Aquele homem que cria ovelhas... Nada sei daquele homem, da sua fé, dos
seus medos. Sei tão somente que é um homem que cria ovelhas no
deserto, vagante na aridez das pedras, por onde tange seu rebanho.
Aquele homem que cria ovelhas e se esconde sob os panos... Nada sei dos seus
pés, da sua história, da poeira que recobre suas sandálias,
das cicatrizes do corpo tão bem resguardado do Sol. Do seu povo tudo
desconheço. No entanto, é um homem, e há sempre alguma
razão para que crie ovelhas, não há?
E aquele homem que cria ovelhas some no horizonte, escaldante horizonte. Vai-se
caminhando sobre um solo que parece evaporar.
Aquela criança tem o rosto sujo e os olhos embaçados. Fome? Nada
sei daquela criança de rosto sujo e olhos embaçados, da sua fome,
dos seus medos, da sua família. Parece-me prostrada à sorte, aquela
criança, sentada sobre o barro, entre ruínas, as pernas descobertas,
o sexo nu de criança exposto aos vermes.
Aquela mulher tão vestida de negro! Nada sei daquela mulher tão
vestida de negro, dos seus olhos que fixam resignados o chão. Nada sei
dos seus desejos, dos seus filhos, do marido, se a eles tiver. Nada sei do seu
dia, da sua faina doméstica, dos afazeres que a obrigam a enfrentar o
público das ruas,
Aquela mulher tão vestida de negro... Nada sei da sua educação,
dos pudores que lhe enrubescem as faces, dos costumes que lhe toldam as vontades
e lhes formam o caráter. Nada sei do cheiro que exalam seus cabelos ou
dos aromas que lhe impregnam a cozinha.
E aquela mulher tão vestida de negro caminha depressa, parece fugir,
parece correr, e nada sei das razões que lhe fizeram despertar pela manhã
e enfrentar o mundo.
São personagens, tão somente, deste drama. Se vistos de perto,
são homens, mulheres e crianças. Têm fome, têm sede,
têm dor, têm sono, têm sonhos também, pois são
humanos. Se vistos de longe, são figuras que se movem, que se esbarram.
Agora, se vistos do alto... Bem, se vistos do alto, não são vistos,
não são nada, quando muito um pequeno ponto sobre a terra.
Lá debaixo encaram o céu, os olhos atraídos pelo ruído.
É doce o ruído! Movem os olhos e buscam Alá que parece
chamá-los. E Alá é luminoso, Alá vem rápido,
e num átimo de segundo não há mais olhos que fixam o céu,
nem aquele criador de ovelhas, nem aquela criança de rosto sujo e olhos
embaçados, nem aquela mulher tão vestida de negro. Há apenas
corpos inertes e despedaçados que lá do alto não se podem
ver. Há apenas a terra estuprada que se entrega em enormes crateras.
Há apenas o sonho que se perdeu para sempre. E nós nem os conhecíamos,
e já eram culpados por aquilo que não fizeram!
Não é apenas porque tememos o ruído dos canhões
e o zumbido dos mísseis que cortam o céu que somos contra. Não
é apenas porque o petróleo falta e os preços sobem que
somos contra. Não é apenas porque nos repugna o sangue que se
mistura à terra violada que somos contra. Mas é também
porque matamos aquele homem que cria ovelhas, aquela criança de rosto
sujo e olhos embaçados, aquela mulher tão vestida de negro, que
somos contra!
Somos contra, senhor bush, e o minúsculo é proposital, pois teu
nome não tem honra, teu nome é vergonha, e queremos que o saibas.
Bem como o nome daqueles que te seguem, execráveis nomes, e ainda que
se apaguem de vossas futuras lápides estes nomes vis, a história
não os apagará. Serão sempre lembrados no rol daqueles
que semearam a morte.
Aquele homem, aquela criança, aquela mulher... e nós nem os conhecíamos!