Houve aquele tempo em que o verso me doava seu alento. Sentava-me à mesa,
máquina de escrever, caneta, os sonhos e desejos da adolescência
fascinando-me e nutrindo a necessidade do verbo, do verbo... Sim, houve estes
dias em que o verso me doava seu alento.
Naqueles dias era tão fácil se presumir poeta. Ah, poetar! Como
era fácil poetar quando para tanto bastava o jogo das palavras, a brincadeira
da aliteração. Olhar o vento, sentir a luz, ou suas ausências,
abrir os braços e correr. A excitação do primeiro texto
publicado, o dedo no dicionário. Encontrar a palavra exata, o sinônimo
mais bonito.
Depois, o silêncio. Caminhar pela noite, vislumbrar postes, gatos e sombras.
Um silêncio repleto de estrelas e medos. E então houve estes dias
em que o verso me doava seu divã. Catárticos versos estes.
Descobrir que há mais, há muito mais para se compor um poema do
que apenas as palavras e os fonemas. Porque se catarse, também necessário
o poema, como o ar, como o pão. E então me cobraram versos os
poetas extensivos. "Onde estão os versos? Onde estão os livros?"
Disse-lhes então que há poemas escritos nos céus e nos
olhos que vislumbram o infinito, mas não compreenderam, e então
meus versos se preencheram de silêncios tão clamorosos como o ruflar
das asas de um pombo. Houve então estes dias em que o verso me doava
seu silêncio.
Hoje, porém, não há poema. Porque há estes dias
em que o verso me doa a sua ausência.