Eu queria escrever sobre qualquer coisa, mas sei tão pouco sobre tudo,
sei tão pouco sobre as coisas. E a poesia há muito me deixou,
e por isso fiquei sozinho; fiquei sozinho num estado crítico por isso.
Nem Neruda, nem Quintana, talvez nem Pessoa em pessoa poderia me salvar. O bom
mesmo é escrever sem compromisso, um texto impiedosamente cínico,
ou sinistro, ou sarcástico, ou sem sentido; sem se importar com as regras
gramaticais, a estrutura, só com o ritmo; sem um porquê ditatorialmente
específico; sem o aval de engomados e ensaboados críticos; sem
ter a responsabilidade de vender, no mínimo, 100 mil cópias do
suposto livro. O bom mesmo é escrever sem compromisso. Hoje nem Neruda,
Quintana, Pessoa, nem nenhuma outra pessoa faria qualquer sentido. Só
estou tentando dizer que um dia sairei por aí sem deixar vestígios.
Só ficarão pra trás meus textos de quando estive sozinho
nesse estado crítico; sem Quintana, sem Pessoa, sem Neruda; sem porra
nenhuma. Talvez eu saia por ai sem destino, só o vento na cara, deixando
pra trás a ultima moda; o engenhoso comercial da Coca Cola; o suposto
casamento provavelmente adiado na última hora; o jantar repleto de risadas
falsas com a ex futura sogra; os jogadores do Brasil que nem sabem cantar o
hino nacional na final da Copa; deixando pra trás supermercado; empresas
aéreas com promoções tipo: miserável, até
você pode voar, é barato; carro importado; talvez 2, talvez 3,
talvez 4, talvez mais partos de meus filhos que seriam filmados; a minha já
concluída pós-graduação e meu já concluído
mestrado, que já não servirão pra mais nada de fato; minha
outra pós graduação e meu doutorado que não serão
realizados e que não farão nenhuma falta em meu curriculum atualizado;
esses dias, culpa dessa sociedade sufocante, em que fico pra baixo; os passos
em direção a qualquer lugar ou a lugar nenhum que nos saem tão
caros; fofocas covardes entre covardes babacas sobre alguma mentirosa informação
inventada; e esse ranço, essa ânsia, essa asia, essas caras repletas
de botox e desgosto mesmo quando há lagosta, champanhe e petit gateou
no almoço; esse desdém desinteressado meticulosamente gesticulado;
essa maldadezinha patética que habita o coração dos mentalmente
desocupados; esse inapelável esvaziar-se de vida que como água
a escorrer pelo ralo; o viver a vida programado; o esperar sentado; a porta
e o claustro corta-fogo do coração fechados deixando você
e seu coração supostamente protegidos mas isolados.
O que dizer mais? Não direi mais, me calo.