Sim, eu sei! Não é necessário me dizer que a maioria das
crianças carrega consigo o sonho de voar, de ser aviador. Que correm
ao som do primeiro avião que cruza os céus para que possam acariciá-lo
com seus olhos de criança, principalmente se for este céu um céu
de cidade do interior. Sim, eu sei, mas ainda assim quero falar deste sonho,
deste sonho de Ícaro que Charles Steuck, certo dia, revelou-me. E já
vou avisando que não se trata aqui de nenhuma revelação
bombástica, de nenhum segredo íntimo que possa servir de furo
jornalístico às grandes revistas e jornais, apenas breve lembrança
aflorada numa conversa despretensiosa. Também não faço
idéia das razões que me levaram a querer escrever sobre isto.
Mas deve haver razão para tudo? Então apenas me deixo arrastar
pelo narrado, pelo ouvido daquela boca acostumada a cantar mas que tanto cala
para poder melhor ouvir. Porque Charles Steuck é assim, silencioso quando
não está cantando, ouvindo, vendo, construindo múltiplos
mundos sobre este que seus pés tocam. E antes que me acusem de nepotismo
literário, esclareço: somos primos, e quando crianças estudávamos
no mesmo colégio público. É verdade, sentia-me meio constrangido
quando entrava naquela sala de aula e aquele garoto magro e tímido lá
do fundo anunciava a quem quisesse ouvir que éramos primos. Eu mesmo
não sabia disso, afinal, nunca me apresentaram toda família. Hoje,
além de primos, somos bons amigos, admiramo-nos reciprocamente. E quando
o vejo pintando, cantando e fotografando com a desenvoltura com que pinta, canta
e fotografa, sempre tenho a nítida impressão que desde zigoto
já desejava ser este artista que está sendo. Mas não, queria
ser aviador, como a maioria das crianças, queria ser aviador!
A memória aflorou ao acaso, sem premeditação. Conversávamos
conversa cotidiana, ao nosso redor rolava uma festa de aniversário. Nada
fazia supor que Charles retrocederia à infância, aos tempos em
que tinha as pernas cobertas de curativos e em que o bairro em que morava era
um imenso território a ser desbravado e não este pátio
asfaltado que é hoje. Mas a memória retrocedeu, e trouxe à
luz um menino magro sobre uma "caloi-cross" verde envolto numa nuvem
de poeira num sábado à tarde. Pedalava com os olhos fixos na estrada
repleta de seixos traiçoeiros. Destino: o aeroporto. Quer dizer, não
bem um aeroporto, talvez aeroclube com pista de pouso soe melhor, mas que importa?
Importa mesmo saber que era para lá que o ansioso menino Charles pedalava,
o guidão da bicicleta transformado no painel de controle de uma imensa
aeronave prateada.
O ritual se repetia todos os sábados. Depois do almoço, fizesse
sol ou chuva, deixasse seu pai ou não, lá estava o Charles voando
pelas ruas poeirentas de Blumenau para passar a tarde no Aeroporto Quero-Quero.
Ficava por lá, ora sentado na cerca, ora perambulando pelos hangares,
observando o trabalho dos mecânicos, ouvindo a conversa dos pilotos e
até ajudando a empurrar os monomotores para a pista. Observava cada detalhe,
as cores, a posição de cada peça, todo o ritual, enfim,
e tanto andava por lá que chegou o dia em que se transformou numa espécie
de mascote do aeroclube. Convidavam-no para as palestras, pagavam-lhe refrigerante,
deixavam-no sentar na poltrona do piloto, tocar nas hélices, falar ao
rádio. Ah, e Charles exultava! Voltava para casa ansioso para que passasse
depressa a semana e que o próximo sábado chegasse logo e trouxesse
consigo novas emoções e, quem sabe, a possibilidade de voar, de
voar de verdade, não aquele voar sobre a bicicleta, não aquele
voar de sonhar acordado, mas de voar em um daqueles aviõezinhos que todos
os sábados admirava e ternamente limpava com a estopa que levava consigo.
E o dia chegou! Chegou sem anúncio, sem que pudesse avisar a família,
pedir autorização. Talvez fora melhor assim, talvez o zelo dos
pais não permitiria que se arriscasse a tanto: voar! Ah não, prometer-lhe-iam,
um dia, fazer uma viagem em avião de verdade, destes de aeroporto grande,
com mais de cem lugares. Não naqueles aviõezinhos frágeis,
tão volúveis! Não autorizariam, perigoso que era. Principalmente
porque era dia de exames, de provas de vôo! A primeira vez dos pilotos.
Definitivamente não permitiriam! Mas o acaso tratou de mexer seus pauzinhos,
e lá estava o Charles sendo convidado por um dos alunos a embarcar no
bimotor e acompanhar o exame. Charles aceitou de pronto, claro! Mas sequer podia
supor que a aeronave levantasse do solo. Pensou que fosse mais um daqueles testes
teóricos em que o candidato a piloto deve dizer o nome de cada um dos
comandos do painel, depois sacoleja pela pista e estaciona no hangar. Mas quando
viu que o piloto levou o bimotor até o final da pista, alinhou e tomou
velocidade... Ah, então seu coração entendeu que aquele
dia valeria toda a angústia de esperar chegar todos aqueles sábados
e de passar tantas noites acordado imaginando como seria ver sua casa lá
do alto, e os pastos do seu bairro, e a escola que freqüentava, e o rio
que serpenteia sua cidade. E valeu! Sobrevoou a casa, o pai capinando o terreno,
a mãe recolhendo a roupa. Acenou, o pai parou, olhou para cima, acenou
mecanicamente e voltou à enxada; decerto jamais poderia supor que o filho
estava lá, a cara contente esparramada na janela do avião, mal
acreditando naquilo que seu corpo vivia!
Bem, depois outros sonhos foram ocupando o Charles. Os sábados preenchidos
com novas atividades, novos vôos. A vontade de pilotar pouco a pouco dando
lugar a novas vontades e o aeroporto Quero-Quero parecendo cada vez menor aos
seus olhos. Foi cantar, foi pintar, fotografar. Mas a centelha do desejo que
o acalentou quando criança ainda persiste. Vi-a quando Charles me contou
a história, o sorriso na face e o entusiasmo na memória narrada.
E é isso. Talvez algum dia, talvez... ainda veremos o Charles fazendo
arte nos céus.