesperados por terem tantas perspectivas - e tantas cobranças - e,
na vida real, na verdade não conseguirem o tão almejado sucesso,
até porque, vestibular é um momento, uma coisa, uma situação
de percurso evolutivo, a vida real é outra história. Ficar cegando
o filho com uma viseira só pelo vestibular por si mesmo de forma total
e irrestrita, é receita xarope de pai bufão, de mãe limitada,
até porque, perdoem, na verdade, pais de alguma maneira idiotas podem
criar filhos banidos do social... É o que acontece e os pais nunca admitem,
nem aceitam isso na cara dura. Pais incompetentes criam filhos infratores? Daí
para pior. Filho é barra pesada às vezes.
Vamos com calma aí. Vestibular é bom, estudar precisa ser tornado
gostoso, escola ajuda e forma (produz conhecimento), a leitura obrigatória
de um bom jornal todo dia soma bastante, ter opções de cultura, esporte
e lazer na soma configuram um jovem bem sustentado e, o principal, em casa,
os pais estudando juntos, os pais construindo, com afeto, todos empenhados de
que o jovem nesse estágio seja feliz inteiro, faça gostoso e bem
feito o que pretende de própria decisão, não caindo num
funil às vezes pouco ético e depois sendo sacrificado pela sociedade,
dando com os burros n'água em todos os sentidos, por culpa de pressões
inócuas, imposições, barbaridades ditatoriais de meio,
pais cobrando mas sem conteúdos humanos.
Vestibular é útil, importante, faz parte de um crescimento de
um ser humano aluno enquanto cidadão também. Mas não é
uma bala na agulha, porque o tiro pode sair pela culatra, como no Japão,
por exemplo, que grande parte dos jovens reprovados tentam o suicídio
ou mesmo se atiram de um alto arranha-céu com esse propósito fatal.
Devagar com o andor que o filho é gente, humano, pessoa, não máquina.
E estudar não é só um momento, um tempo, uma fase, uma
circunstância. É todo um conjunto de situações pertinentes.
Estudar é SEMPRE. O pai deve cobrar e acompanhar numa boa o filho a vida toda, sendo participativo, somando, ajudando,
pesquisando junto, dando toques esclarecedores, dando exemplo, não simplesmente
bancar um curso regiamente pago, um cursinho caríssimo, e depois achar
que fez sua parte e o herdeiro que dê no couro, que faça sua parte
direitinho, passe no vestibular de uma universidade federal da vida, pro pai
contar palha pros amigos do bar ou do futebol (casados contra solteiros), pros
vizinhos incautos, pros parentes pobres, se esquecendo que, do vestibular, com
acesso a um estudo superior ou não, à formatura e mesmo o próprio
delineamento de toda uma carreira profissional toda, há uma grande distância,
um grande trajeto de anos com experiências e frustrações.
Uma coisa até pode não ter muito a ver com a outra, até
porque, tem muito profissional aí que ganha muita grana normalmente só
com um curso técnico-profissionalizante, e tem muito alunaço de
universidade pública vendendo hot-dog em camelódromo clandestino
de esquina concorrida, porque o diploma não faz o homem que não
se faz.
O filho vai ter que ler um livro obrigatório, um baita clássico?
O pai lê primeiro, incentiva, discute, pega na internet comentários
a respeito, resumo crítico, opiniões sobre o autor, outras obras
dele e vai por aí a toada, ombro a ombro, pari-passu. Pai e filhos estudando
juntos, crescendo o eixo da relação, pro filhote então
se sentir seguro e encarar o vestibular numa boa, como um arroz-com-feijão
de uma trivialidade em que a família se junta, soma e divide mesmo responsabilidades
em afetos, conquistas e ocasionais sucesso de manejos e percursos, ou não.
Tudo pode acontecer pelaí.
Passar no Vestibular é importante, faz bem pra saúde, pro bolso,
dá um ocasional lustro no ego, mas não é tudo, no contexto,
aliás, não é tudo e nem é muito numa verificação
de valores e vivências. São anos de estudos, leituras, pesquisas.
O filho pode se arrepender na escolha do curso, embalado pelos pais exageradamente
corujas. O filho pode descobrir o amor de sua vida - que melhor lugar que uma
faculdade? - pode estar com sua nova turma de alto gabarito, ter colegas sarados
de cabeça para discutir abertamente os sinais de um futuro difícil
(o neoliberalismo, a globalização), enfim, é comum ver
muito pai frustrado porque o filho trancou matrícula, desistiu sem explicar
porque, quando não cabulou aulas pra ir pra gandaia e perdeu o ano, ou
foi jubilado mesmo, tudo porque deu um show no cursinho e no vestibular foi
genial, e depois não era isso o que queria, não pegou o jeito,
não sentiu firmeza, não levou fé. Afinal, a opinião
pessoal do jovem é a que realmente vale. É do futuro pessoal dele
que estamos falando. É a vida dele que está em jogo. Ele vai ter
que juntar esforços com interesses pelas próprias mãos,
pelos próprios pés, pois, afinal, há muito já saiu
da barra da mãe e um dia vai construir um lar todo seu, ao seu jeito,
ser parte de um novo núcleo social, quer os pais queiram, endossem, referendem
ou não. Já pensou?.
Bem intencionados, os pais ás vezes são cegos ou bobos. Não
valoram escola pública (acham fraca), votam mal (são culpados
então), constrangem educadores de escolas públicas que ganham
menos do que motoristas de caminhão (eis o erro crucial desses bicudos
tempos tenebrosos) e na sua maioria das vezes os mestres mal-valorados (o holerite-cebola
- rasgam e choram!) têm mais estudos e conhecimentos do que o pai e a
mãe dos alunos juntos, mas, se os pais, com sacrifícios pessoais
bancam um curso particular, e depois, loucos, exagerados, tendenciosos e parciais,
despolitizados ao extremo, ainda cobram que o júnior saia-se bem na vida.
E faculdade grátis vai acabar mais depressa do que pensam os mauricinhos
e patricinhas. Há um cheiro limpo de mudança no ar. Cota de brancos?
Cota de humanos?
Acho que podíamos continuar tendo escolas públicas, do primeiro
grau ao quarto grau (pós-graduação), com cotas nas universidades
para a clientela oriunda das camadas mais pobres da população,
no ensino público, mas, convenhamos, o aluno fora desse meio que queira
cursar gratuitamente (e se bem pontuado no vestibular), ao término do
curso superior e quando começar ganhar dinheiro na profissão,
tem que pagar essa gratuidade universitária em serviços públicos
a favor da população carente. Ou não faria sentido, como
não faz. Nada mais justo. Porque, conforme está, é errado,
inidôneo, e só beneficia os filhinhos de papai da chamada classe
dominante com suas riquezas injustas e seus lucros impunes, pra não entrar
nos detalhes sociais da historicidade. A história do Brasil tem que ser
repensada por uma democracia social...
Assim, bom cursinho de grife, decoreba de ocasião, contar palha disso
e daquilo, incentivando o filho ingênuo para um canal que ele nem sabe
direito o que realmente quer, é fria, não tem nada a ver. Os pais
têm que abrir os olhos. Os tempos são outros. Outras realidades
sociais. Ou, ficarão frustrados quando o inteligentíssimo, o ótimo
aluno, o júnior culto e altamente sensível, um dia, na vida real,
não for feliz, fizer besteiras por atacado, não ter boas relações
afetivas, não ficar rico como todo o clã espera, não alcançar
o sucesso tão esperado pela própria sociedade, porque, afinal,
a vida real não é justa, nem todos têm o que merecem, e
nem todos que merecem sabem o caminho certo para o sucesso, já que não
há uma regra perfeita e acabada nesse sentido.
E, avaliando pelos pais que nunca estudaram e, de alguma forma têm alguma
coisa, pode se concluir que, estudo é muito importante, mas não
é tudo. E o vestibular nesse contexto é apenas uma situação
avaliatória, como um exame seletivo pra servir o exército, uma
entrevista pro carimbo no passaporte, um teste para entrar no mercado de trabalho,
num tão sonhado primeiro emprego. E, podem crer, esse tal Vestibular
do jeitinho babaca que é (em alguns casos suspeitos) vai acabar e não
vai demorar muito.
Os pais, na maioria das vezes acabam presunçosos, achando que só
o filhinho deles - em quem investiram tanto - é quem vai dar um show,
se esquecendo que somos um país do pior capitalismo (selvagem) possível,
e a concorrência é desleal, pois são espertos e não
experts os que mandam e vencem(...), e nem sempre quem estuda muito dá
um bom retorno pro clã. Assim, vamos com calma. Depositem no herdeiro
o maior crédito de afeto possível, estudem juntos, amem-no pelo
que ele tem de características pessoais, peculiares, inerentes, ele é
apenas uma madeira bruta que precisa ser aplainada pela vida, lembrando sempre
de que a madeira torna-se flauta quando é amada.