A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Milagres Acontecem (Não Dá Para Explicar)

(Silas Corrêa Leite)

Começo dos anos setenta, recém-chegado em São Paulo, eu estava morando em uma pensão na Rua Torres Tibagi, Tucuruvi, passando fome, devia atrasado à dona da pensão pouco sensível e nada ética para dizer o mínimo, sapatos gastos nos pés, carcomidos pelas andanças, abrindo o bico do pé direito, correndo atrás de emprego, inocente puro e besta. "Sem dinheiro no bolso/Sem parentes importantes/E vindo do interior..." (como na canção do Belchior), saía todo santo dia cedo sem comer, campear emprego, arrumar o que fazer, pouco mais de dezoito anos, mal-e-mal a quarta série do curso primário, oriundo de Itararé, sul do estado, era um pobre rapaz imberbe que amava os Beatles e Tonico e Tinoco.

Nem pensava muito na vida. Pensar na vida era muito doloroso. O pai, Antenor, maestro em Itararé, ligara de manhã, pedindo aos prantos: -Volte filho, volte para sua casa; aqui você tem seu cantinho, tem o que comer. E eu, marrudo, leonino, determinado, turrão: -Não, Pai. Perdoe. Mas eu só volto formado ou morto.

Saí andarilhar, trecheiro. Avenida Guapira. Andando, sem lenço e sem documentos, nada nos bolsos e nas mãos, em frente a Ducal e a Drogasil (a Drogasil ainda está lá, a firma Ducal faliu), uma senhora de idade me olha, me acena, faz me entender (por gestos mais ou menos compreensíveis no imediatismo do inédito momento) que quer falar comigo. Que eu espere um pouco. Parece muito com minha mãe. Entra numa loja. Demora um pouco. Espero. Sai. Atravessa a avenida com dificuldades, ao chegar até mim, simplesmente diz:

Olha, rapaz. Sei que você está passando fome. Toma, é a chave do fundo do meu quintal com a chave da cozinha de casa. Entre lá todo dia, almoce, lave seu prato depois, não mexa em nada, feche direitinho, tudo bem? E dá o endereço apontando "é logo ali, vire aqui, entre a esquerda, desça, há um portão". Explica tudo direitinho. Há um Deus. E se foi sem mais nem menos, assim como me interpelara de vereda. Desci a rua, entrei num beco em aclive da avenida, fiz o que ela mandou, comi muito bem, arroz, feijão, carne com batatas, salada, lavei o prato, mal olhei alguma coisa, inseguro, saí, conferi tudo em ordem, tudo no lugar certo, fechei e ganhei a rua. Mais um dia vivo.

E assim foram outros dias. Não iria morrer de fome. E eu procurando emprego, andanças. Perseguido pela dona da pensão de pouco moral (para dizer o mínimo), sonhando voltar a estudar, ter alguma coisa, me formar, trabalhar, ajudar os pais, voltar vencedor para Itararé, prover meus irmãos carentes. Dias depois, ao chegar para o almoço rotineiro, encontrei a dona da casa em prantos, contando que tinha perdido um filho afogado no litoral paulista. E me deu tudo o que era dele. Roupas boas, rádio, relógio, paletós, sapatos, blusas, coisas ricas que me ajudariam por anos, me proveram muito bem. Sem palavras, assustado, agradeci emocionado, saí não acreditando, com a aquela cara de quem não sabia que lágrimas do céu adornavam minhas trilhas iniciais em Sampa, até eu com bravezas e perseveranças me fazer firme, forte, vencedor.

Pouco tempo depois, apareceu um emprego na Drogasil, depois fui trabalhar numa transportadora de Itararé que tinha filial no Bom Retiro, quando dei uma boa melhorada na vida, estava começando a me refazer, e ganhar caminho de ser vencedor, ter sucesso, voltando a estudar no Liceu Coração de Jesus, um bendito dia tomei o ônibus e fui até a casa daquela sra na zona norte de Sampa. Fui lá agradecer de coração, ver o que poderia fazer por ela, dar um presente, sabê-la, pensá-la. No beco informaram que ela tinha se mudado para uma travessa da Avenida Mazzei, deram umas dicas de endereço. Corri atrás, andei pela avenida toda, até que cheguei a um outro beco de uma outra travessa, onde, disseram, ela estaria morando. Lá fui atendido por um filho dela que trabalhava de lixeiro na Prefeitura, e, ao saber quem eu era, o que a mãe dele fizera, emocionou-se, mas, me frustrando, disse:

A mãe morreu faz poucos dias.

E eu, então, perguntei pelo menos o nome dela, e o moço, emocionado, tocado de alguma maneira; como eu, aliás que estava com os olhos cheios de sangue pela emoção, simplesmente respondeu:

A minha mãe se chamava Maria. Dona Maria.

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