QUINTANA...
"Quem não compreende um olhar tampouco compreenderá uma longa
explicação", ensinou Quintana. E hoje fez um céu de
milagre. Todos os céus são de milagre. Quem sabe o eclipse...
é, talvez o eclipse... E há este sorriso franco neste rosto triste.
Como consegue este rosto triste sorrir tão francamente?
CHAPLIN
Quando criança, lembro-me, houve aquele dia de chuva que me concedeu
o filme de Chaplin. Na televisão, a magia do vagabundo que adota aquele
garoto. Sim, Chaplin é mágico, foi mágico para mim, e que
mal há nesta magia? Quero reaprender a chorar. Por favor, quero reaprender
a chorar, e me encantar com o vento no rosto e libertar meu peito no sol.
REMINISCÊNCIA
Meu avô tirando os dentes postiços e querendo morder-me com suas
gengivas nuas. Minha avó obrigando-me a vestir aquele pulôver verde
naquele dia de calor. O calor não estava no dia, mas no carinho da proteção;
a nudez não estava nas gengivas, mas na inocência da infância.
MANHÃ EM BLUMENAU
Sono e manhã. O guarda estende os braços, abriga passagem às
capivaras que cruzam a faixa e a avenida. Lá... o rio, a água
e meus olhos.
POEMA DE AMOR
Quero meus poemas em ti, constituídos desta matéria marcada apenas
na memória dos nossos corpos. Não os quero sobre frios papéis,
nem muito menos canhestramente declamados nas praças e academias. Porque
minha poesia é simples e única como um beijo, como um ato de amor.
Que meus lábios declamem estes beijos, que minhas mãos componham
sonetos na nudez do teu corpo. E que compartilhes comigo também esta
tua poesia, porque assim afogaremos nosso medo, nossa culpa e nossa dor. Porque
não há razão para sofrermos, não há razão
para supliciarmos nossos corpos na negação dos nossos desejos.
Isto é medieval, negar nossos desejos, interditar nossos corpos. Ah...
não há culpa no belo. No belo mora apenas a arte, apenas a arte...
COMPONDO SILÊNCIOS
Às vezes componho silêncios! É nestes silêncios que
me encontro e onde podem me encontrar como realmente sou! Há poetas,
como os japoneses, que buscam na expressão mínima o conteúdo
máximo. Por isso o silêncio é o poema mais completo e profundo.
Componho silêncios, como quem compõe versos! E falam meus olhos...
há tanta coisa para se ver! Há tanta coisa...
SOLIDÃO
Como uma frase de Flaubert em "Madame Bovary", como aquela aranha
que tecia sua teia em algum coração.
PERGUNTA
Uma vela, uma praça, uma noite. Por quem queima a vela? Por quem vela
a noite? Ah, e a praça onde dorme nossa cegueira! Quem está lá?
(Blumenau, 30 de outubro de 2004)