Porque é tão triste a Lua, plena e alva, como noiva triste que
se esconde sob o véu, refletida na pedra lisa e fria do calçamento,
no tampo da mesa, no copo e na bebida. Porque é tão triste esta
despedida, esta palavra presa, este peito esburacado, e não há
como se concentrar. Meu destino é plantar palavras, minha sina, ser nuvem
e ser pálido como esta luz de poste que rasga a madrugada. E os bêbados
cantam suas serenatas sem viola e violão.
Porque é tão fria esta Lua, plena e cheia, em noite de sexta-feira.
Sussurra-me segredos, segreda-me profecias. Ler a palma da mão da moça,
olhar seus olhos, sentir o calor dos seus lábios: "há esta
linha, que não te pertence porque minha vida, que te cruza e se vai"
- digo-lhe. Ela sorri com todo seu rosto acostumado a chorar baixinho, a soluçar
escondida. E seu braço me enlaça, toca meus dedos, silencia meus
medos, porque sob a Lua não se desvelam medrosos. Procuro a taça,
a garrafa, o líquido. Encontro apenas sua boca úmida e seus lábios
clamorosos.
Porque é tão próxima esta Lua, que a desencantaram. Pisaram
seu solo, colheram pedras: pensava que fosse da consistência de um floco
de algodão. Não, não é! Porque encantados estávamos,
como encantados estão todos aqueles que desconhecem. Mas há o
verbo, e este define, registra, explica... e mata! E desde então há
esta Lua triste que nos contempla, e há esta noiva triste que sorri obrigada,
e há esta moça magra que me sorri, e que me toma o corpo, e que
me desnuda no escuro. Reconheço-a pelo cheiro, pelo suspiro, pelo gemido,
pelo calor que brota de si. E não nos explicamos! Porque assim faríamos
ciência, não faríamos amor.
Desde aquela noite não houve mais Lua, houve chuva, muita chuva, e nos
lavávamos na ducha do céu. Escondidos, sim, porque proibidos e
acusados. Há sempre estes olhos tão homicidas! Porque como dizia
John Lennon, "vivemos num mundo onde precisamos nos esconder para fazer
amor, enquanto a violência é praticada em plena luz do dia".
E porque um dia disseram que eras de outro, então por isso, não
podemos ser nossos, porque pregam que não nos pertencemos, porque nossos
corpos se tornaram propriedade privada, porque enfim... E há então
esta Lua, tão grande, tão lunático astro, e há nós,
e há os outros, e há o mundo, e há o medo e também
o êxtase. E há tudo, enfim... e nada, porque vento, porque nuvem,
porque madrugada...
- X -
Da janela do ônibus contempla o mar, o trânsito parado. Há
tanto que já não a via assim no céu, reverberando na água
salgada. Toda história tem um fim, que fique esta então assim:
a Lua, o mar, a Ilha, um par de olhos e um soluço.