-Você faz por merecer o seu bicho predileto que pensa que foi ele quem
escolheu você? Você o leva para passear, deixa que ele perca suor,
perca peso, tropece no tapete das etiquetas, babe por aquela cadelinha da lanchonete
da esquina, ou se insinue para aquela outra zinha do apê vizinha, sempre
engaiolada, cara de fuinha atrás de um amante de perdição
escondendo o falso rabinho entre as pernas além do silicone no coração?
-Você lhe dá uma porção diária de ração
natural de amor viçado, deixa-o pensar que manda e é o tal herói,
quando ele faz um rápido cafuné maquinal decorado e depois dispensa
tedioso você quintal afora, ou você, na próxima reaproximação,
esconde o chinelo do dezelo íntimo dele; ou você saca bem a pequenez
do tipo e rói o osso da mediocridade humana, sempre perdoando feito um
anjo?. Ninguém merece, não é mesmo?
-E quando o seu animal fede como um gambá, sabe como é, o bicho
não é lá muito de tomar banho, tem um sovaco vencido com
cheiro de fedô que é um risco de vida pro seu ambiente natural
de sensibilidade. Ele também deveria ter um poste pra se enxergar, não
é isso, cara? Mas não caia nessa de retaliar. Tenha paciência.
E quando o seu animal está no cio - e ele como auto-afirmação
parece estar sempre no cio - pede a ração sedentária de
sempre; rosna pro concorrente com cara de hipopótamo metrossexual, demarca
território - cigarro, cinzas, caspas, cabelo caindo (a descompensação
hormonal) - e ainda faz cara de enfezado, querendo concorrer com você
em matéria de flatulência, demarcando território?. Onde
já se viu isso? Proteja-se nessa hora. Evacuem o quarteirão!
-Cuidado com o seu animal. Ele fica cada vez pior com o passar dos anos. Deveria
adotar um outro filho, um primo, talvez, um sobrinho pobre, um menor carente.
Ajuda mútua. Ele dá bola pra você? Colocou um nome ridículo
né não? Ele tem essas coisinhas impróprias lá dele,
mas, no fundo o cachorrão está mesmo é querendo provar
é o rei do pedaço, quando é um palhaço com juba.
Pobre do seu animal. Decadência pura.
-E o canil de estimação dele, então, você acredita?
Mal ventilado, tem tantos tarecos; ele tem um mau gosto incrível, você
acaba tropeçando naquelas coisas todas, tarecos, restos dele, cacos dele,
ácaros dele, pelagem dele, mas ele não sente como você,
ele na verdade não tem o seu faro apurado, o instinto dele é mais
de ataque irracional, você sabe, afinal, são os labirintos da cadeia
alimentar, ele é meio lelé da cuca nessas coisas. Não cheira
tudo o que come. Ele precisa é de um veterinário para dinossauro.
Já pensou?
-Quando ele chamar você de pulguento querido, não ligue. Trate
o seu animal como um bicho de estimação mas, perdoe. Esse é
seu jeito todo gentil de ser fiel. Ele acha que vai durar muito, no entanto,
se você não o levasse para passear, para correr, para dar voltas
no parque, qual seria a desculpa que ele iria dar para morrer tenso, de enfarto,
de estresse, de úlcera, de diabetes, de gula, de raiva, de nojo, pois
que o lazarento adora carne vermelha e de se empanturrar de rações
enlatadas, saturadas, embutidas, destilados, essas porcarias com grife. Ele
está se matando e não sabe. E ele não entende os seus sinais.
Enxerga e não vê. Pensa que pensa.
-Cuide bem de seu animal. Ele não está com essa corda toda não,
mas tá se achando. Dê um tempo. Seja gentil mais uma vez. Pondere.
Dê uma trégua. Afrouxe o laço. Faça-o pensar que
está no comando. Sacou essa? Não arrebente o laço afetivo,
essas relações com animais são assim mesmo, demoradas;
é mesmo muito difícil criar vínculo, manter o elo, deixar
pra lá as patifarias, o sal grosso das ocasiões, as nódoas
de intenções, as gorduras ególatras do comportamento pseudo-racional,
as triviais vaidades e os bocós objetos de adorno, bibelôs que
nem Freud explica. Na verdade o seu animalzinho não cresceu ainda, não
evolui direito a própria espécie desde que descobriu o fogo e
a roda, é quase um brucutu ainda. Vai demorar um tempão.
-Cuide bem dele assim mesmo. Como o seu animal é exibido, não
é assim? Vai a velório e quer aparecer mais do que o defunto.
Carência é só isso. Trate-o bem. Não fique nervoso
como ele que é sempre nervoso. Ele na verdade sabe que, quando há
perigo, pode contar com você "de grátis". Não
late e não morde, não risca sofá com as unhas mas, às
vezes é um perigo por isso mesmo, porque é muito barulhento, topetudo,
turrão, medito a sebo. Quando não dissimula, camufla. Relaxe,
muita calma nessa hora. Não adquirira a personalidade desse cavalo. Deite
perto dele, permita um afago, se preciso, ouse, mie alto, imite um pangaré,
dê umas lambidas de veludo nele, cheire, salte sobre migalhas de tremoços
de saudades invisíveis, mas, segure a neura dele, a depressão,
a crise, o esgotamento, sublimações enrustidas. Ele quer ser leão
mas é um piolho. Às vezes um pólen. Ele não foi
treinado para existir, é muito ruim de aprender, a sensibilidade dele
está atrofiada faz séculos. Você é mil vezes melhor
do que ele, mas, por favor, não deixe transparecer a sua superioridade.
Seja humilde. A coleira é mais uma insegurança dele. Você
é tudo o que ele tem. Quem mandou bancar animal de estimação
de uma pessoinha problemática. Você foi escolhido por ser especial
para a situação grave dele. Você pode ser a própria
salvação dele.
-Quando ele abaixar a cabeça, derrotado, triste como uma lagartixa albina,
saiba latir feito um muxoxo, ofereça a patinha num gesto de afeto, de
compreensão, feito um ocasional salva-vidas. O seu ser humano de convivência
é assim mesmo. Se você não fosse tão importante,
essa pessoa não teria nada a não ser você. A troco da parca
ração diária dele, ofereça companhia fiel. Isso
é da sua natureza. Se o seu ser humano de estimação estiver
meio abilolado e querer imitar você, deixe. Ele não tem competência
para ser um cão, um gato, uma, girafa. Já andou de quatro e fez
feio, até descobrir a condução móvel do cipó.
Ame-o e deixe-o amar do jeito limitado dele, mal-e-mal um paquiderme, uma baleia
azul. Você, cão, gato é superior a ele. Mas não demonstre.
Seja forte sempre como você sempre foi. Segure as barras pesadas dele.
As piores garras são a dos homens. Você sabe se ele foi vacinado?
Esse reprodutor castrou tantos sonhos leais e nem sabe...
-As relações humanas doem, são complexas como você
bem sacou, cheirando problemas. Então eles se amparam em seres como você,
mas, verdade mesmo, os piores animais são eles, os homens, as mulheres.
Os piores poluidores do Planeta Água. Brinque com ele mas fique com uma
patinha atrás, de vez em quando. Anime-o, faça piruetas, leve-o
para passear, seja serelepe, assim ele perde o colesterol, a barriga, melhora
a circulação e, ainda, você será a bendita proteção
dele, apesar dele pensar que é superior, essas coisas. Ele às
vezes acha que é o que não é. Não tem limites, nem
cercas, nem controle remoto. Faz parte. A vida é assim mesmo Lulu, Rex,
Tintim, qualquer nome que você tenha, quer seja Donzela, Esfinge ou Sabonete,
sabe, eles arrumam cada nome, não têm noção do ridículo
mesmo. Isso é coisa da espécie humana às vezes nem tão
humana assim. Você tem que sobreviver entre eles como puder, sem refugar,
sempre perdoando.
-Você faz por merecer seu animal, mas, cá entre nós, o homem
que pensa é seu Animal de Estimação (mas pensa que é
seu dono), faz por merecer você? Cachorrinho, Gatinho, Papagaio, o que
quer de precioso que você seja, tenha dó, cuide bem de seu animal
de estimação, o enigmático Bicho Homem. Mil Luas pra você!