Quando é que um camarada e tanto, um amigo realmente supimpa (ainda se
diz supimpa?) vai me ligar às quatro horas da matina de uma gorda terça-feira
beronhenta de preto na Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, e
me dizer assim, na lata, quero dizer, no ouvido:
-Poetinha, ganhei sozinho na Loteria da Sena!. Vamos dividir meio a meio?
Néver, Jamé!
Ou, a grande e prestimosa amiga encucada de tantos recolhes e encalhes, escrever
um e-mail tipo bate-e-volta me informando:
- Poetinha Silas, achei o homem da minha vida (ou mulher, sabei-me lá),
e quero repartir essa felicidade trancham contigo.
Uma pena, caros amigos, mas é só porrada. Uma atrás da
outra, sem tirar nem pôr. Convite pra churrasco, então, nem morto.
Só sou lembrado na hora ruim, nos tempos maus, em coisas boas nem se
tocam de lembrar de minzinho...
-Sabe o meu ex-fpd? Não sei não. O ex, afinal, não era
o melhor homem do mundo dela?
-Sabe aquele pulha? O que é pulha mesmo?
-Não te disse que Sampa está precisando depressinha de um Jéfferson?
Pois é: só noticia ruim, picuinha, azedume, boi-com-abóbora.
E o meu ouvido não é lata de lixo.
-Vamos tomar um chopinho? Pode deixar que eu pago...
-Tenho dois ingressos de cadeira numerada pro jogão do Corinthians versus
River Plate, tás a fim de ir comigo?
-Consegui um baita chalé grátis no Guarujá. Vamos nessa?
Vamos nessa?
Não, meus diletos, coisas boas não ligam nunca. Só tranqueiradas,
macadames, mixórdias, pepinos, problemas, de rifas pra cima.
Como se eu fosse um insensível paxá e só recebesse convite
pra missa de sétimo dia, convocação emergencial para doar
sangue pra suicida incompetente, ou recado na secretária eletrônica
para ajudar na rifa de uma mãe solteira grávida pela décima-terceira
vez de um outro novo pai, quando não, ai de mim, socorrer algum caipora
pego em flagrante numa batida da policia, e vai por aí o desboque. Tá
podendo.
Será que eu estou ficando velho pra tudo sobrar pra mim? Só por
Deus! Ou será que euzinho sou (pareço) uma ilha de felicidade
e sucesso num mar de tormentas e sargaços? As pessoas perderem as referências?
Ou todos são infelizes e, péra aí, querem me dar a minha
parte, a minha cota que, sei, não mereço nunca mais, já
tive o bastante, obrigado, superei isso.
E se eu respondesse na bucha:
-Olhe (olhe maneira de dizer, ao telefone) vá plantar batatas pra colher
maionese. Ou: "Esse Número Não Existe, Tim, Claro. Vivo.".
Ou: ligue de novo no limiar do Século Quarenta. Ou, ainda; meu ouvido
não é PENICO, Meu Amor!. Gostou do Meu Amor? Aprecie com moderação.
-Vá se tocar? Dane-se? - Sinto muito, eu não consigo. Eu nem consigo
dizer não ao Não. Já pensou? Caetanear...
Escuto, ouço, raciocino, pondero, preparo palavras amigas, consulto o
coração - e o relógio, claro! - dou conselho fora de hora
(quem sou eu), mas, desculpem, eu sou assim, amigo é amigo, fiel, confiança
é isso. Eu tento, sabem como é; dou voltas, galeio de palavras
(Vá ser chato assim no Nepal), mas, no final, au au; rabinho entre as
pernas, afinal sou ombro amigo, confidente sério; orelha zunindo, perda
de repertório (de palavras sábias, só pra lembrar "Let
it Be" de Paul MaCartney.)
Por fim, acho que vou criar um bendito Disk-Silas. Ou Aqui/Silas, como diz um
amigo meu. Ou, Silascar, sei lá, vá saber. Cobrar por minuto.
Em euro. Será que eu consigo? Sei não. Não custa tentar.
"Você ligou para Terapia Virtual. No momento não podemos atender,
todas as linhas estão ocupadas; estamos arrendando almas pro novo altar
de pessoinhas perdidas, como lambisgóias espeloteadas".
Só por Deus.
Será que o bicho vai pegar? Não tenho coragem real. Só
especulo, pra desazedar a polenta dos queixumes.
Na dúvida, para não fazer feio, vou ficar na minha. Mosquitos
não entram em ouvidos de quem tem zelo íntimo.
E com licencinha, agora vou ter que me desligar, que o telefone celular está
chamando roufenho lá na sala de não estar. Alguém precisa
do Super-Silas em ação, o herói bundão.
Deve ser a pedaçuda da biscate Dagmar do quinto andar querendo, de novo,
falar mal dos seus sete ex-namorados todos com nome de santo. Ninguém
merece.