Para quem sobrevive incólume a um celular
"Para que serve tanto CELULAR - Com tanta falta do que falar?..."
Ninguém nunca liga mais pra ninguém...Todo mundo tem medo e vergonha
de ficar sem...Ansiedade, solidão, carência, medo...E a cabeça
vazia inventa um reles torpedo. O patriarca não quer assumir as correntes
do filho...Não há mais nas relações de trocas qualquer
brilho. A mãe moderna não tem mais nada a exemplificar para a
filha...Porque acabou o tempo do diálogo, do afeto, da compreensão,
vazou a pilha. Todos desejam ardentemente um minúsculo e exótico
aparelho celular...Porque já não mais agüentam os verbos
viver & amar. Ninguém liga pra saber como você vai ou não
vai...Nem o sobrinho, nem o afilhado, nem o patrão, o amante ou o pai.
Faltam conteúdos vivenciais nas relações...Ou são
burocráticas broncas, ou são potes de regras, ou simples traumas
e inaptidões.
Como é vazio o altar da santa televisão...O entretenimento é
falso, só agressividades saindo pelo ladrão. A Internet é
um frio cada um por si e muito cinismo... Andamos sozinhos em bandos, no beco
do consumismo... Um inútil aparelho que deveria ser de comunicar...É
cheio de símbolos universais, mas nada de realmente identificar.
Um aparelho sonoro tem controle remoto, seguro e vibração...Um
outro tijolo de desuso tem defeito de fabricação. Um novinho em
folha ilumina uma espécie de Pelo-sinal...Mas nenhum é intimo,
perfeito, interessante, útil, presencial. É celular em um de seu
mais profundo vazio ser & estar... E tanta falta de amor, de convívio,
de se tocar. Por falta de diálogo todo mundo tem um seu personalizado
aparelho...Mesmo que no seu próprio núcleo de abandono vegete
o dezelo. É um escapismo sem sonho, filosofia, direitos humanos, mérito
ou fim...E na verdade ninguém é CLARO, ninguém é
VIVO, ninguém é TIM... A solidão-carcaça é
explícita na carga da bateria...E o celular é colorido por falta
de conquistada companhia. Ninguém se encontra exatamente onde está...Porque
falta de ética e visão plural-comunitária é o que
há. Se manque, ninguém liga pra dizer alguma coisa que sirva ou
pra prestigiar você...Um foge na viagem, outro se esconde ou sublima,
outro viaja, outro se dopa, outro lê... O pai com pós-graduação
dá um moderníssimo celular pro júnior herdeiro...Talvez
pra livrar a consciência de ver nele dentro em breve um hospedeiro. Um
outro ganha um celular com bip, cheiro químico (e sem beijo) no natal...Mas
fica só o vazio da mensagem anônima por engano na caixa postal.
São ridículas as trocas de inócuas e programadas mensagens...Jogos
ridículos, campainhas, toques de recolher, miragens... A vida é
dura, triste, angustiosa, solenemente amarga... Mas a sensação
de se ser sozinho repõe e eterna carga. O aparelho digita, recebe cálculos,
estatísticas, reduz a emoção... Como se cada um estivesse
atado a ele como âncora de ocultação. Muitos aparelhos com
alta tecnologia são facilmente clonados...Como cincerros revelando o
gado vacum nos currais pré-determinados. Cada aparelho por si mesmo é
um ridículo falso lixo...Do pobre resto de ser humano com baixa tarifa
de preço fixo.
A vida é barra pesada, sedentária, insensível, cega...Mas
no final do dia só o aparelho por si só se carrega. Criamos a
dor, a resignação, o chip da ruga...Mas o celular ocupado sempre
identifica o grito de socorro que pluga. Afinal, todo mundo tem o seu vistoso
aparelho celular...Mas ninguém nunca tem algo interessante a declarar.
Você paga o aparelhinho brega em cem suaves prestações...Mas
o espiritual atribulado não taxa código de área em precárias
desligações. Ninguém liga, ninguém quer saber, ninguém
mais chama...Porque ninguém mais o seu ser ausente na dura sobrevivência
ama.
É cada um por si, Deus por todos e ninguém nos escuta...E a decodificação
de senha secreta é despistar a conduta. E, se por engano, alguém
um qualquer nunca ligar...É uma eterna falta de dentro despistada a se
revelar.
Se, de noitinha, madrugada a dentro o seu aparelho tocar...Pode ser você
mesmo querendo se encontrar. Ou fazendo um contato pela insegurança de
se restar a sós...Ligando pra secretária eletrônica querendo
ouvir a sua própria voz. Ou você, carente, insegura, de próprio
íntimo dano...Querendo pedir socorro mas desligar depressa gritando "Foi
Engano..."
Pode ser seu coração querendo respirar paixão, dizendo
"Me ame, por favor"....Mas você tem medo de amar e o seu aparelho
celular é o seu cajado ou cetro condutor. Porque você se perdeu
no labirinto da posse de seu instrumento celular...Ninguém liga pra você
e você começou a se faltar.
Deixe o seu aparelho celular no guarda-comida...Para você ir procurar
elo existencial pra sua vida. Deixe seu aparelho intrometido num criado-mudo...E
solte as amarras pra sair e viver intensamente tudo. Deixe o seu aparelho no
conserto e nunca lembre de ir buscar... E viva intensamente como se cada dia
fosse único e singular.
Deixe o seu bendito aparelho desligado...E vá se apresentar pro vizinho
da barraca de camping do lado. Por que, assim, com tanta falta do que falar...Você
deve jogar fora o seu celular. Não há livro de auto-ajuda se uma
ajuda mútua vai melhorar...E tudo é uma busca, um olival, um coração
humano, um desejo de se encontrar...
Você é uma pirâmide, um deserto, ou uma enorme tenda...Ligue-se:
desligue-se, saque o lance, aprenda. Você está fora de área
se não conseguir se encontrar...E se não tem nada a dizer, por
que então um aparelho celular?
Mas não me responda nada, nem fique perdida ou triste...Porque se você
me ligar pra dialogar... Uma gravação dirá em tom solene
e peculiar:
Esse Número Não Existe!