Acostumaram-se a vê-lo todas as tardes, sentado à mesa da lanchonete,
lugar de conversa, de informar-se a respeito da vida do bairro, das obras prometidas
e não cumpridas, da carraspana do vizinho. Chegava de leve, muito magro,
tez morena, judiada pelo Sol e pelo sal, pescador que fora. Sentava na entrada,
para cumprimentar, "boa tarde Dona Maria", "saudações
minha menina", "à vista, seu Maroca", um sorriso nos lábios
e um brilho intenso nos olhos. Toda tarde, sentado na cadeira de palha, a calça
de agasalho, bebendo seu guaraná. Mas o Portuga, proprietário
do estabelecimento, notara pequena diferença naquele dia, um semblante
saudoso, olhos embargados, o guaraná substituído pela cerveja.
"Minha mulher vivia na corda bamba", confidenciou em tom de casualidade
o velho pescador, que trocara a Ilha de Santa Catarina, com seu vento sul, pelo
calor de Blumenau.
"Vivia na vida?", a amizade permitia a pilhéria.
"Era equilibrista de circo... Pernas bonitas que me vidraram os olhos.
Olhei e falei pro Bastião: Janaína tá no mar não,
Janaína tá andando na corda! 'Tá encantado', respondeu-me
o velho Bastião, agora enrodilhado nas tranças de Janaína
do mar".
Não eram de tristeza as palavras de seu Heleno, mas de um saudosismo
gostoso de quem assumiu o compromisso de viver. Era costume seu lembrar das
coisas passadas, do governo de Getúlio ("que mataram", insiste
sempre), da Copa de 70, do barco que vendera na Ilha para vir trabalhar como
pedreiro na cidade que se desenvolvia no final da década de 40, mas raramente
falava de Sarita, mesmo porque não precisava, seus olhos o denunciavam,
octogenários olhos apaixonados, de uma paixão que nunca arrefeceu.
Paixão nascida do encontro do picadeiro com o mar.
"Não sei o que me deu. Fiquei lá, sentado, o circo vazio.
Bastião me disse depois que insistiu, eu briguei, disse-lhe para ir,
foi, fiquei. E Sarita veio, muito nova, na flor da idade, ainda vestindo o maiô
prateado do espetáculo... 'Me Leva!' apenas disse, não perguntou,
já sabia, e eu levei. O circo inteiro veio atrás de nós,
era de menor, eu não sabia, ela não falou. Fugimos! Ficamos escondidos
na vila, na casa do Bastião, que não cansava de me chamar de louco,
de irresponsável. Queria apenas o meu bem, e sentiu medo quando soube
que até os leões foram mobilizados na minha caçada. Só
sei que passou de mês, nós dois vivendo de amor, e quando o circo
se foi, vendi o barco e vim para cá."
"Arrependido?", pergunta o Portuga ao se levantar para buscar mais
uma cerveja, a primeira já acabara. "Parece arrependido..."
"Saudades do mar sim, mas arrependido não. Sarita é onda
que me envolve todas as noites, seu corpo é coral que me queima a carne.
Não há como me arrepender. É verdade que as mãos
afeitas à rede demoraram a se acostumar à pedra, que cimento e
cal são diferentes de peixe e sal, mas acostumei. Veio a menina, depois
o menino, peixinhos que criamos."
"E quanto tempo faz isso, seu Heleno?"
"Casar de ir na igreja, a gente nunca casou. Mas já faz mais de
meio século. É verdade, emagreci, enruguei, o cabelo rareou, mas
olha minha Sarita, bonita como naquele dia."
"Ó seu Heleno, esta é por conta da casa." Heleno olha
para o copo, a espuma que sobe é lembrança das vagas atlânticas.
Comemorava enquanto aguardava Sarita voltar. Seria uma surpresa, a casa repleta
de flores, o chão repleto de conchas, ainda que repetisse, há
mais de meio século, a mesma decoração. Ela se surpreendia
sempre, "tu não esqueceu!", exclamava. Heleno sorria, os olhos
brilhavam, respondia: "e tu deixa esquecer?"
No dia seguinte o povo do bairro veria novamente, início da tarde, seu
Heleno sentado na entrada da lanchonete, calça de agasalho, a barba rala
e branca a lhe cobrir o rosto moreno, cumprimentando com o seu "bom dia
dona Maria", "saudações minha menina", "à
vista, seu Maroca". A cerveja substituída pelo guaraná. E
todos saberiam que a felicidade do velho pescador brotava da felicidade da antiga
equilibrista.