E assim segue o todo, e assim segue o mundo, juntando o sujo com o porco, essa
já insustentável somatória de tudo. Mas há beleza,
sim há de haver. Eu vejo, está aí pra todo mundo ver. Mas
o que pretendo é cutucar. Aí me dizem: _Thiago, com tanta beleza
você só descreve a feiura! Respondo com cara de quem sabe das coisas
mas não fala claramente o que é só pra continuar com cara
de quem sabe das coisas: _A beleza é difícil demais de se descrever
meu chapa! Então, claro, por pura conveniência e preguiça
descrevo a feiura. É mais fácil, mais prático, economiza
fosfato. E bem estereotipada, extremista, radical, achando, infantilmente, que
isso é uma cutucada em quem lê, ingenuamente achando que isso é
uma bicuda na bunda dessa hipócrita sociedade. Ah ledo engano meu caro.
Envio meus textos pra mais de 300 pessoas e duvido muito que 20 delas sequer
abrem o e-mail pra lê-lo. Devem ver meu nome na caixa de correio, respirar
impacientemente fundo e apagá-lo para sempre. Envia-lo sem nenhuma compaixão
pros quintos dos infernos.
Como já disse uma vez o Frimoni, velho amigo, P.H.D. em decente filosofia
de botequim, comentando uma sensata crítica recebida por esse incipiente
escritor (termo usado pelo suposto crítico) que vos escreve essas tortas
linhas: Que escritor que não gosta de ser lido? Ah, mas sempre nos enganamos
pra conseguir continuar vivendo, achando que o que fazemos é especial
e útil, sempre pra fugir dessa sufocante realidade de que nossa vida
nada mais é que um instantâneo suspiro nas entranhas do tempo,
sempre pra mascarar nossa total inutilidade perante essa imensidão infinita,
sempre pra acobertar nosso vazio, nossa vaguidão, essa angustia destrambelhada
temperada com uma apavorante solidão. Pretensão demais acharmos
que pro Universo somos algo. Mas queremos deixar nossa marca, contar nossa historia,
nos tornarmos eternos. Por isso escrevemos livros, pichamos muros, criamos bandas
de rock and roll, temos filhos, montamos ONGs, escrevemos bilhetes, damos presentes,
falamos bom dia, obrigado e vai tomar no cú.Tudo isso nada mais é
que a vontade de eternizar-se em algo, em alguém, esquivando-se trôpego
e enganando o tempo. Mas sim, somos descartáveis pro todo. Nós
todos. Mas lutamos para não sermos por completo, deixando nossa digital
em alguma coisa ou pessoa qualquer. Não importa no que ou em quem, desde
que fique algo, desde que fique restos de nós por aqui. Se o suicida
descobrisse que ninguém chorou no seu enterro ele desejaria voltar e
viver uma vida feliz porque seu plano não teria dado certo e a sensação
de desperdício seria inevitável. Talvez o suicida tenha um imenso
desejo de saber o que conseguiu deixar aqui, vendo tudo do camarote de sua imaterialidade.
Mal sabe ele que provavelmente deve voltar pro mesmo lugar que estava antes
de nascer, ou melhor, pra lugar nenhum ou mesmo pra nenhum lugar.
Será que podemos afirmar que os mortos são mais amados, idolatrados,
queridos que os vivos? Talvez sim. O morto é initocado, incomunicável,
por isso faz falta. Esse pra sempre que fode. Essa impossibilidade que causa
essa sufocante saudade. É sempre o: não pode, que interessa mais,
que chama a atenção. Os mortos não podem mais errar, e
o que normalmente fica são seus acertos e seus erros passados são
esquecidos. Parece extremamente errado odiar morto. Por isso a adoração
póstuma é mais constante. Quando vivo sabemos que mesmo anos sem
ver a pessoa, de uma hora pra outra pode-se encontra-la. Só de se saber
que ela está por ai já acalma, já se perde um pouco o interesse.
Fica-se anos sem falar com a pessoa, ai depois que ela morre tem-se a coragem
de dizer aos prantos: ah, eu tinha tanta coisa pra falar pra ela. Fala-se isso
porque sabe-se que não pode mais fazê-lo. Convenhamos, ninguém
tem tanta coisa assim tão importante pra falar pra alguém, mas
impressionantemente nesses momentos todos juram ter. É o tal do drama
e o que se dramatiza também, porque o ser humano normalmente só
valoriza o que não tem, o que não pode ter.
É assim e sempre será, nós e essa má vontade, esse
desperdício, essa máquina perfeita que só faz cagada...