A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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PORQUE LUA

(Viegas Fernandes da Costa)

Porque é tão triste a Lua, plena e alva, como noiva triste que se esconde sob o véu, refletida na pedra lisa e fria do calçamento, no tampo da mesa, no copo e na bebida. Porque é tão triste esta despedida, esta palavra presa, este peito esburacado, e não há como se concentrar. Meu destino é plantar palavras, minha sina, ser nuvem e ser pálido como esta luz de poste que rasga a madrugada. E os bêbados cantam suas serenatas sem viola e violão.

Porque é tão fria esta Lua, plena e cheia, em noite de sexta-feira. Sussurra-me segredos, segreda-me profecias. Ler a palma da mão da moça, olhar seus olhos, sentir o calor dos seus lábios: "há esta linha, que não te pertence porque minha vida, que te cruza e se vai" - digo-lhe. Ela sorri com todo seu rosto acostumado a chorar baixinho, a soluçar escondida. E seu braço me enlaça, toca meus dedos, silencia meus medos, porque sob a Lua não se desvelam medrosos. Procuro a taça, a garrafa, o líquido. Encontro apenas sua boca úmida e seus lábios clamorosos.

Porque é tão próxima esta Lua, que a desencantaram. Pisaram seu solo, colheram pedras: pensava que fosse da consistência de um floco de algodão. Não, não é! Porque encantados estávamos, como encantados estão todos aqueles que desconhecem. Mas há o verbo, e este define, registra, explica... e mata! E desde então há esta Lua triste que nos contempla, e há esta noiva triste que sorri obrigada, e há esta moça magra que me sorri, e que me toma o corpo, e que me desnuda no escuro. Reconheço-a pelo cheiro, pelo suspiro, pelo gemido, pelo calor que brota de si. E não nos explicamos! Porque assim faríamos ciência, não faríamos amor.

Desde aquela noite não houve mais Lua, houve chuva, muita chuva, e nos lavávamos na ducha do céu. Escondidos, sim, porque proibidos e acusados. Há sempre estes olhos tão homicidas! Porque como dizia John Lennon, "vivemos num mundo onde precisamos nos esconder para fazer amor, enquanto a violência é praticada em plena luz do dia". E porque um dia disseram que eras de outro, então por isso, não podemos ser nossos, porque pregam que não nos pertencemos, porque nossos corpos se tornaram propriedade privada, porque enfim... E há então esta Lua, tão grande, tão lunático astro, e há nós, e há os outros, e há o mundo, e há o medo e também o êxtase. E há tudo, enfim... e nada, porque vento, porque nuvem, porque madrugada...



- X -



Da janela do ônibus contempla o mar, o trânsito parado. Há tanto que já não a via assim no céu, reverberando na água salgada. Toda história tem um fim, que fique esta então assim: a Lua, o mar, a Ilha, um par de olhos e um soluço.

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