Tem ele um bar no Norte da Ilha de Santa Catarina. Conheci em um destes invernos
de vento sul, as imensas janelas contemplando o Atlântico e as paredes
repletas de pequenos bilhetes enamorados, o amor cantado baixinho - como pretendia
Quintana - nos sussurros da sua eterna brevidade. Urda e eu comíamos
frutos do mar, colhidos ali por perto, os dedos enregelados e os ouvidos perdidos
no marulhar, quando veio nos cumprimentar. Sorriso, aperto firme de mãos,
descobrimo-nos todos historiadores - oras, vejam só - assentados sobre
um pré-histórico sambaqui. Tudo ali cheirava à ancestralidade:
as pedras, a praia, as já camufladas montanhas de conchas a tanto empilhadas,
a tanto saqueadas. Apontou-me com os dedos o velho cemitério; com a boca,
apontou-me histórias do lugar. Uma memória ansiosa por contar,
um par de ouvidos ansiosos por ouvir.
Lembranças dos idos de menino, calças curtas, os pés descalços
na areia molhada, a cabeça matutando guloseimas. Como consegui-las dos
padres que habitavam o colégio católico, lá no alto? Interessante
observar como o alento das lembranças de menino iluminavam o rosto do
adulto. A solução encontrada naquelas milenares montanhas de conchas
e nas necessidades do pequeno museu de história natural que dormia escondido
em algum canto escuro do centenário colégio. As mãos de
criança fuçando nas conchas, encontrando ossos, cerâmicas,
pequenos zoólitos, pontas de flechas, as pedras lascadas, as pedras polidas.
Depois a estrada sinuosa para o alto do monte, para os muros da escola, para
a batina dos padres. Confessou o antigo medo pelos sacerdotes, olhares duros,
jesuíticos. A estes interessavam apenas as peças inocentemente
profanadas nas praias lá de baixo, e a exposição privada
nas estantes do pequeno museu. Melhor assim, quando tantos sambaquis sucumbiam
nas criminosas fábricas de cal e no aterro das rodovias. Eles, moleques
felizes, desciam lambuzados de chocolate e as bochechas inchadas de chupar balas:
nada sabiam daquele povo sambaqui, "coisas de índios", repetiam-se,
cujo valor media-se em doces.
Agora os planos de um grande parque arqueológico, de estudar e deixar
onde está, de convidar o mundo para conhecer. O moleque cresceu, aprendeu
a história do chão onde dormem as fundações do seu
bar, da igrejinha onde o batizaram, do que se esconde sob as pedras do calçamento
que tantas vezes pintou com o sangue inconseqüente das travessuras. Aprendeu
a história e o valor, ensina a outros moleques - os de hoje - a riqueza
daquele grande museu sob o teto do céu, tão maior do que aquele
escondido nos corredores santos e taciturnos daquele colégio.
Quando saímos, já lua na noite, o vento sul tomou-me outro, e
meus pés pisavam com cuidado.
(Blumenau, 15 de março de 2005)